Sentei ao lado de Cássio, sentindo minha banana com granola revirar no estômago. O que o Dr. Galates quis dizer com "Você nem imagina o quanto..." ? Eu estou com tanto medo, que sinto frio. Mesmo estando no verão. Mesmo que nessa sala ridícula cheia de portas e grades não tenha ar condicionado, e só tenha ventiladores que m*l fazem vento, eu sinto frio. Um frio que vem de dentro da mente e do coração, um frio que me deixa gelada e paralisada.
- Laura...
Ouço Cássio me chamar. Olho para ele e aguardo, mas ele não diz nada. Eu me compadeço dele. Ele poderia ter uma vida boa, com pais ricos que se importassem com ele. Mas pelo que o doutor falou, os pais dele pretendem deixar ele aqui pra sempre. Suspiro triste. Cássio é nível 3 de suporte, o que será que isso quer dizer? Será que tem mais níveis? Qual será o máximo?... Tenho tantas dúvidas, mas quando eu sair daqui vou pesquisar mais sobre isso. Mas não só sobre autismo, mas sobre tudo, sobre esses lugares e como podem ser tão desregulados e permitirem tantas injustiças! Como a que está sendo feita comigo. E com Cássio também...
- Cássio... - Sussurro o nome dele muito baixo, mas sei que ele vai me ouvir.
Ele se vira em minha direção.
- Você tem medo?
Cássio apenas olha em minha direção sem me encarar realmente, sem mover um músculos sequer. Entorto a boca para o lado.
- Eu tenho medo.
Digo para ele. Ele também está aqui obrigado, talvez me entenda. Na verdade todos estão, mas é diferente... não é mesmo? Não sei mais...
E para meu completo espanto, Cássio coloca a sua mão em cima da minha. Paraliso olhando nossas mãos juntas. A mão dele é maior que a minha, tem dedos longos e unhas limpas e bem cortadas. E é tão branca, ele provavelmente não toma um sol a muito tempo.
Ele estava me dando apoio. Do jeito dele, mas eu entendia. Eu sempre entendia, não sei como, mas eu entendo ele. Sorrio. - Obrigada Cássio.
Depois do lanche das 10 horas da manhã, que para meu desgosto, era mamão com castanhas, fomos encaminhados para o pátio dos fundos da clínica. Um pátio enorme, muito maior do que eu vi pela janela ontem. O jardim, era composto por plantas e flores. Mas também tinha algumas árvores que faziam uma sombra e um vento bom.
Me escoro em uma árvore e me sento em baixo. Procuro Cássio com olhos, e o vejo caminhando entre os labirintos de flores. Me ergo e vou até ele.
- Posso caminhar com você? - E como venho me acostumando, ele não me responde, mas entendo como um sim.
Caminhamos por um bom tempo, eu analiso as flores de perto, toco-as, e até as cheiro. E Cássio para e me espera, todas as vezes.
- Você é um bom amigo Cássio. - Digo para ele.
Cássio se dirige para um banco em um canto próximo a porta de entrada do grande pátio com jardim. Vou com ele, afinal, somos amigos agora. E sei lá, mas eu me acho meio que a protetora dele. O que é ridículo, porque eu estou aqui vai fazer dois dias e ele já está a mais de dois anos.
Só de pensar nisso sinto uma náusea. Que m***a de pais são esses que temos?!
Eu fico ali com Cássio, observando outros pacientes caminhando, sentados ou deitados na grama, alguns ficam arrancando a grama do chão ou folhas das árvores, os enfermeiros caminham na volta, certificando se está tudo certo. Começo a ouvir gritos ao longe, mas não sei exatamente de onde vem. Vejo alguns enfermeiros olharem o celular e sair apressados. Por certo vão auxiliar alguém em crise.
Ficamos ali até nos chamarem para o almoço.
Meu almoço era composto por arroz integral, feijão preto, carne moída, legumes variados e salada verde. A comida estava melhor hoje, ou talvez fosse por eu estar literalmente morrendo de fome. O café da manhã e o lanche foram uma piada. Mas eu é que não ia reclamar, precisa emagrecer para sair daqui.
Saímos do refeitório juntos. Vou me esforçar para ficar sempre perto de Cássio, pois sempre que me distraio o garoto some. Que agonia.
Não nos mandam de volta para sala principal, nos separam em três grupos e mandam para salas diferentes. O enfermeiro i****a, quero dizer, Leonardo, separa eu e Cássio. Ele fez de propósito, posso ver na cara dele, que ele quer me provocar. Bufo impaciente, mas não digo nada.
