pedido de perdão para Kelly

1813 Palavras
No fim da tarde, Elisa chegou em casa com o rosto pálido, ainda abalada com a conversa que teve com Keyla. Rogério, seu marido, estava na sala, lendo. Ao vê-la entrar, sentiu imediatamente que algo estava errado. — Elisa? O que aconteceu? Você tá pálida, mulher... — Rogério, a gente precisa ir até o Otávio. Agora. — disse ela, com a voz trêmula. — Por quê? O que houve com ele? — Ele tá fora de si. Fez uma barbaridade com o namorado da Kelly, tá obcecado, doente. A Kelly contou tudo pra mãe dela. E eu ouvi da boca da Keyla coisas que... — ela engoliu seco — ...coisas que eu nunca imaginei que nosso filho fosse capaz. Rogério levantou-se imediatamente. Helena, que já tinha escutado parte da conversa no caminho de volta, pegou as chaves do carro. — Eu vou com vocês. A gente precisa falar com ele agora, antes que ele faça algo pior. --- Os três chegaram na casa de Otávio em silêncio, o coração apertado. Quando abriram a porta, a visão os paralisou. O sofá estava sujo de sangue. O chão, com cacos de garrafa e móveis quebrados. E ali, deitado no chão, coberto de hematomas, estava Otávio. Sujo, trêmulo, com os olhos inchados de tanto chorar. Um homem destruído. — Meu Deus do céu... — murmurou Elisa, correndo até ele. — Meu filho... o que aconteceu com você?! Rogério se ajoelhou ao lado do rapaz, tentando entender. — Otávio?! Fala comigo, meu filho. O que é isso, cara? O que você fez com você mesmo? Helena, com lágrimas escorrendo, sussurrou: — Você tá assim por causa dela? Por causa da Kelly? Otávio chorava como uma criança perdida. Murmurou entre soluços: — Eu preciso dela... eu não vivo sem ela... ela é minha vida... é meu tudo. Eu vou trazer ela de volta pra mim. Eu vou descobrir onde ela mora. Ela vai voltar... comigo. Rogério se levantou num pulo, indignado: — Você vai fazer o quê, Otávio? Vai sequestrar ela? Vai manter ela em cativeiro?! Isso é loucura, meu filho! Você não tá sendo o homem que eu criei! Elisa segurava a cabeça, em desespero: — A Kelly não merece isso, meu filho. Aquela menina só te amou. Só te respeitou. Você destruiu isso com seu ciúmes, com sua posse, com sua dor. Otávio gritou, transtornado: — Amor p***a nenhuma, pai! Ela tá lá com aquele outro! Deixando aquele outro tocar nela! Ela é minha! O corpo dela é meu! — CALA A BOCA, OTÁVIO! — gritou Rogério, com os olhos em fogo. — O corpo é DELA! Ela faz com ele o que quiser! E se você perdeu ela, foi por sua negligência, sua possessividade! Chega disso! Otávio começou a gritar, chutando o que via pela frente. Rogério se aproximou, olhou nos olhos do filho e deu um tapa forte em seu rosto. — CONTENHA-SE! E abaixa o tom com a tua mãe! Já chega, Otávio! Você passou dos limites. Você tá machucando o namorado dela, ameaçando a garota que você dizia amar. Isso não é amor. Isso é obsessão! — Ela reconstruiu a vida dela. Agora você tem que reconstruir a sua! — Vamos embora pra casa. Vamos limpar essa bagunça, colocar sua cabeça no lugar. A Helena vai juntar as coisas dela, e a gente vai entregar pra Kelly. — NADA DELA SAI DAQUI! — ele gritou, com os olhos vermelhos. — Ela vai voltar. Ela vai voltar pra mim! E então, exausto, Otávio caiu no chão, chorando. Sentou-se e curvou o corpo. Elisa correu até ele e se ajoelhou. — Meu filho... por favor... deixa eu cuidar de você... Ele apontou pro peito, batendo com força enquanto soluçava: — O que tá doendo, mãe... é aqui... aqui... — e jogou a cabeça pra trás, desesperado. — Eu quero ela. Eu preciso dela. Eu não sou nada sem ela... Com muito custo, Rogério o levou para o banho, limpou os machucados, deu um calmante. Otávio adormeceu, ainda soluçando Enquanto isso, Helena guardava as coisas da Kelly em uma mala pequena, com delicadeza. — Mãe... — disse ela, olhando pra Elisa. — O que a gente faz agora? — Helena, minha filha... liga pra Kelly. Marca um encontro. Eu preciso ver aquela menina. Eu preciso pedir perdão. E a gente entrega as coisas dela. Essa história tem que ter um fim. Mesmo que doído, precisa ter paz.--- Cena: A ligação e a decisão de Kelly Kelly atendeu o telefone. Era Helena, sua ex-cunhada. — Kelly... por favor, a gente precisa conversar. Minha mãe quer muito te ver. Nós duas gostaríamos de te entregar suas coisas... e te pedir perdão — disse ela, com a voz embargada. Kelly respirou fundo. Seu coração se apertou. — Tudo bem... eu encontro vocês — respondeu com um nó na garganta. Assim que desligou, Rafael se aproximou com cuidado, observando a expressão dela. — Vai mesmo, meu amor? Ela assentiu, tentando conter a emoção. — Vou... até porque você já gastou muito dinheiro comigo. Eu preciso cuidar das minhas coisas, Rafa. Ele segurou as mãos dela com ternura e respondeu com um sorriso doce: — Meu amor... tudo que eu mais quero é que você pegue o meu cartão e compre tudo o que precisar. Tudo novo. É uma nova vida, uma nova fase. Kelly sorriu de leve, com os olhos marejados. — Amor, minhas coisas que estão lá... são todas novas. Da viagem que fiz