O auditório estava cheio. Os alunos foram se acomodando nos assentos acolchoados, comentando sobre os trabalhos, rindo discretamente. Os professores se posicionavam à frente, preparando as anotações e organizando os grupos de apresentação. A tensão era perceptível no ar — era o momento de brilhar diante de toda a faculdade.
Kelly ajeitava o microfone com elegância, trajando um blazer branco sobre uma calça social preta justa, realçando ainda mais o bronzeado adquirido nas férias. Os cabelos soltos caíam em ondas perfeitas sobre os ombros, e o olhar firme mostrava que, apesar do nervosismo natural, ela estava pronta.
Otávio sentava-se na primeira fileira com os amigos. João, Leandro, Caio e Marcos ao seu lado, todos atentos, orgulhosos, confiantes. Já Rafael, isolado no fundo do auditório, observava com aquele mesmo olhar: faminto, obcecado, insano.
Kelly iniciou a apresentação com uma introdução forte, clara, segura. Ela andava pelo palco como quem já nasceu ali. Discorreu com domínio sobre os fundamentos do direito processual, citando jurisprudências, fazendo comparações inteligentes, e emendando análises com precisão técnica e clareza impressionante.
A plateia ouvia em silêncio absoluto. Professores trocavam olhares de aprovação. O reitor, que havia chegado discretamente, parou no fundo, observando, impressionado.
Quando terminou, a salva de palmas foi imediata e intensa. Alguns alunos até se levantaram, e os professores, visivelmente empolgados, acenavam com a cabeça positivamente. Kelly sorriu, levemente tímida com a reação, mas seus olhos brilharam de orgulho.
Foi quando Otávio percebeu.
Rafael, no fundo, estava curvado pra frente na cadeira, os olhos arregalados, os lábios entreabertos, como se estivesse vendo uma visão sagrada. O olhar dele para Kelly era... perturbador. Aquilo não era admiração. Era fome. Era posse.
Otávio cerrou os punhos.
— Não é possível... — murmurou, sem conseguir conter o incômodo. — Não é possível que esse cara ainda não aprendeu. A gente voltou de uma viagem perfeita. Foram dias incríveis... e ele ainda tá nessa? Respeita a minha mulher, mano. Respeita.
Os amigos olharam entre si, tensos. João foi o primeiro a falar, tentando trazer Otávio de volta ao controle:
— Mano, não deixa isso te cegar. A gente passou um mês nas nuvens, com as nossas namoradas, resolvemos os conflitos, crescemos juntos... Agora tá tudo em paz. Você não vai deixar esse cara te tirar disso, né?
Leandro completou:
— Ele quer exatamente isso, Otávio. Tirar seu foco, fazer você perder a cabeça. A Kelly tá brilhando, olha ao redor. O nome dela vai subir nesse campus inteiro. Você é o cara que tá do lado dela. Isso já basta.
Otávio respirou fundo, tentando controlar a raiva que subia como uma onda.
— Eu sei... eu sei. Mas se esse maluco continuar assim...
— A gente tá contigo, irmão — disse Caio, firme. — Mas agora respira. Deixa ela brilhar. Mostra que você é o homem que ela ama. E que você confia nela.
Otávio assentiu, o maxilar ainda travado, mas respirando mais fundo. Ele olhou para o palco e viu Kelly descendo com o mesmo brilho nos olhos. Ela sorriu ao vê-lo, ignorando completamente a presença de Rafael. Aquilo bastava. Era o olhar dela que importava.
Enquanto isso, no fundo do auditório, Rafael sorria sozinho, murmurando para si:
— Ela nasceu pra ser minha...
E o clima, mesmo com os aplausos e a comemoração, carregava uma tensão silenciosa, que pairava entre eles como uma nuvem prestes a desabar.
As semanas seguintes foram marcadas por dias tranquilos na faculdade. O grupo — Kelly e Otávio, Marcos e Carla, Caio e Isadora, Leandro e Luísa, João e Renata — voltou à rotina com mais sintonia do que nunca. Os intervalos eram preenchidos com conversas leves, trocas de olhares apaixonados, risadas no pátio e longos cafés na lanchonete da esquina.
Kelly e Otávio estavam cada vez mais conectados. Ele sempre a esperava entre uma aula e outra com um café ou algo que ela gostasse. Os dois estavam vivendo uma fase intensa, mas ao mesmo tempo serena — como se a viagem que fizeram tivesse selado ainda mais o laço entre eles.
Até que, como sempre, a sombra de Rafael voltou a se aproximar.
Era uma quinta-feira abafada. Kelly saía da biblioteca com alguns livros de Direito Civil nos braços, cabelo preso de forma despretensiosa e o rosto calmo, concentrado. Otávio estava em uma aula optativa, e os demais estavam em laboratórios ou resolvendo pendências individuais.
Rafael apareceu encostado próximo à entrada da biblioteca, olhando de canto de olho como se fosse apenas coincidência.
