Mãe....eu literalmente dancei

1337 Palavras
Tranquei a porta do apartamento e encostei nela como se estivesse me protegendo de um ataque invisível. Respirei fundo. Uma vez. Duas. Na terceira, perdi completamente a dignidade. — EU DANCEI. Falei em voz alta. Para a parede. Para o universo. E para os ancestrais turcos que, com certeza, estavam me observando em silêncio, decepcionados ou rindo. Eu. Dancei. Não tropecei. Não fugi. Não desmaiei. Dancei. Levei a mão à testa e caminhei pela sala como um animal enjaulado. — Não foi qualquer dança… — murmurei. — Foi dança turca. Ao vivo. Com música. Com público. Com um homem ajoelhando na minha frente como se estivesse pedindo minha alma em vez de um passo. Meu coração voltou a acelerar só de lembrar. A música começou e eu congelei. Literalmente. Meu corpo inteiro entrou em modo não-existe-mais-cérebro. Eu pensei: Ele não vai fazer isso. Fez. Demir abriu os braços no meio do restaurante. Orgulhoso. Seguro. Lindo demais para o meu próprio bem. Girou. Saltou. Marcou o chão com os pés como se estivesse contando uma história antiga… e toda ela falava de mim. As pessoas pararam. As conversas morreram. E eu… eu fiquei ali, plantada, com a fita vermelha queimando no pulso como um aviso divino. Então ele se ajoelhou. Não tocou em mim. Não precisou. Estendeu a mão no ar — convite, não posse. Um desafio silencioso. E ali eu tive uma chance. Uma única. Se eu recusasse… ainda era farsa. Se eu aceitasse… não tinha mais desculpa cultural no mundo. — NÃO — eu sussurrei para mim mesma, andando de um lado para o outro no apartamento. — Eu devia ter dito não. Mas meu corpo lembrou antes da razão. Lembrei de como levantei. De como aceitei dançar sem tocar nele. Como nossos passos se alinharam sem ensaio, sem aviso, sem permissão. Halay. Sem mãos dadas. Sem contato. Só ritmo. Olhar. Intenção. Era pior que tocar. — Eu dancei como se soubesse… — murmurei. — Como se aquilo fosse meu também. Parecíamos duas linhas paralelas destinadas a se encontrar só no olhar. Cada giro dele era uma provocação. Cada passo meu, uma resposta. Não havia beijo. Não havia abraço. E ainda assim… foi íntimo demais. Parei no meio da sala e encarei meu reflexo no espelho. — Isso não foi fingimento. — disse para mim mesma, apontando o dedo. — Isso foi imprudência emocional. Joguei a bolsa no sofá, caminhei até a cozinha e abri a geladeira sem fome nenhuma. — Eu fiz café. — continuei, acusando a Bell do reflexo. — Eu dancei. Eu sorri. Eu não fugi. Suspirei, passando a mão pelo rosto. — E o pior… — minha voz saiu mais baixa. — Eu gostei. Fechei a geladeira com força. Demir Osman dançando não era parte do plano. O olhar dele, firme, focado, como se nada ao redor existisse… definitivamente não. E aquele sorriso no final… Não era de vitória. Era de quem tinha acabado de escolher uma batalha longa. Sentei no sofá, finalmente vencida pelo cansaço. — Minha mãe vai me m***r… — murmurei. — Meu pai vai tentar m***r ele. E eu vou ficar no meio… dançando de novo se deixar. Olhei para o pulso. A fita vermelha ainda estava ali. Devagar, desamarrei. Mas o nó… Esse já estava feito. E pela primeira vez desde que cheguei à Turquia, eu tive um medo diferente. Não do escândalo. Nem da família. Não da tradição. Medo de descobrir que talvez… eu não queria mais fugir da música. — Parabéns, Bell. — falei sozinha. — Você transformou uma encenação em memória. Respirei fundo. Dançar, na frente de todo mundo, sem tocar… não era só tradição. Era i********e exposta. Era uma escolha. Uma promessa não dita. Peguei o celular com a mão ainda trêmula. Se eu dancei, se o vídeo estava circulando, se o nome “noiva” agora vinha acompanhado do meu rosto… Então não era mais só um problema