Mas Cássio não é tão controlado como eu. Ele sai de seu grupo e vem para o meu lado. Estremeço de pensar no que vai acontecer.
- Cássio, volte para seu grupo. - Uma enfermeira que está a frente do grupo de Cássio diz. - Teremos aula de música.
- Laura gosta de música. - Cássio responde para enfermeira sem encará-la.
Sorrio olhando para ele. Como alguém podia não gostar dele?
- A Laura está no grupo de pintura. - Leonardo i****a fala. Eu estou no grupo dele.
Fico séria. - Tudo bem Cássio, eu também gosto de pintura. - Digo baixinho para ele.
- Tudo bem, tudo bem... - Ele repete e penso que ele me entendeu, então ele olha dentro dos meus olhos, e ele tem aquele olhar, aquele olhar de quando ele aceitou ser meu amigo, um olhar de satisfação, de pertencimento... eu não sei explicar, mas eu me vejo em seus olhos.
- Tudo bem... - Ele parece usar de todo o esforço de seu ser para falar. - Eu gosto de pintar também.
- Cássio... vá para seu grupo. - Leonardo fala por entre os dentes com Cássio.
Olho para Leonardo e ele parece ter raiva no rosto, como grande parte das vezes que olho para ele, ele parece ter raiva naquela cara de cão chupando manga. Temo por Cássio, não quero vê-lo tendo uma crise novamente.
- Cássio por favor... depois a gente se encontra. - Falo baixinho tocando no braço dele.
Ele me olha mas não se move. Fecho os olhos fazendo uma prece silenciosa. Meu Deus por favor, nos ajude, porque só temos o senhor nesse momento. Nesse momento ouço a voz de Meg.
- Cássio eu não acredito que você vai perder uma aula de música? Você ama música!
Abro os olhos, sentindo que as lágrimas estão prestes a cair de meus olhos.
- Cássio... - Ele fala e parece pensar um pouco. - Eu pintar com a Laura.
- Tudo bem... essa eu quero ver. - Ouço Meg dizer com um sorriso no rosto.
E não consigo não abrir a boca incrédula e aliviada ao mesmo tempo. Olhei para Leonardo e ele estava vermelho de raiva. Segurei um sorriso. Pelo jeito Meg tem mais autoridade que ele. Isso é bom. Obrigada meu Deus!
Vamos para a sala de pintura. Nos sentamos em uma mesa comprida, cada um ganha uma folha A3 e uma paleta dividida com várias cores de tintas, e pincéis pequenos em cada uma das cores. Uma música de fundo é colocada baixo, não tem cantoria, é só um fundo musical, que tem uma entonação de calmaria.
Enquanto escolho uma cor para fazer algo, ouço Meg conversando com Leonardo.
- O Cássio vem evoluindo muito nesse último mês, não acha? - Ela parece alegre.
- Verdade... - Ouço Leonardo falar, mas não consigo saber se ele tem raiva, dúvida ou nojo na voz. Mas sinto um arrepio me percorrer. O que havia de errado com aquele cara?
A sala de pintura é toda branca com vários desenhos colados pelas paredes. Alguns desenhos são dignos de receberem prêmios, outros parecem feitos por crianças. Resolvo fazer uma paisagem, não tenho muitas ideias.
Olho para o lado e vejo Cássio pintando. Ele usa todas as cores, uma de cada vez, e vai fazendo listras, intercalando as cores. Ele enche a folha assim. Não deixando um espacimho em branco sequer.
- Uau... - Sussurro para ele. - Seu trabalho está maravilhoso.
E recebo em recompensa aquele sorriso. Aquele mesmo sorriso simples e rápido, de quando disse que os olhos dele eram lindos. Não consigo explicar minha felicidade, mas eu me sinto prestes a explodir de alegria com essa reação dele. Retomo meu trabalho animada.
- Você fez um sol. - Ouço Cássio dizer.
- É, eu fiz. Gostou? - Pergunto sorrindo para ele. Mas ele não me responde, apenas observa o meu desenho. Eu volto para o meu desenho, sorrindo, sabendo que ele gostou.
Nossos desenhos foram pendurados em um varal no meio da sala, para secar. Eu não podia negar, ficaram todos lindos, poderiam fazer uma exposição de arte. Saímos juntamente com os outros das outras salas.
Fomos para o refeitório direto, e o lanche era batida de abacate. Eu não gosto de abacate. Nem do cheiro. Não tomei.
Cássio tinha o mesmo lanche de sempre. Pão com requeijão e presunto e chá.
Fiquei quieta esperando para sair do refeitório.
Cássio empurrou a sua xícara de chá para mim. - Laura gosta de chá.
