Depois do desabafo intenso, os ânimos começaram a se acalmar. Vieram as risadas, os comentários engraçados, lembranças boas — a leveza voltou a tomar conta do ambiente. Finalmente, o encontro estava chegando ao fim, e um a um começaram a se despedir.
Kelly pegou o celular, com um sorrisinho no rosto, e mandou mensagem para Rafael:
“Amor, pode vir me buscar.”
Em seguida, enviou a localização.
Do outro lado da cidade, Rafael leu a mensagem e respondeu rápido:
“Claro, amor. Estou indo.”
Sem demora, pegou a chave da moto e saiu de casa. O vento da noite batia forte no rosto, mas o coração estava leve. Ele seguiu direto para o restaurante onde ela estava.
Enquanto isso, os amigos de Kelly aguardavam a chegada dele do lado de fora, rindo e terminando as últimas conversas. Quando Rafael apareceu, os meninos o cumprimentaram com sorrisos amigáveis:
— Mano, a gente sabe que é estranho... mas a gente torce muito pela felicidade de vocês, tá?
Rafael sorriu, sincero:
— Obrigado, gente. Fico muito feliz por isso.
— E fico ainda mais feliz em ver a Kelly saindo com vocês, se divertindo... Espero que chamem ela mais vezes. Ela precisa disso: sair, espairecer, se sentir livre.
As meninas assentiram, tocadas com o cuidado dele.
— Pode deixar, Rafael. Semana que vem vamos marcar uma noite só com as meninas. Vamos avisar ela, sim!
Kelly sorriu, emocionada com tanto carinho:
— Tá combinado, meninas. Semana que vem então. Beijo, tchau!
Ela subiu na garupa da moto, colocou o capacete e se despediu com um último aceno. Rafael ligou a moto e os dois partiram, sumindo na noite.
Depois que ela foi embora, o grupo ainda ficou por alguns minutos conversando. Os meninos foram os primeiros a comentar:
— É, realmente... ele é muito diferente do Otávio.
— Muito? — disse outro — Não, totalmente.
— Aonde que o Otávio ia incentivar a gente a marcar saída pras meninas, pra ela curtir? Nunca!
— É r**m, o Otávio nem cogitava isso.
As meninas ficaram em silêncio por um segundo, até uma delas falar:
— Por uma parte, a gente tá feliz. Ela precisa ser feliz.
— Mas... no fundo a gente sabe que o Otávio ainda mexe muito com ela. Isso é complicado.
— Só espero que o Rafael seja mesmo tudo isso. Que não seja uma máscara. Que ele seja de verdade.
A conversa terminou ali. Cada casal entrou no carro e foi para casa. João com Renata. Luísa com Leandro. Isadora com Caio. Carla com Marcos.
Mas, em outra parte da cidade, a noite era bem diferente.
Otávio estava sentado no chão do quarto, de frente para o armário aberto. As roupas dela ainda estavam ali. Ele passou a mão por uma blusa e sentiu o cheiro que tanto conhecia. Com os olhos marejados, caminhou até o canto da cama e puxou o urso de pelúcia que ela deixava ali. Se deitou com ele nos braços, apertando contra o peito, como se fosse a própria Kelly.
As palavras dela vinham e voltavam como uma maldição:
“Tô livre, Otávio. Com quem eu fico ou deixo de ficar, não é mais problema seu.”
As lágrimas escorriam pelo rosto dele.
— Kelly... volta pra mim... volta pra mim, meu amor... Eu preciso de você...
A dor parecia maior do que ele podia suportar. O vazio era insuportável. E, abraçado ao urso, Otávio chorou baixinho, tentando encontrar forças em lembranças que já não lhe pertenciam mais.
Rafael e Kelly chegaram de mãos dadas, sorrindo, como dois adolescentes apaixonados. Havia uma leveza entre eles, como se o ar ao redor tivesse ficado mais suave. Subiram as escadas com passos calmos, os dedos entrelaçados e os corações em sintonia. Quando entraram, Kelly fechou a porta devagar e se virou para ele.
