Na sala da casa, o clima mudava a cada minuto. O filme já tinha terminado havia um tempo, mas ninguém sequer percebeu. O ar estava carregado, a tensão se espalhava como fumaça.
João foi o primeiro a checar o celular.
— Cara... já vai dar meia-noite. Elas disseram que iam só passear um pouco, fazer umas comprinhas. Já era pra estarem em casa.
Leandro olhou o relógio e bufou alto, passando as mãos pelo rosto.
— Eu já tô ficando preocupado. É sério. Isso tá me consumindo.
Caio levantou, deu uma volta pela sala, os ombros tensos.
— Merda. Eu prometi que ia segurar a onda, que não ia dar crise. Mas... c*****o, tá f**a. E o pior de tudo? Eu não posso nem mandar uma mensagem.
Otávio, sentado na beira do sofá, socou a própria perna com frustração.
— Tudo o que eu queria agora era mandar uma mensagem. Uma só. Só pra saber se ela tá bem. Mas a gente prometeu respeitar o espaço delas.
Ele levantou, começou a andar de um lado pro outro, inquieto.
— p***a, mano, o pior... é que elas estão naquele barzinho da orla. Aquele mesmo que a gente foi Já dá pra imaginar, né? Aquele lugar vive cheio de caras babando em tudo quanto é mulher. E agora elas estão lá... rindo, se divertindo, bebendo aqueles drinks coloridos, com aqueles copos altos que elas adoram...
João se levantou, desabotoando a camisa de nervoso.
— E a gente aqui, feito uns otários. Eu sei que elas não estão dando a******a. Eu sei disso. Mas, c****e, só de imaginar um cara olhando pra Renata do jeito que eu olho... eu fico fora de mim.
Leandro murmurou, os olhos ardendo.
— A Luísa dançando... com aquele sorrisinho... e alguém ali perto, querendo se aproveitar da liberdade dela... eu vou perder a cabeça.
Caio chutou a almofada no chão.
— p**a que pariu! É impossível manter o controle! Como é que a gente chegou nesse ponto, cara?
Otávio parou, fechou os olhos e respirou fundo, mas a voz saiu falhada:
— Eu juro, só de imaginar outro homem fazendo ela rir... rindo daquele jeitinho dela... eu quase vomito.
Todos começaram a andar pelo cômodo como leões enjaulados. O ar estava pesado, abafado, cheio de culpa e ciúmes contidos.
— A gente falou de respeito, de esperar o tempo delas... mas, porra... como é que espera alguém que você ama, sem saber se ela vai voltar? — gritou João.
— Eu me sinto impotente. Culpado. Arrependido. E ainda por cima... ciumento. — disse Leandro, socando o encosto do sofá.
Caio respirou fundo, tentando manter a sanidade.
— Cara, eu quero mudar. Eu quero ser melhor. Mas agora eu só queria ela aqui. Só queria sentir o cheiro dela. Só queria segurar na mão dela e pedir perdão de novo.
Otávio olhou para o chão, os olhos marejados.
— Se elas decidirem não voltar... eu não sei o que vai ser de mim.
Enquanto isso, no bar da orla...
O clima era o oposto.
O som animado da música ao vivo, as risadas, o tilintar dos copos de drinks se chocando. As meninas estavam lindas, livres, iluminadas. Sentadas à mesa mais ao fundo, com vista para o mar, nem percebiam a hora passar.
Renata gargalhava de uma piada que Isadora contou. Luísa dançava sentada, rebolando discretamente ao som do samba. Kelly brindava com as outras, os olhos brilhando.
— Eu precisava disso — disse Kelly. — Respirar. Sentir que eu ainda sou minha.
— Estamos vivas, amigas — completou Isadora. — E esse é só o começo do nosso silêncio que grita.
Luísa riu.
— E eles que aguentem. Porque se querem a gente... vão ter que aprender a merecer.
Mais drinks chegavam. Mais risadas ecoavam. O tempo? Ah, ele já tinha se perdido entre os goles, os olhares cúmplices e a sensação libertadora de não ter que explicar nada para ninguém.
Enquanto os corações dos homens ardiam de angústia... as mulheres, pela primeira vez em muito tempo, estavam em paz com a própria liberdade.
2h03.
