CAPÍTULO 6

2051 Palavras
Os dois se sentam na mesa de jantar, e ele como uma criança reclama que estava morrendo de fome, Ana então, mais que depressa serve o seu prato. — O melhor escondidinho de carne de todo Rio de janeiro, ele comenta enquanto saboreia uma garfada. Ela sorri orgulhosa, e serve o prato de Rosa também. — Estou surpresa, não sabia que você era um homem de gostos tão simples, você tem me proporcionado gratas surpresas. _Sou exigente apenas com boas companhias e mulheres lindas e inteligentes como você. _Como assim, boas companhias? Não me diga que não sou a primeira e única em sua vida! _A primeira não posso afirmar, mas com toda certeza você a cada minuto tem conquistado o status de única. Após o jantar Rosa diz a John que precisava ir embora, pois sua mãe provavelmente já estava muito preocupada. Ele se oferece para acompanhá-la, ela agradece a gentileza dizendo que é melhor ele não se arriscar, que aquele horário não era bom transitar pela comunidade ainda mais pelo fato dele não ser morador. Ele concorda e chama um táxi para a moça. Quando o taxista chega, eles dão um beijo e se despedem prometendo que se falariam no outro dia. O taxista a deixa na rua logo abaixo do beco. Ele só aceitou fazer a corrida, porque John o ofereceu uma boa gorjeta, ou jamais se arriscaria a ir aquela comunidade, principalmente porque já era noite. Rosa também assegurou que não aconteceria nada ele. O Taxista faturou em uma noite o que levaria quase duas semanas para ganhar, mesmo tendo arriscado a própria vida ele considerou como um dia lucrativo. Rosa sobe o beco e percebe que Neto a observa de longe. Entra em casa e encontra sua mãe ansiosa para saber como foi o seu dia e o passeio com Jonh. Enquanto conversava com sua mãe, Neto entra na casa de Rosa perguntando onde ela estava, e porque estava chegando de táxi àquela hora. Percebendo a impaciência no tom de voz de Neto, Dona Helena tenta acalmá-lo, pedindo para que ele se sente, e o pergunta para ele se já jantou, pois prepararia algo para ele comer. — Não vim até aqui para comer. Eu vim conversar com sua filha, que tem agido de forma muito estranha depois do acidente, e de conhecer aquele almofadinha. Rosa responde irritada: — Jonh não é nenhum almofadinha, você não o conhece e não tem o direito de falar dele. Dona Helena pede para que eles se acalmem, pois já estavam gritando, e que já era muito tarde da noite. _Neto meu filho, alguém pode acabar chamando a polícia, por favor, respeite minha casa e minha família. Neto irrita, passa a mão na cabeça, como se tentasse se acalmar e pede para que Dona Helena deixe ele e Rosa a sós. Ela se n**a, pois o rapaz estava nitidamente fora de si. Rosa a acalma prometendo que os dois não iram brigar, que seria apenas uma conversa civilizada entre dois irmãos. Apreensiva Dona Helena sai deixando-os sozinhos. — Irmãos? Como assim, irmãos? Você sabe bem o que eu sinto por você, e nem de longe esse é um sentimento de irmão. Todos esses anos se passaram e eu nunca deixei de te amar e você sabe disso. Eu sei que fiz escolhas erradas, virei as costas para você. Eu escolhi essa p***a de vida porque eu estava com raiva. Eu apenas era um menino preto, pobre e fudido da favela, estava perdido depois de tudo o que aconteceu com minha mãe, ou você já se esqueceu o que aconteceu com ela? — Não Neto, eu não me esqueci, eu também sofri muito, também a amava. Não use essa situação para se esquivar de tudo que aconteceu. A responsabilidade de suas escolhas ainda é sua. — Eu sei que acabei me envolvendo com pessoas erradas, e que essas mesmas pessoas usaram todo o ódio que sentia a favor deles, que se aproveitando da minha ingenuidade colocaram uma arma na minha mão, me prometendo que me ajudariam