Bela estava sentada no colchão fino, encostada na parede, abraçando os joelhos. O barulho do rádio de pilha vindo da sala misturava-se ao cheiro forte do cigarro. O barraco que A.S. lhe dera para ficar não era mais do que quatro paredes m*l rebocadas, mas ainda assim era melhor que muitos outros no morro. Ela sabia que isso não era gentileza — era poder.
De repente, a porta rangeu. Alex entrou, a camisa preta colada ao corpo suado, uma pistola enfiada na cintura. Os olhos dele, sempre duros, cravaram-se nela.
— Tá acordada, princesa? — a voz dele tinha um deboche frio, mas também uma sombra de curiosidade.
— Difícil dormir nesse lugar — respondeu, firme, sem baixar os olhos.
Ele ergueu uma sobrancelha, caminhando até ela devagar, como se testasse seus limites.
— Nesse lugar? — riu de canto — Esse lugar é meu reino. Aqui quem manda sou eu.
— Reino de medo — ela rebateu.
O silêncio pesou por segundos. Alex encostou-se na parede, cruzando os braços. Bela podia sentir a tensão entre eles, como se cada palavra fosse uma faca sendo afiada.
— Você fala demais pra quem veio aqui se vender pela vida do irmão. — ele deixou escapar, direto, como se quisesse lembrá-la de sua posição.
— Eu não me vendi — respondeu, firme — Eu escolhi salvar quem eu amo. Coisa que talvez você nunca tenha feito.
Alex deu uma risada seca, mas os olhos traíram um relance de algo que nem ele entendia.
— Você é atrevida, garota. As outras... as outras baixavam a cabeça. Você não.
— Porque eu não sou “as outras”, Alex.
O nome dele saiu firme de sua boca, e pela primeira vez, o coração dele vacilou. Havia algo em Bela que o incomodava — um espelho que ele não queria encarar.
O rádio na sala aumentou de volume de repente. Vozes apressadas ecoaram. Alex puxou o rádio comunicador da cintura.
— Fala.
Do outro lado, uma voz rouca:
— Chefia, tem polícia descendo pelo beco da 12.
Alex respirou fundo, os olhos voltando a gelar.
— Mantém posição. Se avançar, mete bala.
Ele desligou, e sem olhar para Bela, foi até a porta. Mas parou. Virou-se para ela, e pela primeira vez, havia algo diferente em sua voz:
— Fica trancada aqui. Se ouvir tiro, não sai.
Bela sentiu um frio percorrer sua espinha. Pela primeira vez desde que chegara, entendeu de verdade o perigo do mundo que escolhera entrar.
— E se você não voltar? — perguntou, quase num sussurro.
Alex parou por um instante. O olhar dele, duro como sempre, vacilou de leve.
— Eu sempre volto. — disse, e saiu batendo a porta.
Bela ficou sozinha, o coração disparado, ouvindo ao longe o eco dos primeiros disparos. O morro acordava em guerra.
Os estampidos dos tiros começaram como fogos de artifício distantes, mas logo se transformaram em trovões rasgando a madrugada. O coração de Bela batia no mesmo ritmo das rajadas de fuzil. Cada barulho de bala ecoava dentro dela como se o morro inteiro fosse tremer e desabar.
Ela se encolheu no canto, as mãos tremendo, mas não chorou. Tinha aprendido a engolir o medo. Só que havia algo diferente naquela noite — uma angústia que a corroía de dentro. E se Alex não voltasse?
Apesar do que dizia a si mesma, Bela já sabia: ele não era apenas o carrasco de seu destino, não era só o homem que comprara sua liberdade com a dívida do irmão. Havia nele algo que mexia com seu peito, mesmo que fosse perigoso admitir.
O barulho do rádio de pilha interrompeu seus pensamentos.
— Tão recuando pela 12! — gritou uma voz. — Mas deixaram dois caídos!
O estômago de Bela revirou. E se um deles fosse Alex?
Sem pensar, levantou-se e correu até a porta. As mãos tremiam ao segurar a tranca. A ordem dele ecoava em sua mente: “Se ouvir tiro, não sai.”
Mas a ansiedade era maior. Abriu a porta e saiu.
O beco estava mergulhado na penumbra, só iluminado por lâmpadas fracas e o clarão distante dos disparos. Subiu a viela correndo, desviando de gente que gritava, mães puxando crianças, homens armados passando como sombras com fuzis nas costas.