meu. Era hora de chamar reforço. Brasil. Mãe. — Tá. — sussurrei. — Vamos estragar mais um pouco esse caos. E disquei, ainda pensando: Eu, a filha de um dos homens mais poderosos da Turquia…presa numa farsa, com cheiro de cozinha e um anel que brilhava no meu dedo mostrando que a farsa não era tão falsa assim. Minha cabeça ainda girava. Noiva. Eu. Noiva. Queria rir. Ou chorar. Ou bater em alguém. Não necessariamente nessa ordem. Olhei no relógio Cinco da tarde. Horário perfeito para encontrar minha mãe e minha tia fazendo o que fazem de melhor: brigando por queijo. Quando a vídeo chamada conectou, eu já estava preparada para ouvir o clássico “minha filha, pelo amor de Deus, o que você aprontou?”. Mas o que veio foi pior: — Isabella? Por que essa cara de quem viu um fantasma? Respirei fundo. — Mãe… eu fiquei noiva. Silêncio. Aquele silêncio onde até a internet parece travar por respeito. — Você o quê? — Fiquei noiva. Mas calma! Foi tudo muito rápido. E também… meio que… de mentira. — DE MENTIRA?! — a voz subiu tanto que o viva-voz chiou. — Como assim de mentira? Onde você está? O que está acontecendo? Antes que eu explicasse, minha tia surgiu ao fundo: — Pergunta pelo chef famoso! Pronto. A fofoca já tinha CPF. — Mãe, escuta. Eu tô no meu apartamento. O pedido saiu do controle. Teve música, aplauso, gente chorando… e isso foi parar na internet. Viralizou. — Eu vi! — Minha tia já está praticamente dentro do celular. — O moço dançou, ajoelhou, chamou… e o pior, Isabella: você aceitou! Fechei os olhos. Derrotada. — Mãe… foi o Umut. Ele descobriu que eu sou turca. O restaurante do Demir estava sendo boicotado pelas famílias tradicionais porque ele não é casado. E o Umut achou genial me usar como solução temporária. — Solução para quem? — minha mãe rebateu. — E quem é Umut? — Umut Emir. Amigo e advogado do Demir. Esperei o julgamento. Mas veio a pergunta fatal: — Isabella… você fez o café? Putz. Devia ter fugido para Capadócia e criado cabras. — Fiz, mãe… mas era encenação. — Encenação com café e dança?! — minha tia quase teve um treco. — Isso é contrato vitalício! Massageie as têmporas. — Mãe… isso ficou grande demais. Viral demais. E o papai… — Ah. — ela suspirou. — Chegamos ao verdadeiro problema. Engoli seco. — Ele viu, né? — Se ele não viu, alguém vai fazer questão de mostrar. E você sabe como ele fica quando ouve “noivado” fora do roteiro dele. — Ele vem pra cá… — Com certeza vai. Está na Itália, mas isso só atrasa o desastre. — Eu sei… — E sabe que ele atravessa continentes se for preciso. — Eu sei! — E sabe que ele não vai gostar nem um pouco desse noivo. — EU SEI, MÃE! Silêncio. Então ela falou, com a calma mortal de uma mulher experiente: — Eu estou indo para a Turquia. — O quê?! — Alguém precisa segurar seu pai antes que ele transforme isso numa crise diplomática. E essa pessoa sou eu. Minha voz falhou: — Eu não queria causar tudo isso… — Eu sei, meu amor. Mas você sempre teve talento para transformar uma faísca num incêndio. Minha tia quase morreu de rir. — Fique onde está — minha mãe continuou. — Não fuja. Não termine. E, pelo amor de Deus, não se case de verdade. Estou pegando o primeiro voo. — Ok… — Isabella? — Oi… — Da próxima vez que um homem turco DANÇAR para você em público e você fizer café para ele… ME AVISA ANTES! A ligação terminou. Fiquei olhando para o celular. Recapitulando: Um noivado falso. Um vídeo viral. Um pai furioso a caminho. Uma mãe vindo para evitar a Terceira Guerra. E um chef turco que talvez… só talvez… não estivesse fingindo tanto quanto eu. A bomba já estava armada, o pior é que não havia botão para desligar o jeito ia ser esperar explodir e avaliar os danos.
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