A Hora que Não Passa

1324 Palavras
Na sala da casa, o clima mudava a cada minuto. O filme já tinha terminado havia um tempo, mas ninguém sequer percebeu. O ar estava carregado, a tensão se espalhava como fumaça. João foi o primeiro a checar o celular. — Cara... já vai dar meia-noite. Elas disseram que iam só passear um pouco, fazer umas comprinhas. Já era pra estarem em casa. Leandro olhou o relógio e bufou alto, passando as mãos pelo rosto. — Eu já tô ficando preocupado. É sério. Isso tá me consumindo. Caio levantou, deu uma volta pela sala, os ombros tensos. — Merda. Eu prometi que ia segurar a onda, que não ia dar crise. Mas... c*****o, tá f**a. E o pior de tudo? Eu não posso nem mandar uma mensagem. Otávio, sentado na beira do sofá, socou a própria perna com frustração. — Tudo o que eu queria agora era mandar uma mensagem. Uma só. Só pra saber se ela tá bem. Mas a gente prometeu respeitar o espaço delas. Ele levantou, começou a andar de um lado pro outro, inquieto. — p***a, mano, o pior... é que elas estão naquele barzinho da orla. Aquele mesmo que a gente foi Já dá pra imaginar, né? Aquele lugar vive cheio de caras babando em tudo quanto é mulher. E agora elas estão lá... rindo, se divertindo, bebendo aqueles drinks coloridos, com aqueles copos altos que elas adoram... João se levantou, desabotoando a camisa de nervoso. — E a gente aqui, feito uns otários. Eu sei que elas não estão dando a******a. Eu sei disso. Mas, c****e, só de imaginar um cara olhando pra Renata do jeito que eu olho... eu fico fora de mim. Leandro murmurou, os olhos ardendo. — A Luísa dançando... com aquele sorrisinho... e alguém ali perto, querendo se aproveitar da liberdade dela... eu vou perder a cabeça. Caio chutou a almofada no chão. — p**a que pariu! É impossível manter o controle! Como é que a gente chegou nesse ponto, cara? Otávio parou, fechou os olhos e respirou fundo, mas a voz saiu falhada: — Eu juro, só de imaginar outro homem fazendo ela rir... rindo daquele jeitinho dela... eu quase vomito. Todos começaram a andar pelo cômodo como leões enjaulados. O ar estava pesado, abafado, cheio de culpa e ciúmes contidos. — A gente falou de respeito, de esperar o tempo delas... mas, porra... como é que espera alguém que você ama, sem saber se ela vai voltar? — gritou João. — Eu me sinto impotente. Culpado. Arrependido. E ainda por cima... ciumento. — disse Leandro, socando o encosto do sofá. Caio respirou fundo, tentando manter a sanidade. — Cara, eu quero mudar. Eu quero ser melhor. Mas agora eu só queria ela aqui. Só queria sentir o cheiro dela. Só queria segurar na mão dela e pedir perdão de novo. Otávio olhou para o chão, os olhos marejados. — Se elas decidirem não voltar... eu não sei o que vai ser de mim. Enquanto isso, no bar da orla... O clima era o oposto. O som animado da música ao vivo, as risadas, o tilintar dos copos de drinks se chocando. As meninas estavam lindas, livres, iluminadas. Sentadas à mesa mais ao fundo, com vista para o mar, nem percebiam a hora passar. Renata gargalhava de uma piada que Isadora contou. Luísa dançava sentada, rebolando discretamente ao som do samba. Kelly brindava com as outras, os olhos brilhando. — Eu precisava disso — disse Kelly. — Respirar. Sentir que eu ainda sou minha. — Estamos vivas, amigas — completou Isadora. — E esse é só o começo do nosso silêncio que grita. Luísa riu. — E eles que aguentem. Porque se querem a gente... vão ter que aprender a merecer. Mais drinks chegavam. Mais risadas ecoavam. O tempo? Ah, ele já tinha se perdido entre os goles, os olhares cúmplices e a sensação libertadora de não ter que explicar nada para ninguém. Enquanto os corações dos homens ardiam de angústia... as mulheres, pela primeira vez em muito tempo, estavam em paz com a própria liberdade. 