Otávio possessivo, brigão

1677 Palavras
Algumas semanas haviam se passado desde a última briga violenta entre Rafael e Otávio. Kelly e Rafael agora caminhavam de mãos dadas pelos corredores da faculdade, os olhos trocando olhares apaixonados, sorrisos cúmplices e carinhos discretos que transbordavam sintonia. Ela usava uma saia plissada azul-marinho e uma blusa branca delicada, enquanto Rafael exibia uma camisa de linho dobrada nos braços e um ar sereno e seguro. Eram o retrato de um novo amor que florescia. Entraram juntos na sala de aula e sentaram-se lado a lado. Durante a aula, trocavam olhares e sorrisos. Ela mordia discretamente a ponta da caneta e ele inclinava o corpo para sussurrar piadas baixinho no ouvido dela. O mundo deles parecia leve. Mas no fundo da sala, como uma sombra carregada de rancor, Otávio os observava com os punhos cerrados. Os olhos dele queimavam de ódio. A cada toque de Rafael em Kelly, a cada risada que ela dava, a fúria crescia. Era como assistir ao próprio ego ser esmurrado a cada segundo. No fim da aula, Kelly foi até a biblioteca com algumas colegas, e Rafael seguiu em direção ao pátio. O sol se escondia entre nuvens, e o vento soprava leve, mas o ar estava tenso. Otávio já o aguardava ali, encostado em um pilar de concreto, como uma bomba prestes a explodir. — Olha só quem tá aí... — disse ele com um sorriso cínico, os olhos vermelhos de ódio. — Tá feliz, né? Dormindo com a minha mulher todo dia... Transando com ela como se ela fosse tua. Rafael parou, o olhar sereno transformando-se em desprezo. — Você realmente não entendeu nada, né? Otávio ignorou. — O corpo dela é perfeito, né? Aquele cheiro adocicado, aquele gemido que deixa o cara maluco... Ela é insaciável. Gosta de ser usada, dominada. Você acha que conhece ela, mas não conhece p***a nenhuma. Ela gosta de força, de ficar sem andar depois. Gosta de sofrer na cama. Rafael cerrou os punhos, mas manteve o olhar firme. — Ela nunca gostou disso. Você forçava. Você é um sádico doente. Ela me disse. Eu toco ela como se estivesse abrindo uma joia rara. Com amor. Com respeito. Você a violentava com a desculpa de prazer. Isso não é amor. É doença. — SEU FILHO DA p**a! — Otávio gritou, avançando. A briga começou com fúria. Socos, chutes, empurrões. Rafael tentou conter, mas Otávio estava insano, cego de ódio. Os dois se agarraram, rolaram pelo chão, acertando golpes pesados. Sangue escorria de cortes abertos, camisas rasgadas, olhos roxos. De longe, João, Caio, Leandro e Marcos viram e correram desesperados para separar os dois. Com muito esforço, conseguiram afastar os dois lutadores ofegantes. — Fica longe da minha namorada! — gritou Rafael, limpando o sangue do rosto. — Você é um monstro! Um doente! — MINHA MULHER! — urrou Otávio. — ELA É MINHA! EU VOU ACHAR ONDE VOCÊ MORA E TIRAR ELA DE LÁ! — Tenta. Tenta chegar perto dela de novo. Eu te arrebento! Acabou, Otávio! Acabou! — FILHO DA p**a! — Otávio se soltou e voou novamente em Rafael. Mais socos. Mais sangue. Kelly, saindo da biblioteca, viu a cena e paralisou. O choque a deixou muda por alguns segundos. As amigas — Renata, Isadora, Luiza e Carla — correram até ela. — Kelly, meu Deus... — disse Renata, colocando a mão no ombro dela. — Não olha. Vem, vamos tirar você daqui. Ela não respondeu. Os olhos lacrimejavam. Então caminhou até onde os rapazes ainda tentavam conter a briga. Rafael, agora com a camisa rasgada e a barriga ferida, sangrava. Otávio ofegava, transtornado, com arranhões por todo o rosto. — Eu não te reconheço mais — Kelly disse com a voz embargada, os olhos cravados no ex. — Você virou um monstro. O que tá acontecendo com você? — VOCÊ! VOCÊ ACONTECEU! — gritou Otávio. — Você me destruiu! Me traiu com aquele... com ELE! — Eu? Eu que te traí? Depois de tudo? Depois de todas as vezes que você me fez chorar, me machucou, me fez sentir como um lixo? Ele me conquistou com amor, com paciência. Você sempre foi louco. Me tratava como um objeto. Chega, Otávio. Se eu pudesse nunca mais te ver, seria um alívio. Ela pegou a chave das mãos de Rafael e disse: — Vamos, amor. Vamos embora. Os dois entraram no carro. Kelly ao volante, os olhos marejados. Rafael, exausto, com o rosto machucado, olhava para ela com carinho. Otávio caiu de joelhos no chão, socando o concreto com as mãos já ensanguentadas. — KELLY! KELLY! VOLTA PRA MIM, POR FAVOR! — gritava em desespero. Os amigos dele se aproximaram, tentando levantá-lo. — Cara, para com isso... Você tá doente. Você destruiu tudo. Deixa ela viver em paz! Mas Otávio só chorava, tremendo de raiva. — Ela é minha... É minha... Eu vou achar ela... Eu vou trazer ela de volta... As meninas ouviram e reagiram