— Garota, tá maluca?! — um soldado do tráfico gritou ao vê-la. — Volta pro barraco, já!
Ela não respondeu. Continuou correndo. O medo de encontrar Alex morto era mais forte que qualquer tiro.
Quando chegou ao alto da ladeira, o cheiro de pólvora era sufocante. No chão, manchas de sangue. Dois rapazes estendidos, rostos cobertos. O peito de Bela disparou, quase parando.
— Alex! — gritou, a voz falhando.
Um braço forte puxou-a para dentro de um beco escuro. Ela quase gritou, mas a mão que tampava sua boca era conhecida.
— Tá maluca, princesa? — a voz dele soou grave, irritada, mas também trêmula de cansaço.
Era Alex. Vivo. Inteiro. O corpo dele suado, o peito subindo rápido. O cheiro de pólvora e perfume caro se misturavam.
Bela se agarrou nele sem pensar, o rosto contra o peito dele. Só quando sentiu o braço dele envolvê-la com força é que percebeu o quanto tinha se desesperado.
— Eu achei... eu achei que você tinha... — a voz dela falhou.
Alex a afastou um pouco, segurando-a pelos ombros, os olhos negros faiscando sob a luz fraca do poste.
— Que eu tinha caído? — ele perguntou, quase desafiando.
Bela engoliu em seco, mas não desviou o olhar.
— Sim.
O silêncio entre eles pesou mais que os tiros. Alex respirou fundo, e pela primeira vez, deixou escapar uma confissão que nem ele queria ouvir:
— Não vou cair fácil, Bela. Ainda menos agora.
Ela arregalou os olhos, sentindo que havia algo escondido nessas palavras.
— Por quê? — perguntou num sussurro.
Ele hesitou. Não era homem de se abrir, mas naquele momento, com ela tremendo diante dele, não conseguiu se calar:
— Porque agora eu tenho mais a perder.
As palavras ficaram suspensas no ar, mais fortes que qualquer tiro de fuzil.
Bela sentiu o coração disparar de um jeito estranho, perigoso. Não sabia se era medo, alívio ou desejo. Talvez tudo junto.
Antes que pudesse responder, uma nova rajada ecoou perto dali. Alex a empurrou contra a parede, protegendo-a com o corpo. O rosto dele ficou tão próximo que ela podia sentir a respiração quente.
— Você desobedeceu, princesa — murmurou, a voz rouca, mas carregada de algo que não era só raiva. — Eu disse pra ficar trancada.
— Eu não ia conseguir ficar parada sem saber se você tava vivo — ela rebateu, firme, mesmo tremendo.
Alex a encarou por longos segundos. Então, num impulso feroz, colou os lábios nos dela.
Foi um beijo bruto, urgente, como se dois mundos colidissem. Não havia ternura, só fogo, necessidade. Bela, em vez de resistir, correspondeu com a mesma intensidade. O medo, a raiva, a tensão — tudo explodiu naquele contato.
Quando ele a soltou, os dois respiravam ofegantes, como se tivessem acabado de atravessar um tiroteio sem colete.
— Você me tira do sério — ele rosnou, encostando a testa na dela. — Não sei se quero te matar ou te ter.
— Talvez os dois — ela sussurrou, a voz falha, mas cheia de coragem.
Alex riu baixo, um riso incrédulo. Depois puxou-a pela mão.
— Vamos. Antes que a polícia volte.
Desceram pelo beco, ainda ouvindo os últimos disparos. Quando chegaram ao barraco, Bela entrou ofegante, mas antes que pudesse fechar a porta, Alex segurou seu braço.
— Bela. — a voz dele estava diferente, mais baixa, quase vulnerável. — Não faz mais isso. Não me põe em risco por causa da sua teimosia.
Ela encarou-o, séria.
— Eu só não consigo fingir que você não importa.
As palavras escaparam antes que pudesse pensar. O silêncio que se seguiu foi esmagador. Alex ficou parado, olhando para ela como se não soubesse o que dizer. O rei do morro, o homem temido por todos, parecia perdido diante de uma garota que não se curvava.
Por fim, ele apenas assentiu com a cabeça, fechando a porta atrás de si.
Naquela noite, enquanto o morro voltava ao silêncio tenso, Bela percebeu: estava presa a um destino do qual não havia mais como fugir. E Alex, pela primeira vez, entendeu que o preço da liberdade dela poderia ser também o começo da sua própria prisão.