CAPÍTULO 1-1

2271 Palavras
CAPÍTULO 1 Magia não é feitiçaria (Paracelso) Bernardino estava bem consciente de que estava a viver em tempos em que era de facto perigoso imprimir um texto sem ter obtido a impressão eclesiástica. Se, além disso, o texto era blasfemo e ofendia a Igreja oficial, propagando doutrinas contrárias a ele, arriscávamo-nos a queimar não só os livros impressos, mas também o autor e a editora. A sua loja de impressão na Via delle Botteghe estava a ir bem. O século X tinha acabado de começar e Bernardino tinha-se afirmado como tipógrafo em toda a Itália, tendo substituído personagens móveis de madeira por personagens de chumbo, que eram muito mais fortes e duráveis. Com o mesmo “clichet” ele conseguiu imprimir mil cópias, ao contrário das trezentas que os seus antecessores da escola alemã imprimiram com “estereótipos” de madeira, apesar de manipular aquele metal lhe causar bastantes problemas de saúde. Mais de trinta anos antes, ele tinha tomado conta da gráfica de Federico Conti, um Veronês que tinha feito fortuna em Jesi, criando a primeira edição impressa totalmente italiana da Divina Comédia do grande poeta Dante Alighieri. Conti tinha atingido em curta ordem o auge da fortuna, tal como tinha caído em desgraça em curta ordem. Bernardino tinha tirado partido disto e comprou a maravilhosa loja de impressão por quatro cêntimos. Com a calma e paciência típicas daqueles que vieram do campo de Jesi - Bernardino era originalmente do Staffolo - ele tinha crescido o seu negócio aos mais altos níveis, nunca se colocando em desacordo com as autoridades, sempre honrado e venerado. Até então, o trabalho mais importante a que ele se dedicou foi uma “História de Jesi, desde as origens até ao nascimento de Federico II”, baseada no que foi transmitido pela tradição o**l e em documentos históricos, manuscritos antigos, contratos, mapas e tudo o mais que foi preservado nos palácios das famílias nobres de Jesi, Franciolini, Santoni e Ghislieri. Pietro Grizio e ele próprio tinham trabalhado na redacção da obra; embora não fosse um verdadeiro escritor, ao preparar os rascunhos para a impressão, tinha-se tornado de facto muito familiarizado com a língua italiana. Um trabalho que ele ainda não tinha terminado e que só seria impresso pelos seus sucessores em 1578, após um trabalho de revisão e acabamento considerável. Uma obra que seria a fonte histórica mais importante da cidade de Jesi durante muito tempo, e da qual Baldassini iria tirar a sua deixa, cerca de dois séculos e mais tarde, pelo seu “Memórias Históricas da Cidade Antiga e Real de Jesi” e Annibaldi pela sua “Guia de Jesi”. Uma obra grande e importante, ainda em preparação, deixou inacabada a publicação de um livreto encomendado por uma jovem de vinte e poucos anos de idade. O que estava a passar pela cabeça de Bernardino para imprimir um panfleto dedicado ao culto pagão da Deusa Mãe e curas com ervas medicinais? O Inquisidor Chefe da cidade, o Cardeal Artemio Baldeschi, poderia ter invadido a sua oficina a qualquer momento, talvez instigado por algum outro impressor invejoso dos seus feitos. E tudo isto para fazer um favor à sobrinha do Cardeal, Lucia Baldeschi. Teria ele, aos 50 anos de idade, perdido a cabeça por causa daquela donzela? Não, improvável, disse a impressora a si próprio. Eu certamente não conseguiria passar uma noite de amor com uma jovem potra, mesmo que... Embora a mera ideia de poder escovar as suas mãos contra as dela o tenha despertado um pouco, ele baniu esses impulsos para os recantos mais distantes da sua mente. Em troca da impressão do manual, a jovem “bruxa” prometeu a Bernardino uma cura eficaz para a ciática que o tinha atormentado durante anos e uma pomada que o protegeria de absorver o ** de chumbo através da pele rachada das suas mãos. «Culpa a tua anemia e as tuas dores ósseas pela pista que manejas todos os dias. Absorves através da tua pele, e inalas o seu ** enquanto respiras. Se queres viver muito mais tempo, segue o meu conselho». Lúcia era uma jovem mulher, na altura com vinte e poucos anos, bastante alta, de cabelo escuro, com olhos de avelã sempre em movimento, curiosa sobre cada detalhe. Nada lhe escapava do que estava a acontecer à sua volta, ela tinha uma audição muito boa, e até capacidades prescientes; além disso, ela era capaz de curar uma grande variedade de doenças com ervas e remédios naturais. Isto era o que aqueles que a