Capítulo Um: Em frente-2

2078 Worte
Patrick deu uma p*****a no bolso e na faca, e soprou. Canja. Claro que sim. Sentia‑se cada vez mais e******o, cada vez menos capaz. Nunca tinha montado a cavalo até se mudar para Wyoming há dois anos. Mas aprendera o suficiente para respeitar um animal encurralado com cascos duros, dentes grandes e um maxilar forte. Lembrando o pontapé que Mildred lhe impusera, Patrick perguntou — «Temos algum aziar?» Costumava prender o focinho do seu cavalo, Reno, para que este não mordesse o ferreiro. Costumava resultar. «Não.» Wes soltou um largo sorriso. «O truque é ser rápido e estar fora da linha de fogo.» «Ótimo.» Patrick devolveu o sorriso. Achava que conhecia o Oeste por ter crescido no Texas, mas Wyoming era tão ou ainda mais Oeste do que o Texas. Um homem deve ser capaz de se rir de si mesmo, senão a vida torna‑se muito desengraçada bem depressa. «Há quem levante o pé contrário ao mesmo tempo. A maioria dos cavalos aguenta‑se bem com os dois pés levantados.» «Controla a parte de trás, então. Eu fico com a frente.» Wes riu‑se. Novamente nas Urgências, os dois continuaram as amáveis provocações enquanto reuniam materiais e equipamentos. Foi neste momento que Patrick ouviu uma comoção na área da receção. Vozes altas, barulho e o som de corpos a bater em corpos. Uma mulher gritou — «Parem!» — numa voz agitada. Patrick estava do lado exterior da porta da despensa — derrubando não mais do que uma caixa de comprimidos no processo — um passo à frente de Wes, que arrastava uma máquina portátil de raios‑X. Na receção, apressaram‑se na direção de um homem vestido com um uniforme do Departamento de Caça e Pesca e com a compleição baixa e musculada de um lutador. Estava a segurar uma mulher cabisbaixa, com um braço atrás das costas pressionadas contra o joelho do homem. O cabelo da mulher cobria‑lhe o lado da cara, mas não lhe abafava a voz. A mulher estava a soltar palavrões com raiva, perícia e grande variedade. A luz fluorescente crepitava e piscava intermitente sobre as paredes e o chão acinzentados e sobre as cadeiras de braços prateados. Um homem magro de jardineiras e uma mulher num vestido de casa florido com lavandas e de chinelos esconderam‑se no canto. No lado oposto ao da receção, Kim, a enfermeira de serviço, estava entre Patrick e um tipo jovem e magro com botas de caminhada que estava agarrado à cara vermelha e cheia de borbulhas. Kim era uma mulher rija que usava o cabelo com um carrapito cinzento simples. Tinha as mãos levantadas enquanto falava com o caminhante numa voz firme. «Venha comigo. Vou preparar a sala de exames.» O homem lamentava‑se. «Ela bateu‑me. A c***a bateu‑me.» O guarda do Departamento de Caça e Pesca acenou a Kim. «Podemos afastá‑la o mais possível dele?» O homem sacudiu os pulsos. Patrick nunca o tinha visto antes, mas conhecia o guarda anterior, Gill Hendrickson, e presumiu que este homem seria o substituto de Gill. Efetivamente, quando o corpo de Gill fora trazido para a sala de urgências ainda no início do ano — atingido em serviço e declarado morto no local — era Patrick quem estava de serviço. Kim apontou. «Este vai para a sala um. Meta a mulher na sala quatro.» A sala quatro era a mais distante da sala de espera. Patrick olhou para o casal idoso encolhido. Boa ideia, Kim. O guarda perguntou — «O senhor quer apresentar queixa?» O homem estava a cambalear e a abanar a cabeça, com a mão posta no maxilar. «O quê? Não. Não. Nã‑nã.» O guarda içou a mulher, sem ser indelicado. A pressão contra o linóleo tinha deixado a cara da mulher vermelha, mas esta parecia estar ilesa, apesar disto. A T‑shirt dela estava transpirada e húmida à volta do pescoço. Tinha a respiração acelerada, embora não parecesse estar ofegante. Os olhos dela fugiram de pessoa para pessoa, fixando‑se finalmente em Patrick vestido com a bata de médico. «Acho que estou a ter um ataque de coração.» A mulher