CAPITULO 1 KAEL

1602 Palavras
O PESO DA COROA DE ESPINHOS: O ARQUITETO E O LABIRINTO DE SANGUE PARTE I: A VARANDA DO REI SOLITÁRIO O silêncio no topo de Pedra Bruta nunca é absoluto; é uma massa densa, composta por camadas de tensão, sobrevivência e segredos enterrados sob o concreto. Mesmo aqui, na varanda da mansão que herdei do meu pai uma fortaleza de vidro e aço que se ergue acima da miséria como um monumento à nossa ascensão sobre o caos o som do morro sobe como um lamento constante. É uma sinfonia desregulada: o rosnar gutural dos motores das motos cortando as ladeiras íngremes, o estalo seco de um rojão que meu ouvido treinado identifica em milissegundos como um código de aviso, e o vento cortante que traz o cheiro onipresente de pólvora, poeira e o perfume adocicado do fumo que sustenta nosso império. Eu aperto o parapeito de ferro frio até os nós dos meus dedos ficarem brancos, a pele esticada sobre o osso, refletindo a rigidez que habita meu peito. Ser o Arquiteto deste lugar não é um privilégio; é uma sentença de vigilância eterna. Minha mente não descansa; ela processa o mundo em vetores de risco, fluxogramas de logística e probabilidades estatísticas. Para os outros, o morro é um amontoado de becos; para mim, é uma planta baixa onde cada movimento deve ser calculado para evitar o desmoronamento da estrutura. Se eu falhar no cálculo, o peso do céu esmaga a todos nós. Eu não preciso me virar para saber que ele está ali. O cheiro do cigarro caro misturado ao odor metálico de óleo de arma entrega sua presença. Breno é a antítese de tudo o que construí. Se eu sou o cálculo, ele é o erro de arredondamento. Se eu sou o concreto, ele é a rachadura que ameaça a fundação. Ele está sentado no sofá de couro legítimo que custou mais do que a casa de dez moradores lá embaixo, limpando seu fuzil com uma agressividade desnecessária. O metal batendo contra o metal num ritmo frenético me irrita os nervos, não pelo barulho, mas pelo que simboliza: a fome canibal de um poder que ele sente que escorre por entre seus dedos toda vez que eu abro a boca para tomar uma decisão fundamentada na lógica. Para Breno, o poder é uma arma carregada; para mim, é o dedo que sabe exatamente quando não puxar o gatilho. Minha mente, essa máquina traiçoeira que nunca tira folga, me arrasta de volta para aquele quarto úmido e escuro, três anos atrás. O cheiro de éter, urina e morte ainda parece impregnado nas minhas narinas, desafiando os perfumes importados que uso hoje. Meu pai, o homem que transformou um amontoado de barracos esquecidos pelo Estado em uma potência econômica e militar, estava reduzido a uma carcaça pálida sobre os lençóis de cetim. Eu me lembro do suor frio na palma da minha mão quando ele me chamou com aquele gesto trêmulo de quem já vê a sombra do outro lado. — Kael... — a voz dele era um sussurro rouco, um som que parecia sair de uma tumba. — O morro não precisa de um carniceiro, meu filho. Carniceiros morrem cedo e deixam o rastro para os lobos. Pedra Bruta precisa de um mestre. Você tem a cabeça fria. Você sabe transformar o caos em ouro, a desordem em lucro. Eu senti o olhar de Breno queimando nas minhas costas naquele quarto. Um olhar que poderia derreter aço. A inveja dele não nasceu ali, mas ali ela se tornou o seu combustível principal. Breno sempre foi o filho que buscava a aprovação no sangue, nos gritos e na violência gratuita. Ele queria ser o reflexo do pai em seus dias mais sombrios. Mas o Velho, em sua sabedoria terminal, sabia que o futuro não pertencia aos bárbaros, mas aos estrategistas. — A partir de hoje, você é o dono — o Velho sentenciou, tossindo um sangue escuro logo em seguida. — Breno... você é a mão que aperta o gatilho, a força que impõe o medo quando o respeito falha. Mas Kael... Kael é a mente que decide para onde a bala vai. Você será o braço direito do seu irmão. Jurem pela memória de quem os criou que um será a sombra do outro. Naquele momento preciso, eu vi o rosto de Breno se transformar em uma máscara de mármore rachado. A decepção se tornou um ódio destilado, puro, sem cortes. Ele não queria ser o braço; ele queria ser o cérebro, a face, o nome gritado nos bailes. Ele aceitou, porque no nosso mundo a palavra do pai é lei dogmática até depois da sepultura, mas o "sim" que ele murmurou entre dentes foi a primeira mentira de uma longa série que hoje ameaça nos soterrar. PARTE