conheciam sabiam oficialmente. Na realidade, Lúcia era dotada de poderes desconhecidos da maioria das pessoas comuns, mas tentou não os revelar a ninguém, especialmente porque vivia debaixo do mesmo tecto que o seu tio. Ela era uma menina de nove anos quando, ao testemunhar o incêndio de Lodomilla Ruggieri na praça pública, ficou chocada com o espectáculo horripilante da execução. A sua avó segurou-a pela mão no meio da multidão à espera que a mulher condenada saísse da fortaleza no topo da Salita della Morte2. A mulher, montada numa mula, com as mãos atadas às rédeas, com a roupa esfarrapada a revelar a sua nudez, ficou visivelmente exausta com as torturas que os inquisidores lhe infligiram para confessar a sua culpa. Ela tinha um olho machucado, um ombro deslocado e, quando foi retirada da mula, quase nem conseguia ficar de pé. Ela estava amarrada ao poste, com os braços para cima, para que não caísse de joelhos. Depois foi colocada madeira debaixo dos seus pés e à volta das suas pernas. Um padre aproximou-se dela com a cruz: “Negas Satanás?” Em resposta, Lodomilla cuspiu na cruz e o padre e as chamas foram colocadas na pilha. Os gritos da mulher em chamas eram desumanos, Lúcia não podia suportá-los, e ela pensou muito que se começasse a chover muito naquele momento, a água apagaria o fogo e a pobre mulher poderia ser salva de alguma forma. Ela olhou para o céu e viu-o rapidamente cheio de nuvens negras a ameaçar a chuva. Lúcia percebeu que tudo o que tinha de fazer era mandar as nuvens chover com os seus pensamentos e que a inundação viria. A sua avó, que conhecia o potencial da criança, a quem ela tinha começado a ensinar os primeiros rudimentos de magia, parou-a mesmo a tempo. «Se não queres acabar como Lodomilla, refreia os teus instintos. Foi a Deusa que virou a nossa amiga para si, senão com as suas artes mágicas teria escapado às chamas. Em breve ela acabará com o seu sofrimento e o seu espírito será recebido pela Boa Deusa». Sentiu-se o estrondo de alguns trovões, mas nem uma única gota de água caiu. Em breve as nuvens limparam e o céu tornou-se claro. O azul do final de Maio foi atravessado apenas pela coluna de fumo n***o a sair da pira. Lodomilla era agora uma brasa em chamas sem vida. Alguém continuou a atirar paneleiros e atirou o fogo até que tudo o que restou da bruxa foram as cinzas. A partir desse dia, Lúcia tinha percebido que, com os seus poderes, podia dominar os vários elementos da natureza, pondo-os ao seu serviço, tanto para o bem como para o m*l. A sua avó tinha tentado guiá-la no caminho para controlar as suas artes mágicas, tinha-a ensinado a reconhecer ervas medicinais, aquelas com efeitos curativos e tóxicos, aquelas com efeitos narcóticos e aquelas com supostos poderes mágicos. Ele tinha-lhe ensinado a lançar feitiços e a fazer talismãs e, aos catorze anos de idade, tinha-lhe dito: «Apenas as bruxas mais poderosas conseguem controlar os quatro elementos, ar, água, terra e fogo. A união deles é representada pela quintessência, o espírito, que pode voar alto, fazer-te voar, e do céu permitir-te ver coisas que de outra forma não verias. Podes ver o passado, prever o futuro, conversar com os espíritos dos nossos antepassados ou ouvir o que eu, ou outra pessoa querida por ti, gostaria de te dizer, mesmo sem estar perto de ti. Podes penetrar na mente dos outros, e ler os seus pensamentos mais íntimos. Acredito que podes ser capaz de usar todas estas faculdades, mas lembra-te, usa-as sempre para o bem. A magia n***a, aquela que é usada para fins maléficos, mais cedo ou mais tarde, faz ricochete naqueles que a praticaram». Dizendo assim, ele tinha aberto uma arca antiga e trazia à sua sobrinha um manuscrito antigo, coberto por uma caixa de pele preta na qual estava gravado um pentagrama, uma estrela de cinco pontas inscrita num círculo. Era o diário da família, que foi passado de mãe para filha, neste caso de avó para neta, porque a mãe de Lúcia tinha falecido quando ela ainda estava na infância. O diário em que cada bruxa registava as suas experiências, os feitiços que tinha inventado, as curas que tinha obtido, as experiências mágicas que tinha vivido, para que o conhecimento e a sabedoria aumentassem com o tempo. Lúcia tinha-se apercebido que estava agora no controlo dos quatro elementos quando, ao concentrar-se, tinha conseguido materializar uma esfera semi-fluida que flutuava entre as suas mãos em forma de