A sala estava em chamas — não de fogo, mas de tensão, desespero e pura fúria. Os quatro andavam de um lado pro outro, sem camisa, descabelados, com os olhos vermelhos, os pés descalços e o peito arfando. O filme já tinha acabado fazia tempo, e o tempo parecia ter travado num loop eterno de sofrimento.
— EU VOU! — gritou João, chutando o pufe com tanta força que ele bateu na parede. — CARACA, EU VOU! NÃO DÁ MAIS! TÔ FICANDO LOUCO!
— EU TAMBÉM VOU! — bradou Leandro, passando a mão nos cabelos como quem arranca a cabeça. — TÁ DEBRUÇADO EM MIM UM ÓDIO, MANO! UM ÓDIO!
— São DUAS horas da manhã, c****e! DUAS! — Otávio berrava, olhando o relógio como se ele tivesse ofendido pessoalmente. — Elas SUMIRAM!
— Cadê elas, p***a?! — gritou Caio, com os olhos cheios d’água, a voz falhando. — Cadê a isadora, cara?! Ela nunca some assim...
— a luiza sempre manda um áudio... uma figurinha... qualquer merda! — Leandro bateu a mão na parede.
— A Renata pelo menos curte uma foto! — João gritou de novo.
— A Kelly costuma me responder na hora, p***a! — berrou Otávio, a voz trincada de raiva e desespero.
Eles gritavam ao mesmo tempo, um por cima do outro, completamente surdos, ofegantes, à beira de perder o juízo. João pegou o celular.
— Eu vou mandar mensagem. f**a-se esse joguinho emocional. Eu preciso saber se ela tá bem!
— Eu também! — Leandro já digitava, os dedos tremendo. — Não aguento mais!
Caio chorava, sim, ele chorava de raiva.
— Isso não é normal, cara. Isso não é normal! Eu não fui feito pra isso!
— É tortura emocional! — Otávio vociferou. — E o pior: a gente ainda AMA!
Nesse momento, a porta da casa se escancarou.
— MAS QUE MERDA É ESSA AQUI?! — Carla entrou com Marcos logo atrás, ambos assustados com a cena.
João virou com o rosto molhado, exaltado:
— CADÊ ELAS, CARLA?! São duas da manhã! Cadê elas, c****e?
— Vocês tão chorando?! — Carla arregalou os olhos.
— Tão chorando de ódio! — disse Leandro, dando um soco no ar. — ÓDIO DE NÃO PODER FAZER NADA!
— Elas não mandaram NADA! Nem uma mensagem, Carla! — gritou Otávio.
— Como vocês querem que a gente fique calmo, se nossas mulheres tão num bar a essa hora e sumiram?! — Caio completou.
— Calma, calma, calma! — disse Marcos, entrando e fechando a porta. — Se elas chegarem e virem vocês assim, vai dar merda! Vai parecer que vocês são doentes! Vocês tão surtando real!
— Porque a gente TÁ, Marcos! A gente tá DOENTE DE SAUDADE, de ciúmes, de medo, de mil coisas! — João gritou, jogando o celular no sofá.
— Não dá pra se acalmar, p***a! — gritou Otávio. — Eu tô com vontade de quebrar tudo! Cadê a Kelly, cara?! Cadê?
— Eu vou mandar mensagem pra elas — disse Carla, sacando o celular. — Mas, pelo amor de Deus, vocês precisam respirar!
— Manda! Manda agora! — Leandro tremia. — Fala que se não responderem, a gente vai atrás!
Marcos se posicionou na frente deles, tentando bloquear a porta.
— Ninguém vai a lugar nenhum. Esperem a resposta da Carla.
Os quatro homens arfavam. O peito subindo e descendo como se tivessem corrido uma maratona. Choravam de ódio. Gritavam de saudade. Sentiam-se impotentes e envergonhados.
— Se ela estiver com outro cara... — Caio disse num fio de voz, mas não terminou. Porque não conseguiria.
E nesse momento...
O celular de Carla vibrou.
Eles viraram os rostos em sincronia, como se aquele som fosse a chave da sanidade perdida.
Carla olhou a tela.
— É a Renata... respondeu.
Silêncio absoluto.
— E...? — sussurrou João, com o coração na garganta.
Carla olhou pra eles. Respirou fundo.