vingar a morte dela, disseram que depois disso, eu seria respeitado. Eu jurei que nunca mais alguém que eu amo iria morrer daquela forma. Eu fiz isso por você também, e pela sua mãe, eu era um moleque muito ingênuo, achei que fosse a única maneira de proteger vocês e de lidar com a minha dor. — Eu nunca te pedi nada disso. Eu só queria que você tivesse ficado comigo, com minha mãe. Eu a amava também. — Você acha que foi fácil pra mim? Ver todos vocês felizes, você com seu pai, seus irmãos sua mãe? _Não estou dizendo nada disso, mas você sabe que escolheu errado. Você procurou um caminho que afastou nós dois, me virou as costas sem ao menos olhar para trás, matou aquele menino inocente que existia dentro de você. Ou você acha eu não sei que você fez coisas horríveis para chegar aonde está? Que corrompeu seu caráter, matando pessoas para assumir a posição que ocupavam na favela , e outras coisas que nem consigo falar sem ter vontade de vomitar. Agora, você vem até minha casa, me cobrando explicações, de onde eu estava, e com quem estava. Você não tem mais esse direito, você o perdeu a muitos anos atrás, quando escolheu se tornar um monstro. Neto dá um soco na parede — Monstro? É isso que você pensa de mim? Eu cuido dessa comunidade. Aqui polícia entra atirando, metendo a mão na cara de trabalhador, forjando flagrante para levarem os irmãos para fora da comunidade e matarem. Para depois desovarem numa vala feito um animal qualquer. Aqui eu protejo a todos. Não admito que nenhum trabalhador seja roubado ou esculhambado, e quem resolve me desobedecer, você já sabe qual é o castigo. E estuprador? Em que outro lugar se faz justiça? Aqui para com eles não tem conversa, aqui a condenação para esse tipo de lixo é a sentença de morte, não sem antes fazer ele sofrer pra se arrepender do que fez. Quem respeita essas regras não se mete em problemas, e consegue viver em paz. Andam tranquilamente, entram e saem quando querem. Ninguém passa necessidade de nada, pois nós os protegemos. Quem estiver passando fome nos damos cesta básica, se alguém está doente a gente paga o remédio, se está com dificuldade de enxergar, a gente providencia os óculos. — A custa do quê, Neto? A custa do medo, do toque de recolher. Vocês não seguem a lei. Criaram suas próprias regras, vocês vivem na marginalidade, discursam sobre liberdade, mas aprisionam as pessoas dentro de suas casas, vocês não são o Estado, p***a. Não podem decidir sobre a vida das pessoas e depois dizer que as estão ajudando. Vocês cometem crimes em nome de uma justiça que só beneficia a vocês. Não passam de bandidos hipócritas, que só defendem seu próprio poder, visando seus lucros e interesses. Neto fica em silêncio por alguns instantes, e depois dispara: — É assim que você me vê? É isso que você pensa de mim? Você tem nojo de mim, é isso que você está me dizendo? — Não Neto, não é isso. Estou te dizendo que você se tornou tudo que repudiava, para começo de conversa você não sabe de qual arma veio a bala que matou sua mãe, pode ter sido sim da polícia, mas também pode ter sido de um bandido, isso não foi investigado. — Isso mesmo. Não foi investigado, não me deram o direito de saber quem foi o responsável pela sua morte. Ela era só mais uma favelada, se fosse algum bacana que tivesse morrido aqui dentro da favela, com certeza teria havido alguma investigação, teriam feito camisas e cartazes, e saído em passeatas pedindo paz, e a imprensa então, ia subir aqui na favela com seus repórteres, botando microfone na boca dos favelados, dizendo que estavam dando a eles voz, o direito de falar e isso viraria um verdadeiro circo. — Você já pensou que pode ter odiado as pessoas erradas esses anos todos? Que sua mãe pode ter sido morta, por uma bala