copo, destacando-se das suas palmas por uma distância muito pequena. A esfera não era mais do que o seu espírito, uma mistura de cores que, à medida que rodopiava, em certos momentos se misturavam para dar infinitas tonalidades, e em outros se delineavam como se cada elemento quisesse recuperar a sua natureza e desprender-se dos outros. Ele reconheceu o ar pela cor amarela, a terra pela cor verde, a água pela cor azul e o fogo pela cor vermelha. Ele poderia ordenar a cada um desses elementos que fizesse o que a sua mente desejasse, para o bem ou para o m*l. Se, por exemplo, ele quisesse usar fogo, a sua mente seleccionaria esse elemento e uma bola de fogo, maior ou menor em tamanho, poderia ser libertada da esfera. Acender uma fogueira no braseiro foi a coisa mais fácil do mundo: bastava que a madeira fosse arranjada para ser acesa, uma pequena bola ígnea foi dirigida por Lúcia em direcção a ela e imediatamente tiveste uma bela fogueira crepitante. Mas esses poderes também podem ser perigosos. Um dia uma jovem da sua idade, uma rapariga chamada Elisabetta, apóstrofou-a na rua, zombando dela porque agora tinha quinze anos e nenhum jovem lhe tinha voltado a atenção. «Dizem que és uma bruxa, nenhum homem te vai querer, porque aqueles como tu só fazem amor com o d***o. O facto é que aquele com quem acasalas não é o d***o, mas o bode do Tonio, o agricultor que tem a terra junto ao rio». Lúcia atirou-lhe uma bola de fogo, tão grande como nunca tinha feito uma antes, e as roupas e cabelo da infeliz mulher pegaram fogo. Depois ela chamou pelo ar, levantou os braços acima da cabeça e, com movimentos circulares dos braços, criou um turbilhão, que se afastou dela na direcção da outra rapariga. O vento alimentou ainda mais as chamas, Elizabetta sentiu a dor excruciante na sua pele e começou a gritar. Lúcia lembrou-se então das recomendações da avó e teve pena da rapariga impertinente. Ela pediu água e desencadeou uma súbita agua, depois pediu à terra para fornecer ervas para uma compressa calmante a aplicar nas queimaduras da rapariga. Em suma, nada de grave tinha acontecido, a rapariga só tinha uma túnica meio queimada e pele avermelhada, mas também não se tinham formado bolhas. Ela teria de cortar o seu cabelo, o cabelo que lhe restava tinha ondulado de tal forma que se assemelhava a um porco-espinho, mas depois voltaria a crescer. «Não me voltes a atrapalhar, da próxima vez talvez não consiga parar». «Bruxa, vou denunciar-te às autoridades. Será você quem será queimado vivo. Na fogueira. Na praça pública. E observarei como as chamas o consomem. Bruxa! Bruxa!» Estas palavras recordaram-lhe a execução da bruxa Lodomilla, que ela tinha testemunhado quando era criança. Sem proferir mais palavras e sem voltar a apelar aos seus poderes, Lúcia afastou-se daquele lugar, esperando que a eventual história de Elisabetta não fosse levada a sério, e voltou para casa, para o Palazzo Baldeschi, um enorme edifício que não se debruçou sobre a Praça do Mercado. O palácio tinha sido terminado alguns anos antes, com base numa construção de mais de três séculos, a mando do seu tio, o Cardeal Artemio Baldeschi, que era então irmão da sua avó. A suntuosa residência estava situada entre a nova igreja de St Florian e a Catedral. Esta última era uma magnífica igreja de estilo gótico, embelezada com belos pináculos na fachada, com um espaçoso interior de três trincheiras, capaz de acomodar mais de dois mil adoradores. Infelizmente, tinha sido construída com base no Templo de Júpiter e nos antigos banhos romanos, sem que aqueles que o tinham construída na altura se tivessem preocupado demasiado em fortificar as fundações. Assim, o edifício não era seguro e teria de ser demolido para dar lugar a uma nova igreja dedicada ao santo padroeiro da cidade, São Séptimius, cujas relíquias foram guardadas na cripta da antiga catedral. Por enquanto, o Cardeal celebrou a Santa Missa todos os domingos na igreja de San Floriano, e tinha também assegurado que o convento adjacente, que era suposto ser para os frades da Ordem Dominicana, se tornasse em vez disso a sede do Tribunal da Santa Inquisição, uma vez que ele era o Inquisidor Chefe. Os dominicanos foram portanto relegados para um convento mais abaixo no vale, construído num antigo edifício do século XII, perto da igreja de São Bernardo e do convento das freiras Clarisse della Valle.
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