— Kelly! — chamou com um tom baixo, quase casual.
Ela parou no mesmo instante, já com uma expressão mais fechada. Respirou fundo antes de responder:
— Oi, Rafael. Tudo certo?
— Tudo, tudo sim... — Ele fingiu coçar a nuca, nervoso. — Tava querendo falar com você. Na verdade, pedir um favor. Eu tô me perdendo feio na matéria de Direito Tributário, aquela da professora Letícia. Você manja muito disso... Pensei que talvez pudesse me dar uma ajuda.
Kelly o olhou desconfiada. A última vez que ele tentara se aproximar, havia provocado discussões sérias. E agora aparecia com esse pedido?
— Olha, posso te mandar meu resumo por e-mail e os links que usei. Isso já deve ajudar bastante.
— Não, não... é que acho melhor entender com alguém explicando. Uns vinte minutos só, amanhã depois da aula... na biblioteca. Só isso, juro. Eu não vou insistir em mais nada. É só por causa da prova. Senão vou rodar feio.
Ela ponderou. Sabia que Otávio não ia gostar nem um pouco. Mas também sabia que Rafael era manipulador o bastante para distorcer as coisas, caso fosse recusado de imediato.
— Tá... vinte minutos. Amanhã, depois da aula. Mas só isso, Rafael. Sem insinuação, sem segunda intenção.
Ele deu um sorriso enviesado, com aquele brilho conhecido nos olhos:
— Claro, Kelly. Só estudo. Você é incrível por isso.
Enquanto ela se afastava, ele ficou observando... só que não era exatamente a matéria que o interessava. Seus olhos não estavam nos livros que Kelly carregava — estavam no sorriso dela, no brilho da pele bronzeada, na forma como o cabelo caía solto quando ela se afastava.
E mesmo ao lado de Henrique, que passava por ali e o chamou:
— Cara, para com isso! Acorda! Ela é a mulher do Otávio, velho. Eles moram juntos! Você precisa parar com essa obsessão... olha a vergonha que foi nosso grupo na apresentação. Olha o quanto a gente tá atrasado no relatório. Acorda!
Rafael só riu, cínico:
— Relaxa, Henrique... Eu vou dar um jeito. Mas eu não vou desistir dela. Eu quero ela. E ela ainda vai ser minha.
E o jogo, para Rafael, ainda estava em aberto.
Era fim de tarde. A luz alaranjada do sol entrava pelas frestas da cortina da sala de jantar. Kelly colocava a travessa sobre a mesa, enquanto Otávio servia dois copos de suco. O ambiente estava calmo, mas ela sabia que o que prestes a dizer traria tensão.
Ela puxou a cadeira e se sentou à frente dele, cruzando os dedos sobre a mesa.
— Amor... eu preciso te falar uma coisa. Eu sei que você não vai gostar muito, mas... eu prefiro ser sincera do que deixar você saber por outra pessoa.
Otávio já olhou pra ela com atenção.
— Pode falar, Kelly.
Ela respirou fundo.
— É sobre o Rafael.
Otávio já fechou a cara. Ela continuou, com calma:
— Ele me parou hoje na saída da biblioteca. Disse que tá se perdendo na matéria de Direito Tributário... que vai acabar reprovando. E pediu se eu poderia ajudá-lo. Só amanhã, vinte minutinhos, depois da aula. Lá mesmo na biblioteca. Eu... eu disse que sim.
Otávio soltou o ar pesadamente pelas narinas, afastou o prato e passou a mão no rosto.
— Você disse o quê?
— Eu disse que sim, amor. — respondeu firme, mas com carinho.
Ele se levantou da cadeira, andou alguns passos pela cozinha, tentando conter o impulso.
— porra...— Você sabe muito bem o jeito que aquele cara olha pra você. É com fome. É com desejo. Não é ajuda que ele quer, é você. Ele já deixou isso claro mil vezes!
— Eu sei, Otávio. Eu sei, e não sou burra. Mas eu também sei me defender. Eu não vou dar margem. Vou explicar a matéria e pronto. Se ele ousar alguma coisa, eu levanto e vou embora. Não vou deixar ele passar nenhum limite. Confia em mim, por favor.
Otávio olhou pra ela em silêncio por alguns segundos. Seu coração queria protegê-la a qualquer custo, mas ele também sabia quem era a mulher à sua frente. Kelly nunca deu motivo pra ele duvidar.
Ele voltou pra cadeira, se sentou mais próximo dela e segurou suas mãos.
— Eu confio em você, amor. É nele que eu não confio. Ele não é só inconveniente... ele é obcecado. E eu conheço o tipo. Só... por favor, fica atenta. Me promete?
Kelly sorriu de leve e acariciou a mão dele.
— Eu prometo. E se eu sentir qualquer coisa fora do tom, eu levanto e saio. Você é o único homem que eu quero. Nunca duvide disso.
Ele assentiu, mais calmo. Mas por dentro... o sangue de Otávio fervia.