Entre Olhares e Faíscas

1258 Palavras
O sol começava a se pôr sobre o morro, tingindo o céu de laranja e vermelho, enquanto Bela caminhava pelos corredores da casa, perdida em pensamentos. Desde que chegara ali, cada dia era um desafio. Não apenas sobreviver, mas também aprender a lidar com o homem que, aos poucos, se tornava uma presença constante em seus pensamentos, mesmo quando ela se recusava a admitir. Ao passar pela sala principal, ela o viu. Alex estava encostado no balcão, charuto aceso, os olhos atentos a tudo ao redor. Mas, ao perceber a presença dela, desviou o olhar por um instante, como se tentasse ignorar algo que não podia controlar. Bela sentiu um frio percorrer a espinha. A simples presença dele provocava um efeito estranho em seu corpo: o coração acelerava, a respiração falhava e, por mais que tentasse manter a postura firme, sentia-se vulnerável. — Veio me espiar? — A.S. provocou, finalmente erguendo o olhar e encarando-a. — Eu? — Bela respondeu, fingindo surpresa. — Só passei pelo corredor. — Não me engana. — Ele deu um passo em direção a ela, o charuto ainda entre os dedos. — O jeito como você olha pra mim diz mais do que você imagina. Bela engoliu em seco. — Eu olho pra você porque preciso. Não porque quero. Alex sorriu, aproximando-se mais. — Precisa? — ele repetiu, a voz baixa, quase um sussurro, carregada de provocação. — Interessante. Porque parece que você não consegue desviar os olhos de mim. Ela o encarou, sentindo a tensão aumentar. — Eu não tenho que explicar meus movimentos pra você. — Tem razão. — Ele deu uma risada curta, mas intensa. — Mas isso não vai impedir que eu continue observando cada gesto seu. O silêncio caiu entre eles, pesado e carregado de significado. Bela percebeu que, apesar da frieza que ele tentava manter, havia algo ali que não podia ser ignorado. Um tipo de magnetismo que a atraía e, ao mesmo tempo, a assustava. — Você tem que aprender rápido que aqui nada é como você pensa. — Alex continuou, inclinando-se levemente. — No morro, cada palavra, cada olhar, cada gesto, tem um preço. — Então me diga o preço do meu olhar. — Bela retrucou, firme, sem baixar a cabeça. O sorriso de Alex se alargou, e seus olhos brilharam com interesse. — Você é diferente. — Ele falou baixo, quase para si mesmo. — Diferente de tudo que eu já conheci. Bela sentiu o coração disparar. Diferente? Aquilo era um elogio ou uma advertência? Ela não sabia, e a incerteza a deixava inquieta. Ele deu mais um passo, e a distância entre os dois diminuiu. — Mas cuidado. Essa diferença pode ser perigosa. — Alex disse, a voz carregada de ameaça e desejo ao mesmo tempo. Bela manteve-se firme, mas um arrepio percorreu sua espinha. — Eu já estou acostumada ao perigo. — respondeu, com um fio de desafio na voz. Alex riu baixo, o som rouco e intenso. — Gosto disso em você. — Ele deu meia volta, como se quisesse encerrar a conversa, mas o olhar permaneceu fixo nela, pesado, quase predatório. Bela respirou fundo, tentando recompor o ritmo do coração. Sabia que aquela proximidade era perigosa, mas algo dentro dela não queria se afastar. Mais tarde, quando todos já haviam se recolhido, Bela estava no quarto, olhando pela janela o céu estrelado. Os sons do morro à noite eram diferentes: tiros distantes, risadas, passos rápidos, e o murmúrio constante da vida que continuava ali, mesmo em meio ao caos. Foi quando ouviu passos suaves atrás de si. Alex entrou no quarto sem avisar, como era costume. — Você pensa demais. — disse, aproximando-se da janela. — E às vezes pensa em coisas que não deveria. — E você também. — Bela respondeu, mantendo o olhar firme. — Não devia estar aqui. Ele se aproximou