capitulo 22 O VENENO NAS FUNDAÇÕES

847 Palavras
— Eu não sei por que ele me odeia tanto, mamãe... — soltei, a voz embargada, um tremor milimetricamente calculado sacudindo meus ombros enquanto eu me deixava afundar no abraço dela. Senti o calor do corpo de Marta, o cheiro de lavanda e sabonete caro me acolhendo, enquanto minha mente, fria como o aço de um fuzil na madrugada, calculava cada centímetro daquela manipulação. — Eu sempre tentei ser o irmão que ele queria, o soldado que ele precisava, o sangue que honra o sobrenome... mas para o Kael, eu nunca sou o suficiente. Eu acho... eu acho que, no fundo, ele tem inveja. Senti Marta congelar por um segundo eterno. O silêncio que se seguiu foi denso, quase sólido. A palavra "inveja" era o veneno perfeito, o ácido sulfúrico que eu injetava diretamente no coração da dúvida dela sobre o caráter do seu filho "perfeito". Era a rachadura na viga mestre da confiança que ela depositava no primogênito. — Inveja, Breno? — ela sussurrou, a voz carregada de um choque doloroso, como se eu tivesse acabado de revelar uma heresia. — Inveja de quê? Ele tem o controle absoluto de Pedra Bruta, ele tem o dinheiro que flui como rio, ele tem o respeito que beira o temor de todos aqueles homens... Por que ele teria inveja de você? — Ele tem o controle, mas ele não tem o que o nosso pai tinha. Ele não tem esse fogo que corre nas veias, mamãe. Ele sabe que o morro me olha e vê o Velho, vê a alma de quem construiu isso aqui no barro e no chumbo. E quando olham para ele? Veem apenas um contador de gravata, um engenheiro frio que trata vidas como estatísticas em uma planilha de Excel — continuei, afastando-me o suficiente para cravar meus olhos nos dela, deixando meu lábio cortado tremer e uma lágrima solitária, fruto de puro esforço teatral, rolar pelo meu rosto manchado de sangue. — Ele tem inveja porque o povo me ama, Marta. Ele tem inveja porque o senhor meu pai me confiava as missões que exigiam coragem real, e não apenas algoritmos. Ele quer me apagar, me transformar em poeira, para que ninguém se lembre de como um líder de verdade deve ser. Ele quer ser o único sol desse sistema, nem que para isso ele tenha que esmagar o próprio sangue e enterrar o irmão vivo sob o asfalto que ele tanto idolatra. Marta se levantou num ímpeto, a indignação transformando sua postura de rainha melancólica em uma leoa ferida. Ela não era mais apenas a mãe preocupada com a briga dos filhos; ela era a viúva do dono do império, a guardiã da linhagem. A ideia de que o Kael estava tentando "limpar" a árvore genealógica para reinar sozinho num trono de gelo a estava consumindo por dentro. — Ele não vai te apagar, Breno. Eu não vou permitir que ele transforme esta família em uma empresa fria onde o sangue não vale nada — ela disse, as palavras saindo como chicotadas de couro. — Ele pode ser o Arquiteto do morro, o gênio das rotas e dos subornos, mas eu sou a Arquiteta desta família. Se ele acha que pode descartar você como se fosse um erro de cálculo num projeto malfeito, ele vai descobrir que a base onde ele pisa, o chão que sustenta o ego dele, é feito da minha autoridade e do meu consentimento. Eu abaixei a cabeça, fazendo um esforço hercúleo para esconder o sorriso cínico e predatório que teimava em querer rasgar o meu rosto. Ver a Marta com esse ódio purificado nos olhos, direcionado exatamente para o alvo que eu, com a minha "crueldade burra", havia escolhido, era uma sensação melhor do que qualquer carga de fuzil ou pino de cocaína pura. Eu estava criando um monstro de ressentimento dentro do santuário dele, e o Kael, com toda a sua inteligência superior, não veria o golpe vindo de quem ele julga ser sua base mais segura. — Não briga com ele por minha causa, mãe... deixa pra lá — menti descaradamente, sabendo que a psicologia reversa era o combustível que faltava para a fúria dela. — Eu aguento. Eu me viro no asfalto, durmo em qualquer buraco na Baixada, dou meu jeito de sobreviver como um renegado. Só não quero ver você sofrendo ou sendo humilhada pela arrogância gélida dele. — Você não vai a lugar nenhum, Breno! Esta mansão é sua por direito de nascimento! — ela sentenciou, caminhando em direção à porta com uma determinação gélida que eu raramente via. — Eu vou esperar o seu irmão chegar. E ele vai ter que me explicar, olho no olho, sem rodeios técnicos, quando foi que ele decidiu que o sobrenome dele valia mais do que o seu. Ele vai entender de uma vez por todas que, nesta casa, a última palavra ainda é minha. E a minha palavra é que você fica. Ela saiu do quarto, os passos firmes ecoando pelo corredor de mármore como uma sentença de morte para a paz do Kael.
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