Ele não me conhece

1287 Palavras
No outro dia, cheguei decidida a fazer Demir desistir dessa loucura. O restaurante estava cheio demais para uma terça-feira comum. Jornalistas disfarçados de clientes, curiosos de plantão, aquela energia de fofoca recém-nascida flutuando no ar. O “Prato da Noiva” já tinha virado lenda urbana e eu… aparentemente, a criatura mitológica por trás dele. Perfeito. Coloquei o avental, prendi o véu na cabeça e entrei na cozinha como quem pisa num ringue. Joaquim me lançou um olhar preocupado. — Bell… vai dar tudo certo? — Vai dar espetáculo. — Respondi, doce. A presença de Demir fechou a porta da cozinha segundos depois. Postura ereta, olhar atento, aquele ar de dono do tabuleiro. — Bell. — Ele disse. — Mesa sete pediu café turco. Forte. Sem açúcar. Sorri. — Mesa sete vai receber café. — confirmei. Peguei a xícara, fiz o café… E coloquei açúcar. Pouco. Mas coloquei. Joaquim arregalou os olhos. — Bell… — Confia. — Murmurei. Levei a bandeja até a mesa sete pessoalmente. O cliente agradeceu, tomou um gole e suspirou satisfeito. — Excelente. Demir observava da porta, imóvel. Primeiro ponto para mim. Voltei para a cozinha. — Eu pedi sem açúcar. — Ele disse, baixo, controlado. — Eu sei. — Respondi. — Mas o grão estava amargo hoje. Precisava equilibrar. — Você não pode decidir isso sozinha. Inclinei a cabeça, calma demais. — Não posso? Quem disse? Silêncio. Ele me encarou por um segundo longo demais para ser profissional. Não tinha raiva. Era… interesse perigoso. — Não faça isso de novo. — disse. — Vou pensar. — Respondi, passando por ele. Umut apareceu, farejando conflito. — O que está acontecendo? — Nada. — Demir respondeu rápido demais. Mentira. Veio o almoço. O prato principal. Demir se aproximou do fogão. — Esse molho precisa de mais cominho. — Não precisa. — Respondi, mexendo a panela. — Bell… — Demir. — O encarei. — Confia no meu paladar ou faça você. A cozinha inteira parou. Umut prendeu a respiração. Joaquim fingiu que não existia. Demir deu um passo à frente. — Sou o chef. — E eu sou quem você colocou como responsável por este molho. — Rebati. — E me deixe trabalhar. O molho foi servido. Sem cominho. E adivinha? A mesa pediu bis. Senti o olhar dele em mim o tempo todo. Não dê ódio. De avaliação. Como quem descobre algo novo e perigoso. Mais tarde, no salão, um jornalista se aproximou. — Senhorita, como é trabalhar com o chef Demir Osman? Sorri. Aquele sorriso. — Intenso. — Respondi. — Mas ninguém cresce sendo obedecido o tempo todo. Demir ouviu. E acho que mexi com algo dentro dele… enrijeceu os ombros. Se aproximou, postura impecável, voz firme. — Bell, podemos conversar? — Agora não. — Respondi. — Estou trabalhando. Umut quase caiu duro. Demir ficou parado, absorvendo a recusa pública. Esperei o estouro. Não veio. Ele apenas assentiu. — Quando puder. E saiu. Meu coração acelerou. Era para ele se irritar. Gritar comigo, me dispensar. Mas o que vi nos olhos dele… Não foi rejeição. Foi fascínio. No fim do expediente, quando a cozinha já estava vazia, senti a presença dele atrás de mim. Joaquim sumiu como fazia cada vez que Demir aparecia. — Você está tentando me fazer desistir. — Ele disse. — Estou. — confirmei, sem virar. — Não vai funcionar. Virei devagar. — Você não aguenta uma mulher que não obedece. Ele deu um meio sorriso. Perigoso. — Não. — respondeu. — Mas talvez eu precise de uma. Engoli seco. Droga. Eu havia entrado numa guerra fria achando que o gelo ia afastá-lo. Mas cada recusa minha… Estava acendendo mais fogo nele. E, pela primeira vez, passou pela minha cabeça um pensamento inconveniente: E se o problema não for ele não desistir… Mas, eu começar a não querer que