ainda mais, o corpo grande e intimidante. — E por que não estaria? — perguntou, a voz baixa e rouca. — Esse quarto agora também é meu território. Bela sentiu a proximidade do corpo dele, o calor misturado ao cheiro de tabaco e perfume masculino. — Eu não vou me curvar. — disse, firme, apesar da tensão que percorria seu corpo. — Não espero que você se curve. — Alex respondeu, quase sussurrando. — Espero que você lute. — Seus olhos a analisavam, penetrantes. — E talvez… que você me faça querer lutar também. Bela engoliu em seco. Havia algo nas palavras dele que a deixou inquieta, mas também estranhamente curiosa. Ele deu um passo para trás, mas o silêncio permaneceu pesado, carregado de tensão. Ela sabia que aquela noite, como muitas outras, seria longa, e que os jogos entre eles só estavam começando. Na manhã seguinte, Bela acordou com a lembrança dos olhos de Alex presos em sua mente. Não conseguia afastar a sensação de que havia algo mais por trás do olhar frio e intimidador dele. — Bom dia. — disse ele, surgindo no corredor, já vestindo a roupa simples de sempre, mas com o porte de quem dominava o mundo ao redor. — Bom dia. — Bela respondeu, tentando soar natural, mas sentiu o corpo tremer levemente. Ele se aproximou, olhando para ela de um jeito que a fez sentir-se exposta, como se pudesse enxergar seus pensamentos mais íntimos. — Você é resistente. — disse, baixando a voz. — Gosto disso. — Resistente? — Bela arqueou uma sobrancelha. — Você acha que isso é positivo ou negativo? — Positivo. — Ele sorriu de forma torta. — Por enquanto. Mas resistência também pode ser perigosa… — A.S. continuou, o olhar fixo nela, quase hipnótico. Bela respirou fundo, sentindo uma mistura de medo e desejo. Cada palavra dele parecia atravessar sua pele, tocar algo profundo e proibido dentro dela. Mais tarde, durante uma visita ao pátio do morro, Bela observava a rotina da comunidade. Crianças brincando, homens discutindo estratégias, mulheres observando cada movimento com cautela. Alex estava ao lado dela, explicando regras, mostrando territórios e delegando tarefas. — Preste atenção. — disse ele, apontando para um grupo de homens. — Esses são os meus. Eles respeitam minhas decisões. Qualquer sinal de fraqueza pode ser fatal. Bela assentiu, absorvendo cada palavra. — Eu entendo. Ele a observou, como se testasse a sinceridade da resposta. — Você é mais inteligente do que parece. — disse, finalmente sorrindo. — Mas ainda assim, está entrando em um mundo que pode te engolir. — Talvez seja isso que me atraia. — ela respondeu, quase sem querer. Alex congelou, olhando-a surpreso. — Atraia? — repetiu, em tom de dúvida. — Sim. O perigo. O risco. Até você. — Bela respondeu, firme, e depois virou-se, sentindo o coração disparado. Ele não disse nada, mas o olhar dela percebeu algo novo: interesse, mas também uma centelha de desejo. Um perigo ainda maior do que a vida no morro. À noite, novamente no quarto, Alex entrou sem bater. Desta vez, aproximou-se devagar, observando-a enquanto ela tentava arrumar a cama. — Você me provoca mais do que imagina. — disse ele, com a voz rouca. — E você me assusta mais do que deveria. — Bela respondeu, firme, mas com um leve tremor na voz. Ele sorriu, inclinando-se levemente. — Talvez seja isso que torna tudo interessante. O clima entre eles estava carregado, elétrico. Cada palavra, cada olhar, cada gesto carregava uma tensão quase insuportável. Bela sabia que, se não tivesse cuidado, poderia se perder completamente naquele homem perigoso e fascinante. E, no fundo, algo dentro dela queria exatamente isso: perder-se, mesmo sabendo do risco.
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