Heloísa

935 Palavras
O frio da Itália foi a primeira coisa que Heloísa sentiu ao sair do avião. Não era um frio comum. Era elegante, silencioso e c***l. O tipo de frio que atravessava o casaco barato dela e fazia sua pele arrepiar instantaneamente. Ainda assim, Heloísa sorriu pequeno enquanto caminhava pelo aeroporto enorme, arrastando sua mala simples atrás de si. Ela tinha conseguido. Depois de tantos currículos recusados, tantos bic0s e noites estudando até tarde no Brasil, finalmente havia conseguido uma oportunidade de mudar de vida. Mesmo que aquilo significasse ir sozinha para outro país. Os olhos castanhos observavam tudo ao redor com encanto: as pessoas apressadas, as vozes italianas ecoando pelo aeroporto, os homens elegantes, as vitrines luxuosas… tudo parecia distante demais da realidade humilde em que cresceu. Então ela viu o homem esperando por ela. Alto. Grande. Vestido de preto dos pés à cabeça. Segurava apenas uma placa discreta com seu nome. — Heloísa Albuquerque? — perguntou com sotaque forte. Ela assentiu rapidamente. — Sim… sou eu. Ele pegou sua mala sem sorrir. — Me acompanhe. Heloísa tentou puxar conversa durante o caminho até o carro, mas desistiu depois de receber respostas monossilábicas. O homem parecia mais um guarda-costas do que um motorista. E talvez fosse mesmo. O carro preto atravessou as ruas iluminadas da Itália em completo silêncio. Heloísa observava tudo pela janela com os olhos brilhando de curiosidade. Até que começaram a subir uma estrada afastada da cidade. As árvores ficaram mais densas. Os muros mais altos. os portões da mansão eram altos pintados em uma cor dourada . Homens armados faziam segurança do lado de fora. O sorriso dela desapareceu lentamente, sabia que iria ser perigoso mais tinha que tentar , eram um bom salário ... — É aqui? — perguntou baixinho. O motorista apenas assentiu. Os portões se abriram. E Heloísa perdeu completamente o ar. A mansão era absurda. absurda de linda Parecia um palácio antigo escondido no meio da Itália. Fontes enormes iluminavam a entrada. Jardins impecáveis cercavam a propriedade. As janelas enormes brilhavam sob a luz dourada. Era bonito. Mas também assustador. Bonito de um jeito frio. Como se aquele lugar escondesse coisas perigosas atrás das paredes luxuosas. Assim que entrou, uma mulher elegante de cabelos grisalhos aproximou-se. — Você deve ser Heloísa. Sou Bianca, governanta da mansão. A jovem sorriu educadamente. — Muito prazer. Bianca analisou a garota por alguns segundos. um pouco frágil para aquele mundo . — Venha comigo. Enquanto caminhavam pelos corredores enormes, Heloísa observava tudo encantada. Lustres de cristal. Escadarias gigantescas. Quadros antigos. Mármore brilhando no chão. — Suas funções serão limpeza geral da mansão — Bianca explicou. — Corredores, quartos, biblioteca, escritório… quero tudo impecável. — Pode deixar . Nos dias seguintes, Heloísa rapidamente conquistou todos os funcionários da casa,verá uma boa menina e era esforçada . Ela era gentil. Educada. Trabalhadora. Nunca reclamava. Passava horas limpando cada canto da mansão enquanto cantarolava baixinho músicas brasileiras. Organizava tudo com perfeição e parecia sempre sorrir, mesmo cansada. Mas o que mais agradava os funcionários antigos era outra coisa: Heloísa não era dessas meninas que ficavam espreitando conversas ou até mesmo se atirando para qualquer um , ela apenas trabalhava no canto dela sem incomodar ninguém nao mexia em nada que não fosse dela ! ela estudava. Todas as noites! Depois de passar o dia inteiro limpando aquela mansão gigantesca, Heloísa tomava banho, prendia os cabelos ruivos em um coque bagunçado e sentava na cama cercada por livros. Administração. Ela queria terminar a faculdade. Queria crescer. Ter sua própria empresa algum dia. Construir uma vida digna. Por isso dormia tarde quase todas as noites. Seus dias eram tranquilos. Até a volta do dono da mansão. Ela nunca o havia conhecido pessoalmente. Apenas visto fotos espalhadas pela casa. Henrico De Luca. O nome sozinho já causava medo nos funcionários. As pessoas falavam dele em voz baixa. Sempre. Porque Henrico De Luca não era apenas rico. Era perigoso, era o capo o tão temido e c***l. Naquela madrugada, Heloísa descobriu exatamente o porquê. Ela acordou com sede. O relógio marcava quase três da manhã quando saiu do quarto usando um moletom largo e chinelos felpudos. A mansão inteira estava mergulhada em silêncio. Escura. Sombria. Quase sufocante. Ela desceu até a cozinha tentando não fazer barulho. Mas assim que entrou no ambiente escuro… Seu corpo bateu contra algo duro. Muito duro. Ou melhor. Alguém. Heloísa soltou um pequeno grito assustado quando a garrafa escapou de seus dedos, mas antes que caísse no chão, uma mão enorme a segurou no ar. Ela congelou. Lentamente ergueu os olhos. E perdeu o ar. O homem diante dela parecia uma muralha. Alto. Musculoso. Vestido inteiramente de preto. Os olhos escuros caíram sobre ela lentamente. Frios. Pesados. Perigosos. Heloísa sentiu medo instantaneamente. — D-desculpa… — sussurrou nervosa. — Eu só vim pegar água. Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos. Longos demais. Então a voz grave cortou a escuridão: — Qual seu nome? Ela apertou os dedos contra o moletom. — Heloísa. — O que faz na minha casa? Na minha casa. O coração dela disparou. — Sou funcionária… faxineira. Trabalho aqui há alguns meses. Os olhos dele continuaram nela. Analisando. Observando. Intimidando. — Bianca me contratou — explicou rapidamente. — Eu limpo a mansão, só isso. O homem inclinou levemente a cabeça. E então simplesmente saiu da cozinha. Os passos pesados desapareceram pelo corredor escuro. Heloísa permaneceu imóvel. Porque ela conhecia aquele rosto. Das fotografias. Dos jornais. Dos quadros espalhados pela casa. Henrico De Luca. O homem mais temido daquela mansão, e da Itália. E agora… Ele sabia exatamente quem ela era.
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