Eu me derreti de uma forma, que eu nem sabia que era possível. Nunca me senti tão amada na vida. Nem por meus próprios pais. Eu o conhecia a menos de 48 horas e ele estava me dando o chá dele. É uma coisa simples, mas eu tenho a completa noção que isso é uma quebra de rotina para ele, e que isso poderia desorganizar a mente dele, ocasionando uma crise. Mas ele se esforçou para me ajudar. Era como se ele quisesse me provar que era meu amigo, que estava ali para mim. Mas eu não podia aceitar.
- Obrigada Cássio, mas não estou com fome. - Menti.
Ele me olhou dentro dos olhos. E puxou a xícara de volta. Se concentrando em comer e beber seu chá.
Mas aquilo já serviu para me animar e foi como se me alimentasse também. Não fisicamente, porque eu estava morrendo de fome, por Deus, eu chegava a estar tremendo de fome. Mas me alimentou a alma.
- Não vai tomar sua vitamina de abacate Laura?
Fechei os olhos me controlando. Eu não aguentava mais a voz desse enfermeiro i****a. Porque ele insistia em falar comigo?
- Não, obrigada. - Respondo séria.
- Não pode ficar sem comer até a noite. - Ele diz com uma voz de falsa preocupação que me irrita.
- Me deixa em paz! - Falo baixo e por entre os dentes, contendo minha irritação.
- Hummm, está atordoada?
O encaro estreitando os olhos, o que ele quer dizer com atordoada? - Estou bem. - Respondo ainda encarando-o.
- Se você não tomar sua vitamina ficará sem jantar... - Ele fala me ameaçando.
Franzo as sobrancelhas. - Porque?
- Regras do hospital.
Eu sabia que era mentira. Não podia existir uma regra assim. Deveria ser justamente o contrário, se não comeu no café, come mais no jantar. Meg ficava até a noite, na hora do jantar, ela não permitiria que me deixassem sem comida. Virei para frente e não respondi mais.
Recebendo minha indiferença, Leonardo pegou a batida de abacate e tirou da minha frente.
Respirei aliviada. - Não gosto dele. - Falo baixo, apenas para Cássio me ouvir.
- Não gosto dele. - Cássio repete, mas sei que não é uma vã repetição, ele também não gosta daquele enfermeiro.
O restante da tarde ficamos na sala principal, e nos deram jogos, jogos fáceis, como quebra cabeças, legos, e outros de encaixar e montar. Cássio pega um quebra cabeças de 100 peças, eu monto com ele. E quando terminamos ele desmonta e começa de novo. Bem, não era uma coisa que eu amava, montar quebra cabeças, mas se ele gostava, então eu me esforçaria por ele. Acho que montamos umas 15 vezes aquele treco. Isso só vazia eu ficar com mais ansiedade, e com fome.
Eu estava ansiosa, com medo de realmente não me darem jantar, eu estava ansiosa por conta da noite, estava ansiosa por estar ali. E quanto mais ansiosa, mais fome e mais ansiedade, e virava uma bola de neve de desespero. Fechei os olhos e comecei a respirar devagar. Eu precisava me acalmar, aquele i****a estava fazendo de propósito coisas para me tirar do sério, ele queria confusão, mas ele não ia ter.
Senti a mão fria de Cássio cobrindo a minha, que estava em cima da mesa. Abri os olhos e o encontrei me olhando.
- Obrigada por estar comigo Cássio. Se não fosse você aqui... não sei o que seria de mim... - Sinto algumas lágrimas escorrerem, mesmo que eu as segure, ela insistem em querer sair.
- Está chorando. - Ele parece pensar um pouco. - Quer um banho frio?
Arregalo os olhos para ele. - Não... porque eu ia querer um banho frio? - Eu sempre cochicho para ele, tenho medo, de nos ouvirem e nos proibirem de falar, sei lá, eu só sei sentir medo nesse lugar.
- Quando eu choro, tomo banho frio. - Cássio fala depois de uma longa pausa.
Balanço a cabeça, lembrando que Meg me comentou, que davam banho frio para ele se acalmar.
- Você gosta de banho frio?
Pergunto esperando alguma resposta. Mas ele se aproxima de meu rosto quase encostando seu nariz no meu.
- Não.
Abro a boca. Então é mais como um castigo do que algo para acalmar. E saber disso me deixa triste. Mas já ando tão triste ultimamente que mais uma tristeza não faria diferença.
- Então fazemos um trato. - Digo secando minhas lágrimas. - Não vamos mais chorar. - Ele me olha por um tempo e então fala.
- Não vamos mais chorar. - E volta a montar o quebra cabeça.