O Amor escolheu cara (2)

1184 Palavras
Bem perto dali, na mesma direção onde Kelly sorria com suas amigas, Otávio observava tudo. De braços cruzados, encostado em uma árvore, os olhos cravados nela como se pudesse adivinhar cada pensamento da garota. Ao lado dele estavam João, Caio, Marcos e Leandro, que escutavam seu desabafo com um misto de impaciência e preocupação. — Cara — começou Otávio, com um meio sorriso arrogante — ontem eu quase consegui. Fiquei perto do ouvido dela e senti o corpo dela arrepiar. Eu juro pra vocês, eu tenho certeza que ela ainda me quer. Ela sente minha falta. Vai voltar pra mim. João bufou, cruzando os braços. — Mano... isso é o básico do corpo reagindo ao contato inesperado. Não significa que ela quer você de volta. Não viaja. Caio completou: — É, véi... para com isso. Poxa, ela tá feliz com o Rafael, você viu? Ela tá sorrindo de verdade. Não atrapalha. Marcos, mais direto, balançou a cabeça em reprovação. — Na boa, Otávio... para que você quer que ela volte pra você? Pra você fazer tudo igual de novo? Você ainda não aprendeu a parar de ser filhinho da mamãe, não? Você tá fazendo isso por ego, não é amor. Leandro falou com mais calma, mas firmeza na voz: — Deixa ela viver, cara. Olha em volta. A faculdade tá cheia de mulheres incríveis. Vai viver também. Sai, conhece outras pessoas. Esquece isso. Deixa ela respirar. Mas Otávio, com os olhos fixos em Kelly, respondeu com frieza e teimosia: — Não. Eu não vou deixar. Ela é minha. Eu amo ela. Eu vou voltar pra ela. A esperança é a última que morre... e a minha ainda respira. Vocês vão ver. Os amigos se entreolharam, frustrados, alguns com expressão de desgosto. Foi quando Kelly se levantou. Seu sorriso aumentou ao ver Rafael se aproximando. Ele vinha em passos firmes, mas doces. Os dois se encontraram no meio do pátio, como se o resto do mundo silenciasse só pra aquele momento. E então, o beijo veio. Lento, profundo, apaixonado. Um beijo que falava por eles, que mostrava escolha, entrega, amor. — Olha, olha, olha, Otávio... — disse João, apontando discretamente. — Vê isso. Agora os dois estão ali... lado a lado. Otávio observava, a mandíbula trincada, a respiração acelerada. Os olhos fixos no beijo dos dois. — O que a gente tava falando, cara — continuou Caio. — Deixa ela viver. Você não vai tirar essa paz dela. Olha como ela tá diferente. Olha o amor no olhar dela. Olha a leveza. Mas Otávio balançou a cabeça, murmurando como se não quisesse ouvir: — Não... não. Eu não vou desistir. Ela é minha. Enquanto ele mergulhava em negação, Rafael segurou a mão de Kelly com delicadeza. — Vamos, meu amor — disse ele, sorrindo, olhando nos olhos dela. Kelly assentiu, os olhos brilhando. Os dois caminharam juntos até a moto. Rafael subiu primeiro, e Kelly logo atrás, envolvendo a cintura dele com os braços. Ela encostou o rosto nas costas dele como quem encontra abrigo. O motor roncou, e em segundos, eles sumiram na estrada. Otávio ficou parado, sozinho, com os amigos ao redor trocando olhares pesados. Nenhuma palavra foi dita. O silêncio agora dizia tudo. Ela tinha feito sua escolha — e não era ele. Ainda com o vento batendo no rosto e o coração leve após o beijo apaixonado, Rafael olhou para Kelly pelo retrovisor da moto e sorriu. Quando chegaram em casa, ele desligou o motor, tirou o capacete e, antes mesmo de ela descer da moto, disse com a voz serena e o olhar brilhando: — Meu amor... o que você acha da gente ir pra uma cachoeira hoje? Um lugar só nosso, longe de tudo... só eu e você. Kelly sorriu imediatamente, com os olhos iluminados como se tivesse acabado de ouvir a melhor proposta do mundo. — Ah... eu acho ótimo, Rafael. Vai ser perfeito. Ela entrou animada, foi direto para o quarto e começou a se preparar. Escolheu um biquíni elegante, com tons em verde-água e dourado, e por cima colocou uma saída de praia leve, quase transparente, que deixava seu corpo emoldurado com graça e sensualidade. Montou uma bolsa grande com tudo que imaginava que poderiam precisar: um chapéu de aba larga, bronzeador, duas toalhas macias, um suco de frutas natural, copos térmicos, e ainda colocou uma bermuda extra para Rafael, caso ele quisesse trocar depois do banho. A estrada era tranquila, cercada por árvores e trilhas. O som dos pássaros e da água correndo ao longe já prometia paz. Quando chegaram, Kelly arregalou os olhos, encantada. A cachoeira descia em camadas sobre pedras claras, formando uma piscina natural de água cristalina, rodeada por vegetação densa e o canto da natureza. — Rafael... isso é um paraíso — ela murmurou, tirando o chapéu e sorrindo para ele. — É nosso paraíso — ele respondeu, se aproximando por trás e abraçando sua cintura, apoiando o queixo em seu ombro. — E hoje eu só quero te ver feliz. Desceram devagar até a beira da água. Ela molhou os pés e soltou um suspiro gostoso, enquanto ele se jogava de costas, rindo. Depois, ela entrou também, e os dois se abraçaram no meio do lago, rindo como adolescentes. Ele segurou o rosto dela com ambas as mãos, olhando profundamente em seus olhos. — Kelly... você tem ideia do que é pra mim te ver sorrindo assim? Você me dá paz, você me dá sentido. Às vezes, eu me pego pensando que não sou bom o suficiente pra você. Mas aí você me olha desse jeito... e tudo se acalma. Ela tocou o rosto dele, com ternura. — Você é tudo que eu sonhei... mesmo quando eu ainda não sabia o que era amar de verdade. É com você que eu quero viver todas as minhas primeiras vezes. E todas as últimas também. Eles se beijaram ali, com a água escorrendo pelos ombros, com o som da cachoeira ao fundo como uma trilha natural. O beijo foi calmo, doce, e depois cheio de desejo contido, um misto de amor e promessa. Mais tarde, depois de um tempo relaxando nas pedras, Rafael saiu por um caminho próximo e voltou com um sorriso travesso, carregando uma sacola. — Comprei uns petiscos pra gente... e esse suco aqui de graviola que o pessoal da barraca me indicou. Dizem que é docinho, feito na hora. Kelly deu uma risada gostosa, puxando ele para perto, ajeitando a toalha no chão para se sentarem. — Você pensa em tudo, hein? — disse ela, enquanto ele abria os pacotinhos. — Não tudo... mas penso em você o tempo inteiro — ele respondeu, pegando um pedaço de fruta e levando até a boca dela com delicadeza. Sentaram ali, lado a lado, dividindo o suco no copo térmico, trocando beijos e confidências entre um petisco e outro. O sol refletia nas gotas d'água do corpo dela, e os olhos de Rafael não disfarçavam a admiração. Ali, entre o som da água, os sorrisos silenciosos e os toques suaves, eles não precisavam dizer muito. O amor deles preenchia o ar.
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