CAPÍTULO 5

1444 Palavras
- Você mentiu para os seus pais? - Não me olhe desse jeito julgador. Pede com a voz rouca, tentando não chorar. - Não queria mais vê-los chorando por minha causa. Não suportava mais ver que estavam deixando de viver, por minha causa. - E achou que mentir sobre sua saúde seria melhor? - Achei que poupa-los do inevitável, seria o melhor. - Você resolveu se fechar no mundo e esperar a morte? Minha pergunta sai mais alterada do que devia. - Sim! Não consigo acreditar que ela esteja sumindo da vida dos outros para morrer. - Decidi não fazer as pessoas viverem a minha doença. Isso facilitaria o luto de muitas pessoas. Eu seria a garota do trabalho que morreu ou a mulher que alguém limpava a casa. Estou em choque encarando enormes olhos azuis. - Por isso estou te dizendo para não se envolver comigo. Quanto mais evitar entrar na minha vida, menos dor sentirá com a minha partida. - Você não tem medo de morrer? Pergunto e Priscila abaixa a cabeça, voltando a encarar suas mãos. - Priscila... Ela não me responde e respiro fundo. Decido não continuar essa conversa e apenas seguir cozinhando. Mas mesmo não falando nada, meu cérebro está repassando nossa conversa. Tiro as batatas da água e antes de começar a fazer o purê, coloco o peixe na chapa. Olho para Priscila que está olhando para uma das paredes de vidro, na direção que me parece ser uma montanha. Continuo minhas coisas e quando tudo está pronto, monto os pratos. - Espero que goste. Ando até a mesa e coloco um suporte, deixando em seguida o prato sobre ele. - Tem suco na geladeira. Fala sem me olhar. - Vou pegar. Vou para a geladeira e pego o suco. Antes de voltar pra mesa, pego dois copos. Levo meu suporte e termino de colocar tudo para o nosso jantar. Me sento ao seu lado e vejo que ficou até bonita a comida. - Minha mãe ficaria orgulhoso de mim. Comento sorrindo e Priscila sorri pra mim. - Está lindo! - Come! Digo colocando suco em nossos copos. Priscila cutuca com o garfo o purê. - Come! Falo mais firme e ela ri. - Tenha calma! Preciso criar apetite primeiro. Pega um pouco com a ponta do garfo e leva a boca. Paro tudo que estou fazendo e espero Priscila engolir e expressar por qualquer ruído se gostou. - Hum! Isso está muito bom. Suspiro aliviado. - Prova o salmão. Tira um pequeno pedaço e leva a boca. Geme de satisfação e isso me deixa muito feliz. - Diga a sua mãe que ela o ensinou muito bem. - Pode dizer a ela quando for conhecê-los. Priscila solta o garfo que cai no prato, fazendo um enorme barulho. - O que? - Semana que vem! Já deixe marcado na sua agenda. - Miguel! - Não adianta vir me enrolar de que pode estar morta e bla..bla...bla... Ela está segurando o riso. - É meu aniversario e como minha amiga, está mais que convidada. - Como sua amiga? Pergunta com humor. - Sim! Se até lá não se tornar mais do que isso... Dou de ombros, mas com um belo sorriso no rosto. - Você ouviu tudo que conversamos hoje? - Sim... Corto o salmão e enfio um pedaço na boca. - Qual a parte do "não quero ninguém chorando no meu caixão" e o "evito criar laços afetivos", você não entendeu? Fecho um olho e finjo pensar. - Qual a parte do " Não vou embora" e o "Vamos viver sem falar de morte" você não entendeu da minha resposta? - Você é teimoso! - Você é negativa! - Você que é positivo demais. - Olha pra mim! Priscila vira a cabeça e encara meus olhos. - Os médicos te deram uma chance. Certo? - Certo! - Você pode viver sua vida sendo feliz e esperar essa chance aparecer ou viver sozinha e esperar a morte. - Já fiz minha escolha. Estou esperando a morte. Aproximo meu rosto, deixando minha boca próxima demais da dela. - Eu escolho a primeira opção pra você. - Quem tem que escolher sou eu. - Não vou deixa-la sozinha. Então mude sua escolha. - Não quero! - Vou