Capítulo 2

1010 Palavras
Helena percebeu que tinha perdido o controlo no momento mais simples possível. Não foi num beijo, não foi numa declaração. Foi quando começou a contar os minutos para vê-lo. Ela dizia a si mesma que era apenas hábito, rotina ou mesmo coincidência. Mas o coração não entende de desculpas lógicas. ** Naquela quarta-feira, Miguel chegou atrasado à aula. O lugar ao lado dela ficou vazio por dez minutos que pareceram uma hora. Quando ele finalmente entrou, ofegante, cabelo levemente desalinhado, Helena sentiu algo que não queria admitir: Alívio. — Perdi alguma coisa importante? — ele cochichou enquanto se sentava. — Só metade da explicação. — Ótimo. Então vou depender de você. Ela revirou os olhos, mas entregou o caderno para ele copiar. Pequenos gestos, confiança silenciosa e proximidade natural. Era assim que começava. *** Na semana seguinte, houve uma festa organizada pela turma e Helena quase não foi. Festas significavam descontrolo, barulho, gente demais. E ela não gostava da sensação de perder a compostura. Mas Miguel insistiu. — Vai ser divertido. — Você não me conhece em festas. — Quero conhecer. Aquilo foi o suficiente. *** A música estava alta. As luzes, baixas. O ambiente tinha aquele cheiro de liberdade irresponsável que só universitários conhecem. Helena estava diferente, cabelo solto, vestido simples, mas leve. Miguel demorou dois segundos a mais do que devia para desviar o olhar. — Você está… — ele começou. — Normal? — Não, está linda! O coração dela tropeçou. Ela tentou fingir naturalidade, mas não conseguiu evitar o sorriso. ** Mais tarde, já perto da meia-noite, estavam sentados na escada do lado de fora do prédio. O barulho da festa chegava abafado. — Você já gostou de alguém de verdade? — ela perguntou de repente. Miguel demorou a responder. — Já achei que sim. — E não era? — Era mais medo de ficar sozinho do que amor. Ela absorveu aquilo. — E agora? Ele virou o rosto na direção dela. — Agora eu estou tentando entender o que é. O silêncio entre eles não era mais confortável. Era elétrico. ** Uma garota da turma apareceu chamando Miguel para dançar. Helena sorriu e disse que tudo bem. Mas não estava tudo bem. Ela ficou ali, sentindo algo apertar dentro dela. Algo que não tinha nome oficial, mas todos conhecem, ciúme. Miguel percebeu. E voltou mais cedo do que precisava. — Está tudo bem? — ele perguntou. — Claro. — Helena… Ela suspirou. — Eu não gosto dessa sensação. — Qual? — De querer algo que talvez nem seja meu. Miguel aproximou-se devagar. — E quem disse que não é? O mundo inteiro pareceu diminuir naquele instante. Ela respirou fundo. — Você vai embora no próximo ano. Ele passou a mão pelos cabelos. — Talvez. — Eu não sei começar algo que pode ter prazo de validade. Ele ficou em silêncio por alguns segundos. — E se não tiver? Ela queria acreditar. Mas tinha medo demais. --- Quando ele a levou até casa naquela noite, ficaram parados na porta por tempo demais. Olhares demorados. Respirações desencontradas. — Boa noite, Helena. — Boa noite, Miguel. Ele inclinou-se levemente. Não foi um beijo completo, foi quase. Um quase que queimou mais do que se tivesse sido. Quando ela entrou, encostou a porta e levou os dedos aos lábios. Não era mais amizade, não era mais simples. E o mais assustador de tudo? Ela já não queria que fosse. *** Depois daquela noite, nada voltou ao normal. E talvez o problema fosse justamente esse: nenhum dos dois queria que voltasse. Helena passou dois dias evitando olhar Miguel diretamente. Não por falta de vontade. Mas porque tinha medo de confirmar o que já estava evidente. Ele, por outro lado, parecia decidido. Na sexta-feira, depois da aula, segurou a mão dela antes que ela pudesse escapar. — Podemos parar de fingir? O toque foi firme, mas não invasivo. — Fingir o quê? — ela perguntou, mesmo sabendo. — Que isso aqui não está acontecendo. O coração dela acelerou. — E o que exatamente está acontecendo? Miguel deu um passo mais perto. — Eu estou gostando de você. Muito mais do que planejei. Ela sentiu o mundo inteiro inclinar. — Miguel… — Se você disser para eu parar, eu paro. Mas não me faça fingir que é só amizade. Helena respirou fundo. Ela tinha medo. Do futuro. Da distância. Da intensidade. Mas naquele momento, tinha mais medo de se arrepender. — Eu não quero que você pare. Ele sorriu, como se estivesse esperando por aquilo desde o primeiro café derramado. O beijo não foi cinematográfico. Foi hesitante. Lento. Quase tímido. Mas foi real. E foi suficiente para mudar tudo. **** Os dias seguintes foram estranhamente leves. Eles não anunciaram nada. Não houve pedido formal. Mas todos perceberam. Os lugares passaram a ser fixos. As mãos, dadas. Os olhares, mais íntimos. Helena estava feliz, mas a felicidade vinha acompanhada de uma pergunta constante: “Quanto tempo isso vai durar?” Miguel falava com entusiasmo sobre o intercâmbio. Ela fingia entusiasmo junto. Até que numa tarde, não conseguiu. — Você realmente vai? — ela perguntou. — É uma oportunidade importante. — Eu sei. — Mas isso não muda o que sinto. Ela queria acreditar nisso. Mas distância muda tudo. E o medo começou a crescer silencioso. *** Relacionamentos não quebram de uma vez. Eles racham primeiro. Pequenas discussões começaram a surgir. Ciúmes bobos. Respostas atravessadas. Helena odiava a ideia de parecer insegura. Miguel odiava sentir que precisava provar algo o tempo todo. Numa noite, depois de uma discussão por mensagem, ficaram horas sem se falar. Helena encarava o telemóvel. Orgulho contra saudade. Miguel apareceu na porta dela. — A gente não pode brigar por coisas pequenas — ele disse. — Então para de agir como se eu tivesse que aceitar tudo. Silêncio. Ele segurou o rosto dela. — Eu não quero te perder. Ela fechou os olhos. — Então não me deixa sentir que vou. Mas o problema era maior do que os dois queriam admitir. O tempo estava passando. E a viagem se aproximava.
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