II: O CONFLITO DAS VISÕES Agora, aqui no presente, eu sinto a tensão vibrando entre nós como um fio de alta tensão prestes a partir sob o peso de uma tempestade. Breno se levanta com um salto, o fuzil pendurado no ombro como se fosse um acessório de moda, e caminha até a varanda. O brilho de inveja nos olhos dele é tão nítido quanto o ouro de dezoito quilates que ele carrega no pescoço — uma ostentação vulgar que eu sempre desprezei. Ele para ao meu lado, mas não olha para o horizonte; ele olha para mim, buscando uma rachadura na minha armadura de gelo. — O carregamento da fronteira está atrasado, Kael — ele diz, a voz carregada de um deboche que ele m*l tenta esconder. — Três dias, irmãozinho. Três dias de lucro parado enquanto os moleques lá embaixo começam a perguntar se o "Arquiteto" perdeu a mão. Se fosse na época do pai, eu já teria descido o asfalto com dez carros e resolvido isso na base do chumbo e do terror. Mas você... você prefere ficar aqui, fazendo contas, olhando gráficos, como se a gente fosse dono de uma padaria gourmet e não de um complexo de favelas. Eu não me viro para encará-lo de imediato. Mantenho meus olhos fixos na comunidade lá embaixo, onde as luzes começam a piscar como estrelas caídas na lama. Eu vejo as famílias que dependem da ordem que eu estabeleci, as crianças que podem brincar na rua porque eu proibi o "trabalho" perto das escolas e das creches. Se eu deixar o Breno assumir as rédeas por um dia que seja, Pedra Bruta vira um campo de extermínio em menos de doze horas. A inveja dele é cega; ela não vê o império, ela só vê a coroa. — O carregamento está atrasado porque a fiscalização na rodovia aumentou devido a uma operação política desnecessária, Breno — respondo, minha voz saindo num tom baixo, porém cortante como uma lâmina de barbear. — Eu já movimentei as peças certas. O suborno foi entregue na corregedoria e o "acerto" foi feito. Se você descer atirando agora, como um animal acuado, você só vai atrair o batalhão de choque inteiro para a nossa porta principal por uma questão de ego. Aprenda de uma vez: o barulho é o maior inimigo do lucro sustentável. — Lucro... — ele cospe a palavra no chão da varanda, um gesto de desrespeito que faz meu sangue ferver, embora eu mantenha a face impassível. — Você fala como um contador de banco, não como um homem de guerra. Nossa mãe está certa, sabia? Você está ficando mole, Kael. O asfalto e esses seus livros de estratégia estão te transformando em um desses engravatados que você tanto admira. Você está perdendo a essência do morro. O povo não quer um gestor, eles querem um líder que sangre com eles! Eu finalmente me viro e o encaro. O contraste é gritante. Ele é o caos em pessoa, suado, ansioso, carregado de metais e armas. Eu sou o controle, vestindo linho escuro, com as mãos limpas e o olhar que atravessa a sua alma pequena. — A "essência do morro" que você tanto prega é o que mantém o nosso povo na miséria e os nossos soldados no cemitério — digo, dando um passo em sua direção, invadindo o seu espaço pessoal. — Liderar não é sangrar, Breno. Liderar é garantir que ninguém precise sangrar sem necessidade. Você tem inveja porque eu não preciso gritar para ser obedecido. Você tem inveja porque o morador me respeita pelo que eu construí, enquanto só te temem pelo que você pode destruir. Há uma diferença abismal entre ser um rei e ser um carrasco. Ele recua um milímetro, a mão apertando o punho do fuzil. Por um segundo, eu vejo o desejo de violência brilhar em suas pupilas. Ele quer me derrubar dessa varanda. Ele quer apagar a luz que o faz se sentir tão pequeno. A inveja de Breno é uma doença degenerativa; ela corrói a sua lealdade e oblitera o seu senso de família. — O pai te escolheu porque você era o filho "certinho", o que sabia ler os livros dele — Breno sibila, o rosto contorcido. — Mas ele esqueceu que no Pedra Bruta, quem não é lobo vira janta. Eu sou o lobo, Kael. Eu sou o que mantém esse lugar seguro enquanto você brinca de ser empresário. Um dia, esse seu castelo de papel vai pegar fogo, e eu vou estar aqui para rir das cinzas. Eu sorrio, um movimento frio que não chega aos meus olhos. — Se o meu castelo pegar fogo, Breno, você será o primeiro a ser consumido pelo incêndio, porque você não tem inteligência suficiente para encontrar a saída. Agora, saia da minha frente.
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