fazer você querer. - Tarde demais pra mudar. - Nunca se é tarde para escolher um caminho novo. - Não existem caminhos. Existe um caminho só. - Se falar morte eu vou te beijar e te deixar sem ar de novo. - M.O.R.T.E... Diz pausadamente com um olhar brincalhão. Roço meus lábios no dela que fecha os olhos me sentindo. - Se comer mais, prometo te arrancar o ar. - Está tentando me fazer comer? - Estou... e também estou tentando mudar sua vida. Aceite, me aceite e seja feliz. Beijo rápido seus lábios e me afasto. - Come! Priscila volta a comer bem lentamente. - Me fala sobre você. Pede enquanto mastiga. - O que quer saber? - Se serei sua amiga ou quem sabe algo mais, preciso saber de tudo. - Sou formado em administração e ajudo meu pai na empresa dele. Luana contou que somos em três filhos? - Sim. Me falou do Pedro e que é casado. - Sim... Geovana está grávida da pequena Talita. Está perto de ganhar e no bolão da família coloquei que nasce no dia do meu aniversário. - Isso te deixaria feliz? - Muito! Pedro teria uma miniatura feminina minha e isso seria muito bom. Priscila ri e parece que está um pouco melhor. Acho que estava fraca por não se alimentar direito. - Você não pareceu muito amigo do Elias na festa. Sua família aceita o noivado dele e da Luana? - Nós aceitamos. O que não concordamos é com a vida adolescente deles. - Aquela festa parecia de campus de faculdade. Comenta e nós dois rimos. - Me diz o que gosta de fazer. Pergunta comendo o resto do purê. - Gosto de perseguir garotas doentes e t*****r com elas. - Opa! Isso foi uma indireta pra mim? Está querendo me levar para o meu quarto, tirar meu roupão e fazer amor comigo a noite toda? - A noite toda? Uau! - Esqueci de te avisar que nessa situação... Aponta para o corpo todo. - Vai conseguir no máximo uns beijos antes de me dar crise de falta de ar. - Aceito! Vou recolher os pratos e vamos pra cama te arrancar o fôlego. - Estou brincando! Não precisa me levar para o quarto. Pode ir se quiser. Recolho tudo e levo pra pia. - Miguel, você pode ir. - Não... hoje é sexta! - Por isso mesmo! Ainda dá tempo de curtir sua noite. - Me responde uma coisa. No seu quarto o teto também é de vidro? - Uma parte. Por que? - A que fica sobre sua cama? - Sim! Gosto de observar as estrelas. - Vamos ver seu quarto. - Você não... Se cala e ri quando a pego no colo. - Posso te fazer outra pergunta? - Pode! Responde se ajeitando em meus braços. - Na varanda parecia tão bem e hoje... - Não fico sempre assim. Meu coração cada dia acorda de um jeito. Às vezes ele bate como se nunca tivesse doente e outros ele parece querer parar de bater. Subo a escada e entro em um corredor. - Segunda porta. Sussurra e viro para a segunda porta. - Então cada dia com você é uma incógnita? - Sim! - Gosto disso. Beijo sua cabeça e abro a porta. Entramos no quarto e a fecho. Sigo para a cama e fico encantado com a iluminação que a lua e as estrelas dão ao quarto. Deito Priscila na cama com cuidado e olho em volta. Tiro meus sapatos e meu cinto. - Deita e vai ver a magia da noite. Diz com a voz baixa e me deito ao seu lado. - Olha pra cima! Olhamos pro teto e perco o ar vendo a imensidão sobre nós. - É incrível! Viro o corpo e ficamos de frente um para o outro. Subo minha mão pegando a dela, que está perto de sua cabeça. Meus dedos sobem pelo seu braço, buscando sua mão e sinto algo em seu pulso. Parecem cicatrizes e isso me assusta. Priscila está olhando para mim. - Me perguntou se eu tinha medo da morte. Diz com a voz baixa. - Não... eu não tenho medo dela. Tanto que tentei encontra-la várias vezes. Meus olhos desviam para o seu pulso e vejo várias marcas. Várias tentativas de cortes. - Mas parece que é a morte quem tem que te encontrar e não o oposto.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR