Fiquei encarando minha mãe.
Conheço aquele sorriso.
E conheço o jeito exato como ela tenta transformar tragédia em piada quando a coisa é séria demais para ser dita em voz alta.
— Mãe… — chamei, firme. — O que a senhora sabe e não está me contando?
— Nada! — Ela riu, nervosa demais. — Preciso falar com sua tia.
Virou-se já andando.
— Continuem fazendo o que estavam fazendo.
Ela saiu tão rápido que o vento quase me atingiu o rosto.
Fiquei parada, sentindo o peso do silêncio que ela deixou para trás.
— Ela está escondendo alguma coisa. — murmurei.
Demir continuava ao meu lado. Não tentou me acalmar. Isso eu respeitei.
— Só nos resta descobrir o que é. — disse.
— Eu só não sei como… — respondi, sentindo o estômago apertar. — Quando minha mãe acha que está me protegendo, ela não conta nada. E isso sempre significa que o perigo já passou da porta.
Samira saiu do restaurante direto para o hotel. Não olhou para trás. Nem respirou direito até fechar a porta do apartamento e trancá-la.
Uma vez.
Duas.
Sílvia se levantou no mesmo instante.
— O que aconteceu agora? — perguntou, tensa. — Yaman descobriu a farsa?
Samira passou a mão pelo rosto.
— Pior. — respondeu. — Vicenzo está aqui.
Engoliu em seco.
— Foi ao restaurante.
Sílvia empalideceu.
— Meu Deus… o que vamos fazer?
Samira caminhou até a janela, olhando a cidade como se calculasse rotas de fuga.
— Eu ainda não sei. — Admitiu, a voz baixa. — Mas se Yaman descobrir que Isabella não está casada…
Fechou os olhos por um segundo.
— Ou se Vicenzo descobrir isso…
Virou-se de volta para a irmã.
— Vou ter que sumir com Isabella de novo.
— Não vou deixar minha filha virar moeda de troca da máfia italiana.
O silêncio que caiu foi absoluto.
E pela primeira vez…
Nem Samira tinha certeza de que conseguiria vencer essa guerra.
___
A luz da tarde entrava pela janela ampla do escritório de Yaman, dourada demais para o tipo de conversa que estava prestes a acontecer.
Vicenzo Florentino observava o ambiente com calma, como se avaliasse um território que em breve lhe pertenceria.
— Passei no restaurante hoje — disse, enfim. — Hora do almoço.
Fez uma pausa curta, estratégica.
— Fui conhecer minha prometida. E confesso… você não exagerou. Linda, inteligente e geniosa. É exatamente o tipo de mulher que se destaca. A mulher perfeita para estar ao meu lado.
Yaman não se deu ao trabalho de convidá-lo a sentar. Ficou de pé, com os braços apoiados na mesa.
— Eu te mandei uma cesta de frutas e uma explicação. — Rebateu. — Pedi para esperar. Disse estar resolvendo alguns assuntos.
Vicenzo sorriu de canto, tranquilo demais.
— Se você chama de “assuntos” minha prometida estar casada com outro homem, então não. —
Aproximou-se um passo. — Eu já estou resolvendo isso.
— E você achou mesmo que uma cesta de frutas e um bilhetinho educado iam me manter longe? — completou, quase com pena.
Yaman respirou fundo.
— Eu só não quero que minha filha me odeie. Se ela estiver realmente casada com o cozinheiro, eu arrumo outro jeito de quitar minha dívida com você.
O olhar de Vicenzo escureceu por um segundo. Só um.
— É simples. — respondeu, como se explicasse um cálculo óbvio. — É só fazer dela uma viúva.
O silêncio caiu pesado.
— Não. — Yaman foi direto. — Não faça nada. Se minha filha estiver apaixonada pelo marido, ela vai nos odiar. E você não vai querer uma mulher que pode te m***r enquanto você dorme.
Vicenzo riu baixo.
— Você sempre teve esse defeito… — ajeitou o paletó. — Acreditar que amor muda contratos.
Antes de sair, lançou o golpe final:
— Eu não tenho pressa, Yaman. Mas as dívidas não desaparecem. E sua filha… já entrou no jogo.
A porta se fechou devagar, deixando Yaman sozinho, encarando o entardecer como quem entende tarde demais que o dia ainda está longe de acabar.
Ahmet se aproximou, mas não disse nada.
Conhecia aquele olhar. Era o mesmo de quando Yaman precisava decidir entre mandar m***r alguém ou cometer suicídio corporativo enfrentando Vicenzo Florentino.
— Ahmet… — Yaman falou por fim, passando a mão pelo rosto. — Chame todos os meus advogados. Todos.
— Com todo respeito, senhor… — Ahmet hesitou, medindo cada palavra — não acredito que exista advogado capaz de resolver isso.
Yaman soltou um riso curto, sem humor.
— Então me diga você. — Virou-se, o olhar duro. — O que eu faço? Deixo Vicenzo m***r meu genro e corro o risco de minha filha me odiar pelo resto da vida?
Ahmet respirou fundo.
— Talvez seja o momento de chamar dona Isabella. Contar tudo. Deixar que ela participe da decisão. Encontrar o melhor caminho… juntos.
O silêncio caiu como um t**a.
— Eu? — Yaman endireitou a postura, indignado. — Yaman Karaman pedindo ajuda a uma mulher?
Ele caminhou até a janela, encarando a cidade como se pudesse intimidá-la.
— Nunca. — Concluiu. — Vou dar um jeito. E, se possível… sem ninguém morrer.
Ahmet abaixou levemente a cabeça.
Sabia que, quando Yaman dizia “se possível”, significava apenas uma coisa:
Alguém ia pagar essa conta.
Ele só esperava que não fosse ele próprio, porque são sempre os peões que caem antes dos reis.