com firmeza: — Vai trazê-la contra a vontade dela? Vai amarrá-la? Vai forçá-la? Você tá DOENTE! — gritou Luiza. — Monstro! — disse Carla com raiva. — Você não ama ninguém. Você quer possuir! As quatro saíram chorando, arrasadas. Os namorados das meninas correram ao encontro delas e foram embora, deixando Otávio sozinho, sujo, ferido... e consumido pela própria loucura. --- Kelly e Rafael chegaram em casa em silêncio. Ela estacionou o carro com as mãos trêmulas, o coração apertado pelo que tinha presenciado. Assim que entraram, Kelly puxou Rafael com delicadeza até o sofá. Ele estava com o rosto inchado, alguns cortes na sobrancelha, lábios machucados e a camisa rasgada, revelando um corte em seu abdômen. Ela foi até o banheiro, pegou o kit de primeiros socorros e, com lágrimas escorrendo silenciosas, começou a cuidar dele. — Me desculpa, amor... Me desculpa... — sussurrou, limpando com cuidado o sangue do rosto dele. — Isso não era pra ter acontecido com você. Ele é um monstro... Rafael, mesmo com a dor visível, levantou a mão e segurou a dela com carinho. Os olhos dele estavam cheios de amor. — Ei... você não tem culpa. Já te disse isso várias vezes. Você não tem culpa de nada, meu amor. Ela soluçou, apertando os lábios para conter o choro. — Mas ele te machucou, por minha causa... — Kelly, — disse Rafael com firmeza e doçura — eu não vou deixar ele chegar perto de você. E toda vez que ele vier pra cima de mim, eu vou me defender. Eu não vou recuar. Pode deixar, eu cuido de mim... e cuido de você. Ela o abraçou com delicadeza, sentindo o calor do corpo dele, ainda ferido, mas forte. Um abraço cheio de amor, de proteção mútua. --- Enquanto isso, cada casal seguia para casa, profundamente abalado. Na casa de Renata e João: Renata andava de um lado para o outro no quarto, as mãos no rosto, os olhos vermelhos. João estava sentado na beira da cama, cabisbaixo. — João, por favor, eu só te peço uma coisa... nunca vire um monstro como ele. — disse Renata com a voz embargada. — Porque se isso acontecer, você nunca mais vai me ver na sua vida. João levantou, caminhou até ela e segurou seu rosto entre as mãos. — Renata, meu amor... nunca. Eu jamais seria capaz de machucar você. O que a gente viu hoje... aquilo não é amor. Aquilo é doença. Eu te amo de verdade. E amor de verdade cuida, protege, respeita. Ela chorou no peito dele, sentindo-se segura. --- Na casa de Isadora e Caio: Isadora estava sentada no sofá, as pernas cruzadas, e os olhos fixos no chão. Caio caminhava inquieto pela sala. — Caio... jura pra mim que você nunca vai perder o controle desse jeito? — Nunca, Isa. Nunca. — respondeu ele, ajoelhando-se à frente dela. — Eu sou homem o suficiente pra te respeitar todos os dias da minha vida. E se algum dia eu não for digno de estar ao seu lado, eu prefiro te ver livre e feliz do que te possuir por força. Isso não é amor. O que aquele cara sente, é posse. Eu só quero você se for por escolha, e por amor. Isadora abraçou-o, com os olhos marejados. Na casa de Carla e Marcos: Carla chorava em silêncio no colo de Marcos. Ele a acariciava devagar. — É isso que me dá medo, Marcos... homens que acham que podem possuir uma mulher, como se ela fosse um objeto. — Eu nunca vou ser assim, Carla. — sussurrou ele com firmeza. — Eu sei quem você é. Sei da sua força, da sua liberdade. Eu te amo pela sua essência, não pelo controle. Me deixa continuar sendo o homem que te admira, não que te limita. Ela o abraçou apertado, sentindo a sinceridade de cada palavra. --- Na casa de Luiza e Leandro: Luiza estava no chuveiro, lavando o rosto como se quisesse tirar a cena da cabeça. Leandro a esperava sentado na cama, preocupado. Quando ela saiu, com os olhos vermelhos, ele se aproximou devagar. — Você tá bem? Ela respirou fundo. — Eu tô tentando ficar... mas, Leandro, promete que nunca vai me fazer ter medo de você? Ele a puxou para perto, beijando sua testa. — Nunca. Amor não é medo, Lu. Amor é segurança. Amor é o que eu sinto por você. Se um dia eu errar, me cobre. Me puxe de volta pra luz. Mas nunca vou ser o que aquele cara foi hoje. Luiza assentiu em silêncio e o abraçou forte, como se não quisesse soltá-lo jamais. --- Essas noites foram longas para todos eles. Mas cada um, ao seu modo, entendeu que amar é cuidar. E que o amor nunca deve causar medo. Enquanto isso, na casa de Kelly e Rafael, ela se deitou ao lado dele, abraçando seu corpo ferido com ternura. — Eu te amo, Rafael. E eu nunca vou deixar aquele monstro vencer. — Eu também te amo, Kelly. A gente vai superar isso juntos. E ali, mesmo com a dor, eles encontraram paz no amor verdadeiro.
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