levou a mão ao peito e ao ombro. Infelizmente, Patrick já tinha testemunhado frequentemente comportamentos e sintomas destes em Dallas. Mas só uma vez em Buffalo. Ela não parecia estar a ter um ataque de coração. Patrick quase podia apostar que ela estava pedrada com speed. Que ambos estavam, ela e o caminhante. O suor, a hiperatividade dele, as dores no peito dela — estes eram muitas vezes efeitos secundários de ansiedade causada por anfetaminas. Mas por que motivo estava o Departamento de Caça e Pesca aqui? «Sou o Alan Turner», disse o guarda a Patrick e a Wes, sem nunca largar a mulher. Wes apresentou‑se. «Sou o doutor Flint. Prazer em conhecê‑lo. De onde são estes dois?» «Estavam num carro aos ziguezagues lá em cima em Red Grade ao pé do parque de campismo. Decidi que eles precisavam de boleia para aqui, por razões óbvias.» Os guardas do Departamento de Caça e Pesca eram agentes de autoridade, com autoridade para aplicar as leis do estado de Wyoming quando necessário, embora a sua responsabilidade fosse mais propriamente a gestão da vida selvagem. Kim regressou de colocar o paciente. «Kim, pode verificar os sinais vitais enquanto o Wes e eu vemos o paciente lá fora?» Caso Patrick estivesse certo, o speed seria a causa de tudo, e, portanto, não era nada que um pouco de Valium não resolvesse. Kim sacudiu a cabeça na direção da paciente. «Sozinha?» «Eu fico com ela», disse Alan. Kim acenou. «Nesse caso, não há problema.» «Não me deixe sozinha, doutor», pediu a mulher. «Estou a morrer.» Agarrou‑se ao peito. «Está em boas mãos. Eu já volto.» Patrick escapou com Wes para a rua. «Não gosto de ver casos de d***a aqui», disse Patrick a Wes. «Há muitos mais ultimamente. Houve uns quantos no último fim de semana, quando o doutor John esteve de serviço.» Havia um contraste absoluto entre a noite calma e o drama da sala de espera, com a exceção do barulho feito pelas rodas da máquina portátil de raios‑X. Patrick parou mesmo ao pé do parque de estacionamento. «Pergunto‑me o que se estará a passar? Esperemos que acabe quando acabar a época de turismo.» Mas a época de turismo terminara no Dia do Trabalhador, há várias semanas. A atenção de Patrick voltou‑se para o cavalo. «Conseguiste ver a pata da Mildred antes de eu chegar?» «Sim.» «É mau?» «Não é uma fratura exposta, mas a senhora Mildred está ferida e está triste. Mesmo ao pé da articulação da quartela, mas acho que não a apanhou. Está com sorte, doutor. O prognóstico para cavalos com fraturas que apanham as articulações é mau. Grande parte deles morre de infeção.» Nem fratura exposta nem da articulação. Não havia ferida aberta, portanto não havia infeção. Isto era bom. Patrick não queria que outro paciente lhe morresse de septicemia, ainda que se tratasse de um cavalo. Especialmente uma semana depois de ter perdido um paciente assim. Bethany Jones. Era o nome dela. Se a família a tivesse trazido ao hospital antes de estar quase a morrer, talvez Patrick a tivesse conseguido salvar. As pessoas em Wyoming não eram senão desenrascadas. Demasiado desenrascadas, às vezes. «Ainda bem.» Patrick continuou a caminhar na direção do atrelado. Wes agarrou‑lhe o braço, detendo‑o novamente. «Um dos miúdos dos Jones veio cá à tarde pedir uma cópia do relatório da autópsia da mãe. «Outra vez, hem?» Patrick nunca os vira, mas ouvia inúmeros relatos de visitas destes. «Eles sempre foram chatos.» «Pode ser que o relatório chegue depressa. Assim, eles deixam de ter razões para continuar a aparecer. Eu próprio estou ansioso para ver o relatório.» Não era fácil não se sentir responsável pela morte de uma paciente que lhe morrera, fosse isto racional ou não. Wes largou o braço de Patrick, e os dois aproximaram‑se do atrelado. Mildred estava agora a olhar para fora, enquanto Tater lhe sussurrava ao ouvido. Acenou quando os viu. «Vou dar‑lhe um analgésico antes de a examinar e de lhe fazer o raio‑X à