Trabalhei o dia inteiro como se estivesse com a cabeça dentro de um aquário. Os sons chegavam abafados, as vozes dos pacientes pareciam vir de longe, e eu me pegava várias vezes encarando a parede do consultório sem realmente vê-la. Não era distração comum, daquelas que passam com um café forte ou uma pausa rápida. Era um incômodo silencioso, persistente, como uma pedrinha dentro do sapato — pequena, mas impossível de ignorar. Quando finalmente desliguei o computador e peguei as chaves, senti um alívio estranho. Casa. Rotina. Normalidade. Era disso que eu precisava. O trânsito estava tranquilo, o céu começando a escurecer em tons alaranjados e roxos. Liguei o rádio, mas logo desliguei. Silêncio parecia mais honesto naquele momento. Quando cheguei em casa, senti o cheiro de comida vindo