disparada pela arma de um dos seus comparsas? Ou até mesmo do próprio homem que colocou aquela arma em suas mãos? — Você ficou louca? Ou só está querendo fazer joguinho comigo? Você se tornou uma cobra no meio de nós, por acaso você se esqueceu que a gente brincava na rua com a molecada, que a gente fazia tudo junto? Que sempre fomos apaixonados e prometemos nos casar e encher nossa casa de filhos? — Não tente jogar toda culpa em cima de mim. Disse Rosa. — Você se tornou um estranho. Escolheu pessoas que alimentaram o seu ódio e seu desejo de vingança, e que saciaram sua sede de poder e de ser alguém. Nunca foi só por causa de sua mãe, você sempre admirou os caras que levavam esse tipo de vida, no fundo isso foi uma bela desculpa. Você sempre quis ser visto, e respeitado. Porém, escolheu a maneira fácil de ganhar a vida, através do medo, da intimidação. Escolheu ganhar dinheiro, tirando o que é dos outros, e não conseguindo com o seu próprio suor ou esforço. — Cala boca, p***a. Você não sabe o que está dizendo Rosa. Você está deslumbrada com o mundo lá fora, com a vida além do morro. Depois que começou a estudar, fazer faculdade, e se envolver com esses riquinhos filhos da p**a. Eles estão virando sua cabeça, favelado é favelado, onde quer que vá, para eles é assim, isso nunca vai mudar, não importa quantos diplomas você tenha. O que você acha que esse almofadinha quer com você? Ele vai comer a preta gostosa da favela, mas vai ser a branquela que ele vai levar para os pais conhecerem, é ela que será apresentada para os amigos. Ele vai te usar, depois te cuspir, é assim que eles fazem. Rosa dá um tapa na cara de Neto. Ele vira o rosto em direção a ela, e a olha de maneira profunda. — Não te desejo m*l, você sabe disso, sei que a muito tempo perdi o direito de lutar por você, de intervir em sua vida. Mas, sei que esse cara ainda vai te magoar muito, você não está em um conto de fadas, onde tudo se resolve e termina em um feliz para sempre. A classe dele é c***l, não aceitam pessoas como nós, sem sobrenome, sem pedigree. Eles vão te avaliar, peneirar e te julgar. Não te acharão digna de estar assentada em suas mesas. Cada dia você terá que provar que merece estar ali, e por mais que você o ame, isso vai te deixar cansada, pois não é o seu meio, e então você vai se questionar se valeu a pena. Escute bem minhas palavras. Eu estou aqui por você, se esse cara realmente valer a pena e te fizer feliz, eu vou sair de cena e nunca mais te procurar. Mas se ele te fizer sofrer, ou a sua mãe, ele vai desejar nunca ter nascido. Ele se despede de Rosa e sai de sua casa, desce o beco desorientado deixando-a arrasada. Nunca tinha brigado dessa maneira com Neto. Eles disseram coisas horríveis um para o outro. Ela sabe que o magoou muito falando das circunstâncias da morte de sua mãe, esse era um assunto que ele nunca tocava, que ele tinha enterrado porque trazia lembranças muito dolorosas, e o fazia sofrer. Ela sabe que contra ela, Neto não teria coragem de fazer nada, mas contra Jonh, ela já não tinha tanta certeza. Ele era um homem vingativo e possessivo, que sempre resolvia seus assuntos de maneira violenta. Sua mãe entra na sala e encontra a filha em prantos. — Fiz merda mãe. Ela fala chorando, Dona Helena a consola. Agora eu coloquei um alvo nas costas do John. Será que não seria melhor eu me afastar dele? — Calma, minha filha, você está muito nervosa, e o Neto também, estão de cabeça quente, logo, logo, ele fica mais tranquilo, e a gente conversa com ele novamente. Ele é um bom menino, só está magoado e com medo de perder você pela segunda vez. Levante-se desse sofá, vá tomar um banho, hoje você vai dormir comigo, na cama da mamãe.
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