perna», explicou Patrick. Entrou no atrelado onde estavam Mildred e Tater. Mildred espetou imediatamente as orelhas e começou a pontapear o atrelado com os cascos traseiros. «Shh, Mildred.» Patrick aproximou‑se. «Calma, Mildred.» «Acho que a devíamos levar para outro sítio, doutor Flint», disse Tater. «Boa ideia.» Patrick queria um sítio com mais espaço. Tater puxou o nó da guia de Mildred. «Bem, raios. Ela andou a puxar isto, e agora não vamos conseguir desatar.» Patrick sacou da faca Serra‑ossos e ergueu‑a. «Sim?» «Claro. Eu seguro‑a. Vá depressa, e corte o nó. Há de sobrar corda suficiente para conseguirmos trabalhar.» Patrick cortou o nó e voltou a colocar a faca no bolso. «Aquela faquinha de brincar não serviria para isto, não é verdade?» — disse Wes. Patrick sorriu. Tater conduziu Mildred para fora do atrelado sem mais lesões, graças à tala de primeira que alguém lhe tinha colocado na perna. Atou depois a guia a uma cerca. Patrick aproximou‑se dela novamente, tentando dar‑lhe uma vacina no pescoço. O cavalo reagiu bruscamente e, como uma cascavel, cravou os dentes no peito de Patrick. «Aah!» — gritou. Baixou o ombro e dobrou os joelhos. «Filha de uma grande mula!» Tater golpeou o flanco de Mildred, que ainda demorou dois excruciantes segundos antes de largar Patrick. Este afastou‑se rapidamente. Mildred sacudiu a cauda. Wes cruzou os braços. «Filha de uma grande quê?» Patrick não respondeu. Esfregou depois o peito. Não lhe perfurara a pele. Mas ficaria com uma bela nódoa n***a no dia seguinte. Tater deu uma p*****a no nariz da égua. «Desculpe, doutor Flint. A Mildred tem mau feitio.» Patrick lamentou não ter sabido isto antes de ficar ao alcance dos dentes da égua. «E eu a achar que toda a gente gostava de si, doutor», disse Wes. Patrick lançou‑lhe um olhar. «Alguma vez deste uma injeção a um cavalo?» — perguntou a Tater. «Uma vez ou outra.» Patrick passou‑lhe a seringa. «Então, divirta‑se.» Wes tossiu contra a mão, embora o som se parecesse mais com o de uma gargalhada. O som de passos apressados e de uma voz ofegante assustaram Patrick. «Doutor Flint. Recebemos uma chamada.» Era Kim. Kim nunca corria. «O que foi?» Patrick afastou‑se de Mildred para se manter a ele e Kim em segurança. «Um polícia. Foi atacado por um preso. Estão a trazê‑lo para aqui.» Patrick podia mudar‑se para o fim do mundo, que ainda assim nunca se conseguiria afastar do pior de que as pessoas são capazes. O coração dele acelerou. Patrick conhecia os polícias da zona. Um deles vivia ao lado dele e da família dele. «Condado de Johnson?» «Big Horn.» Patrick não conhecia nenhum polícia do condado de Big Horn. Mas isto não minimizava a tragédia. «A que distância estão?» «Quarenta e cinco minutos.» «E os pacientes que temos lá dentro?» «Os sinais vitais são consistentes com anfetaminas. Não há mais indicadores. E o casal mais velho? A mulher é diabética e esqueceu‑se de tomar insulina.» Patrick fechou os olhos durante um longo segundo. «Tudo bem, então. Cinco miligramas de Valium e observação para os nossos pacientes de speed. Meça o nível de glicose da nossa paciente diabética. Vamos resolver o problema da Mildred, e depois vemos essa gente toda e passamos receitas. Devemos conseguir antes de a ambulância chegar. Obrigado, Kim, e avise‑me se acontecer alguma coisa.» «Tudo bem.» Kim acenou e voltou para o hospital. Entretanto, aparecera um homem corpulento no lugar de Kim, com um cão de montanha dos Pirenéus nos braços. A cabeça do cão estava apoiada no ombro do homem, voltada para o lado oposto de Patrick. Tinha uma pata apoiada nos braços do homem. Patrick olhou uma segunda vez. A pata estava era presa numa armadilha. «É o senhor, o doutor que está a substituir o veterinário?» — perguntou o homem. Patrick teve vontade de negar, mas respondeu — «Sou» —, e pensou: vai ser uma noite muito, muito longa.
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