Sem dizer nada, apenas com os olhos brilhando, ela se aproximou e o beijou. Um beijo gostoso, carinhoso, demorado, daqueles que aquecem o peito e fazem o mundo inteiro parar por alguns segundos. Rafael envolveu a cintura dela com uma das mãos e, com a outra, afagou os cabelos dela com carinho. Ela se encaixou nele como se aquele fosse o único lugar onde cabia.
Kelly sorria. Um sorriso sincero, aliviado. Era como se, enfim, ela pudesse respirar.
Rafael notou que ela usava apenas uma mão para tocá-lo. A outra parecia descansando, mais imóvel. Ele percebeu, mas não comentou. Não queria estragar aquele momento.
— Amor... — ele falou baixinho, com a voz envolta em ternura — como você tá... de verdade? Como foi tudo isso... pra você?
Ela suspirou e o puxou suavemente pela mão, sentando com ele no sofá. Ficaram lado a lado, ainda de mãos dadas. Os olhos dela marejados, mas havia firmeza em sua voz.
— Foi difícil, Rafa. Não vou mentir. Eu tava com medo... medo da reação dele. Mas eu precisava fazer isso. E fiz.
Ela respirou fundo.
— A conversa com o Otávio... foi tensa. Ele surtou de novo. Não aceitava o fim, ficava tentando jogar coisas na minha cara. Disse que eu sempre falava que ia pro dormitório da faculdade, que de onde eu tirei dinheiro pra alugar uma casa... como se eu devesse explicação pra ele. Mas eu fui firme. Cortei ele em cada frase. Interrompi, não deixei ele me engolir. E no final, olhei bem nos olhos dele... e disse adeus.
Ela fez uma pausa e um suspiro escapou.
— Tô triste. Não por ele... mas pelo tempo que perdi. Por tudo que aguentei calada. Mas... no fundo, Rafael... eu tô feliz.
Rafael apertou de leve a mão dela, olhando com atenção, como quem escuta com a alma.
— Kelly... — ele começou, com voz baixa — nada disso foi culpa sua. Ouça bem: você não tem culpa de nada. Não tem culpa de ser linda, de chamar atenção, de ser admirada. Você não fez nada errado. Quem errou foi ele, por não saber te valorizar. Por não saber amar de verdade.
Ela desviou os olhos por um segundo, como se ainda estivesse processando tudo aquilo.
— No restaurante, hoje... — ela continuou — eu pensei tanto nisso. Se ele tivesse lá, e visse algum garçom me olhando, ele já teria apertado minha coxa debaixo da mesa, com força. Teria me olhado com raiva. Em casa... ele viraria um monstro. Me jogaria na cama pra “provar” que eu era dele. Me machucaria. Me forçaria. E depois ainda colocaria a culpa em mim. Como se fosse errado eu ser quem eu sou. Como se fosse errado eu ter um corpo bonito, saber me arrumar.
Ela limpou uma lágrima solitária que escorreu.
— Eu só queria ser amada. Ser respeitada.
Rafael levou a mão ao rosto dela, acariciando com os dedos com tanto cuidado que parecia estar tocando porcelana.
— E você vai ser, Kelly. Comigo, tudo vai ser diferente.
Ele olhou nos olhos dela com doçura.
— Eu não vou mentir, amor. Eu tenho ciúmes sim. Claro que tenho. Porque você é maravilhosa. É impossível não te olhar e sentir medo de te perder. Mas eu te juro... você nunca vai precisar sentir medo de mim. Nunca.
Ela mordeu o lábio, emocionada, e sorriu.
— Você me deixa respirar, Rafael. Me deixa ser livre. Me deixa ser... eu. E isso... isso não tem preço.
Ele se inclinou e a beijou de novo, agora com mais intensidade, mas ainda assim com carinho. Um beijo que selava promessas. Que curava feridas. Que construía algo novo.
Quando se afastaram, ele encostou a testa na dela e disse, baixinho:
— Eu tô aqui. E vou ficar aqui. Por você. Por nós. Sempre.
Ela sorriu de novo, com o coração leve. Pela primeira vez em muito tempo, ela sabia que estava no lugar certo. Nos braços certos.