2h03. A sala estava em chamas — não de fogo, mas de tensão, desespero e pura fúria. Os quatro andavam de um lado pro outro, sem camisa, descabelados, com os olhos vermelhos, os pés descalços e o peito arfando. O filme já tinha acabado fazia tempo, e o tempo parecia ter travado num loop eterno de sofrimento. — EU VOU! — gritou João, chutando o pufe com tanta força que ele bateu na parede. — CARACA, EU VOU! NÃO DÁ MAIS! TÔ FICANDO LOUCO! — EU TAMBÉM VOU! — bradou Leandro, passando a mão nos cabelos como quem arranca a cabeça. — TÁ DEBRUÇADO EM MIM UM ÓDIO, MANO! UM ÓDIO! — São DUAS horas da manhã, c****e! DUAS! — Otávio berrava, olhando o relógio como se ele tivesse ofendido pessoalmente. — Elas SUMIRAM! — Cadê elas, p***a?! — gritou Caio, com os olhos cheios d’água, a voz falhando. — Cadê a isadora, cara?! Ela nunca some assim... — a luiza sempre manda um áudio... uma figurinha... qualquer merda! — Leandro bateu a mão na parede. — A Renata pelo menos curte uma foto! — João gritou de novo. — A Kelly costuma me responder na hora, p***a! — berrou Otávio, a voz trincada de raiva e desespero. Eles gritavam ao mesmo tempo, um por cima do outro, completamente surdos, ofegantes, à beira de perder o juízo. João pegou o celular. — Eu vou mandar mensagem. f**a-se esse joguinho emocional. Eu preciso saber se ela tá bem! — Eu também! — Leandro já digitava, os dedos tremendo. — Não aguento mais! Caio chorava, sim, ele chorava de raiva. — Isso não é normal, cara. Isso não é normal! Eu não fui feito pra isso! — É tortura emocional! — Otávio vociferou. — E o pior: a gente ainda AMA! Nesse momento, a porta da casa se escancarou. — MAS QUE MERDA É ESSA AQUI?! — Carla entrou com Marcos logo atrás, ambos assustados com a cena. João virou com o rosto molhado, exaltado: — CADÊ ELAS, CARLA?! São duas da manhã! Cadê elas, c****e? — Vocês tão chorando?! — Carla arregalou os olhos. — Tão chorando de ódio! — disse Leandro, dando um soco no ar. — ÓDIO DE NÃO PODER FAZER NADA! — Elas não mandaram NADA! Nem uma mensagem, Carla! — gritou Otávio. — Como vocês querem que a gente fique calmo, se nossas mulheres tão num bar a essa hora e sumiram?! — Caio completou. — Calma, calma, calma! — disse Marcos, entrando e fechando a porta. — Se elas chegarem e virem vocês assim, vai dar merda! Vai parecer que vocês são doentes! Vocês tão surtando real! — Porque a gente TÁ, Marcos! A gente tá DOENTE DE SAUDADE, de ciúmes, de medo, de mil coisas! — João gritou, jogando o celular no sofá. — Não dá pra se acalmar, p***a! — gritou Otávio. — Eu tô com vontade de quebrar tudo! Cadê a Kelly, cara?! Cadê? — Eu vou mandar mensagem pra elas — disse Carla, sacando o celular. — Mas, pelo amor de Deus, vocês precisam respirar! — Manda! Manda agora! — Leandro tremia. — Fala que se não responderem, a gente vai atrás! Marcos se posicionou na frente deles, tentando bloquear a porta. — Ninguém vai a lugar nenhum. Esperem a resposta da Carla. Os quatro homens arfavam. O peito subindo e descendo como se tivessem corrido uma maratona. Choravam de ódio. Gritavam de saudade. Sentiam-se impotentes e envergonhados. — Se ela estiver com outro cara... — Caio disse num fio de voz, mas não terminou. Porque não conseguiria. E nesse momento... O celular de Carla vibrou. Eles viraram os rostos em sincronia, como se aquele som fosse a chave da sanidade perdida. Carla olhou a tela. — É a Renata... respondeu. Silêncio absoluto. — E...? — sussurrou João, com o coração na garganta. Carla olhou pra eles. Respirou fundo.
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