isso aconteça? — Cheguei cedo. Cedo demais para quem não dormiu direito, mas cedo na medida exata para quem precisa executar um plano antes que a coragem resolva fugir. Hoje ele desiste desse casamento. Todo chef tem um jogo de facas. E todo chef protege esse jogo como se fosse extensão do próprio corpo. Demir não é exceção. Ninguém toca nas facas do Demir Osman. Ninguém sequer chega perto. Pois hoje… eu ia usar todas. Abri o estojo com calma. O couro ainda cheirava a cuidado obsessivo. Alinhei cada lâmina na bancada como quem monta um altar profano. Os cozinheiros foram chegando lentamente. E parando. Silêncio demais para uma cozinha funcionando. — Ela enlouqueceu… — alguém cochichou. — O Senhor Demir vai matá-la… — outro murmurou. Joaquim se aproximou, tenso. — Bell… você sabe o que está fazendo? Sem levantar o olhar, respondi: — Sei exatamente. Fica na sua. E, quando ele entrar… se afasta. Não quero que sobre para você. Ele engoliu seco e obedeceu. Peguei o cutelo. O cutelo. O mais pesado. Parecia a peça antiga da coleção e a mais bem cuidada. Sei que é o menos indicado para o que eu estava prestes a fazer. Coloquei o osso na tábua. Bati. O som seco ecoou na cozinha como um tiro. Alguns cozinheiros fecharam os olhos. Quinze minutos depois, a porta abriu. Demir entrou. E travou. Vi pelo reflexo do inox: ele ficou parado, imóvel, como se tivesse acabado de flagrar um crime hediondo. O silêncio na cozinha era ensurdecedor. Bati de novo. O cutelo encontrou o osso com brutalidade. Demir avançou dois passos. Parou. Respirou fundo. — Você gosta de brincar com fogo, não é? — disse, a voz baixa, perigosa. Não virei. Levantei o cutelo. Desci com força. Vi pelo canto do olho ele fechar os olhos por um segundo, como se aquilo doesse fisicamente. — Vou fazer ossobuco. — respondi, tranquila. — Preciso cortar o osso. Silêncio. O tipo de silêncio que faz uma cozinha inteira prender a respiração. Demir se aproximou mais. Agora estava ao meu lado. — Esse não é o corte certo. — disse. — É o corte que eu preciso. — respondi. — Você vai estragar a lâmina. Sorri de lado. — Facas foram feitas para cortar, Demir. Não para serem veneradas. Ele me encarou. Ali não tinha chef e funcionária. Só duas forças que se recusavam a ceder. — Você está me desafiando. — Constatou. Bati de novo. — Não. — Respondi. — Estou mostrando quem eu sou. O osso finalmente cedeu. O som foi seco, definitivo. Demir ficou em silêncio por longos segundos. O olhar dele percorreu minhas mãos firmes, a postura tranquila, a ausência total de arrependimento. — Você acha que isso vai me fazer desistir? — disse, enfim. Larguei o cutelo com cuidado excessivo — ironia pura — e virei para ele. — Acho. — respondi. — Porque um homem como você não aceita uma mulher que desafia o que é sagrado para ele. Ele me observou como quem vê algo raro. Perigoso. Irreversível. Então, para minha surpresa… ele sorriu. Não um sorriso bonito. Um sorriso lento. Contido. Quase reverente. — Pelo contrário. — disse. — Você acabou de provar que não tem medo de mim. Meu estômago revirou. Ele se inclinou um pouco, voz baixa o suficiente para só eu ouvir: — E isso, Bell… não me afasta. Engoli seco. Ele passou a mão pelo cutelo, pelos dentes que se formaram no corte… e deixou ali. — Continue. — disse, antes de se afastar. — Quero ver até onde você vai. E saiu da cozinha. Fiquei ali, com o cutelo na mão, o osso partido… E a certeza incômoda de que havia acabado de atravessar mais uma linha. Era para ele desistir. Mas, pela primeira vez, eu tive receio. Não dele. De mim. Porque se nem as facas dele me afastaram… Talvez nada mais o afastasse.
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