nas últimas férias. Coisas boas que eu comprei, sabe? Eu não quero que você gaste mais dinheiro comigo. Eu só preciso pegar o que é meu. Ele acariciou o rosto dela e disse com carinho: — Tá bom... leva o carro. — Vou levar — respondeu ela, emocionada. --- Cena: Encontro com Elisa e Helena Elisa e Helena já estavam no barzinho, sentadas à mesa, esperando. Quando Kelly chegou, as duas se levantaram de imediato. O reencontro foi silencioso por alguns segundos, até que Elisa tomou a palavra com a voz trêmula: — Kelly... a gente gostaria de te pedir perdão. Perdão por tudo que você passou. Você não merecia isso. Você é uma mulher maravilhosa. Você não tem culpa de ser linda, inteligente, de ter esse brilho todo. O meu filho... ele passou do ponto. Kelly não aguentou. As lágrimas escorreram pelo rosto. — Desculpa… as coisas com o Rafael não aconteceram do jeito que o Otávio pensa. Eu nunca... nunca traí ele. Nunca. O que eu vivi com o Rafael foi algo que nasceu com o tempo. No começo, ele só me ofereceu ajuda. Eu fugi de casa com medo de morrer… O último surto do Otávio foi tão violento que eu achei que ele fosse me matar. Peguei só meu notebook, meu celular e saí correndo pra estrada. Ela enxugou os olhos, respirando com dificuldade, mas continuou: — O Rafael passou de carro. Ele parecia um anjo. Pedi socorro. Nos primeiros meses ele foi meu porto seguro. Aguentou minhas noites de choro, minhas crises, minhas dores... Ele dormia no sofá. Eu na cama. Só carinho, só cuidado. Depois de um tempo... a gente começou a assistir filmes juntos, conversar mais. Eu comecei a ver nele o que eu não via no Otávio há muito tempo. Foi só depois de meses que nos beijamos pela primeira vez. E mesmo assim, ainda demorou pra termos i********e. Tudo aconteceu no tempo certo. E não como o Otávio acha. Elisa apertou a mão dela sobre a mesa. — Kelly... você não precisa se explicar. Você é maravilhosa. Você merece esse carinho, esse cuidado. O Otávio te perdeu. E dói... me dói ver você com outro, porque eu sempre te enxerguei como minha nora. Uma menina preciosa. Mas... se um dia você voltar, eu ficarei feliz. Se não, só quero ver a tua felicidade. O Otávio precisa se tratar. E nós vamos cuidar disso. Ele vai te deixar em paz. Kelly chorou ainda mais. Helena, com os olhos cheios d'água, se levantou e a abraçou forte. Elisa as envolveu também. Depois de mais alguns chopes e palavras doces, as três se despediram com carinho. Kelly pegou suas coisas, colocou tudo no carro e se preparou para voltar. Antes de entrar no veículo, ela disse: — Manda um beijo pro Rogério. Fala pra ele que eu gosto muito dele. Ele sempre vai ser meu sogro querido... mesmo que eu não esteja mais com o Otávio. E... pede perdão a ele por mim. Elisa se aproximou, acariciando o rosto dela: — Minha filha... você não precisa pedir perdão. De nada. Você não tem culpa de nada do que aconteceu. Você é preciosa demais. E o Otávio... só deixou o que era mais valioso escorrer pelas mãos. --- Cena: Retorno à casa de Rafael Ao chegar, Rafael já a esperava na porta, com os olhos brilhando, cheio de alegria por vê-la de volta. Ele correu até ela, pegou as malas e a ajudou a entrar. — Como foi, meu amor? — perguntou enquanto a ajudava a colocar as roupas no armário. — Foi intenso... muito emocionante. A Elisa, a Helena... foram tão carinhosas. Eu ainda gosto muito delas, sabe? Não como antes, mas com respeito, com gratidão. Elas me acolheram quando eu mais precisei. E hoje, me pediram perdão. Foi difícil, mas eu senti sinceridade. Rafael a olhou com ternura. — Você tem um coração muito bom, meu amor. Muito bom mesmo. Que bom que elas foram carinhosas com você. Que bom que reconheceram que você foi vítima. Porque foi isso que você foi. Kelly, com os olhos cheios de lágrimas, sentou-se na cama. — Mesmo assim... ainda me sinto culpada. O Otávio me fez acreditar que a culpa era minha. Por ser bonita, por ser inteligente, por chamar atenção... por existir. Ele me dizia que se alguém olhasse pra mim, era culpa minha. Se eu saísse com as minhas amigas, ele surtava. Várias noites de viagem... ele me fazia voltar antes do tempo, dizia que eu queria provocar os outros. Ela se calou por um momento, e então olhou para Rafael. — Tem várias roupas aqui que você vai amar. Mas eu não podia usar com ele. Se eu colocasse qualquer coisa que marcasse meu corpo, ele surtava. Ele gritava, quebrava coisas... era como se eu tivesse cometido um crime. Rafael se sentou ao lado dela, segurando sua mão com firmeza. — Eu sei, meu amor. Eu sei que não é fácil. Ele foi o primeiro homem da sua vida. Te marcou com coisas boas, mas também com cicatrizes profundas. E você precisa falar sobre isso. Precisa colocar tudo pra fora. Eu tô aqui. Sou todo ouvidos. Sempre. Kelly o abraçou com força, desabando no peito dele. — Obrigada por ser o homem que me cura. Que me vê... que me escuta. Ele a envolveu com carinho e sussurrou: — Eu te amo. E eu tô aqui. Sempre.
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