Tom.
- Você precisa do quê? - Eu quase grito em resposta ao pedido absurdo do meu melhor amigo que acabou de ecoar no alto-falante da minha picape.
- Que busque a Mia. - Ele parece cansado. - Como eu previ, o bostä do Paul fez merdä e ela saiu de casa e agora está em um hotel no meio da caminho entre St. Louise e Ann Arbor. - Pisco com força, porque não é possível que o meu maior tormento esteja perdido justamente no meu caminho.
O destino gosta muito de testar a minha sanidade!
- Certo, e você, que é o irmão dela, não pode fazer isso por qual motivo mesmo??? - Jogo a pergunta, praticamente implorando para que ele mude de ideia, e ouço ele suspirar no outro lado da ligação.
- Você já está aí, e virá para cá de qualquer forma… E eu tenho um trabalho para terminar… - Vejo que ele se enrola com as desculpas. - E eu preciso entender o que aconteceu… Ela não vai me contar tudo, mas quem sabe ela fale para você…
- A sua irmã me odeia. - Respondo acelerando em direção a minha casa, porque mesmo que eu lute contra o pedido dele, por dentro, eu já decidi buscar o meu pequeno tormento.
- A minha irmã nunca te odiou. Ela me odeia, e você é só uma consequência disso. - Ignoro a fila de pensamentos enquanto me divido entre uma boa desculpa e a aceitação.
- Me manda o endereço e avisa que eu vou demorar.
- Ela sabe. - Ele rebate e tenho certeza que ela não deve ter ficado nada feliz com a notícia de que a carona dela sou eu.
- Sério Mat, você me deve…
- 1000 flexões, capitão. - Ele oferece.
- Isso nem começa a pagar. Vou dirigir por pelo menos 6 horas com a Mia Back dentro do meu carro. Quero o campeonato por isso, senhor Wide Receiver. - Ele solta um risinho sem graça antes de responder.
- Conte com isso, Quarterback. Vou te mandar o endereço e o número dela. Valeu mesmo Cap! - E desliga.
E estou sozinho com os meus pensamentos.
E com os meus planos.
E com a missão que me aguarda.
E eu deveria saber que não ia conseguir lidar com isso tudo com calma.
Paro o carro na garagem da Mansão Bradford e preciso de um segundo antes de descer do carro.
Maldita hora que o meu pai me arrastou até aqui.
Parece que o universo quer me ver sangrar.
E 6 horas dentro de um carro com Amélia Dalton com certeza me fará sangrar até a morte.
Diferente do que o Matthew acredita, ela realmente me odeia - afinal, eu dei todos os motivos do mundo pra ela me odiar. De forma calculada e premeditada, eu provoquei a fúria da garota mais doce que conheci na vida, e encorajei que ela fizesse a única coisa que eu nunca seria capaz de fazer:
Manter distância.
A mensagem apita e eu logo coloco o endereço no mapa… 2 horas é o tempo que vou levar até ela.
O número dela chega em seguida e eu aperto os olhos, respiro fundo e encaro o celular antes de abrir a foto dela no aplicativo de mensagem.
Ela parece a mesma e, ainda assim, não parece.
O cabelo longo cai em ondas, agora com luzes claras nos fios castanhos que sempre permearam os meus sonhos.
A marca no queixo, cicatriz que eu causei com uma bolada, quase sumiu, mas os olhos em tom de caramelo ainda brilham na minha direção da mesma forma.
Olhos capazes de despir a minha alma.
Respiro fundo e bloqueio o celular antes de saltar do carro.
Tenho um longo caminho até Ann Arbor, e a parada que eu vou fazer com certeza vai exigir tudo de mim.
A Lúcia me recebe na porta, como todas as vezes nos últimos anos e acho que ela nota a minha luta interna.
- O que aconteceu, meu menino?
Respiro fundo antes de dizer simplesmente:
- A Mia está com problemas. - Os olhos maternos que sempre me olharam com carinho, muito mais carinho que os da minha própria mãe, encontram os meus. - To indo buscar ela… Um favor para o Mat. - A compreensão brilha nas feições dela.
- Vou providenciar um lanche para a viagem. - Ela avisa, sem nunca tirar os olhos dos meus ou soltar a minha mão, que só agora eu percebi que ela estava segurando.
- Para duas pessoas, por favor. - Peço, e ela suspira.
- Será uma longa viagem. - Ela declara e eu apenas estalo a língua, antes de subir quase correndo para o meu quarto.
A minha mala não foi mexida, afinal vim para um evento e usei roupas que estavam aqui, então levo apenas o tempo de um banho e uma troca de roupas, antes de descer as escadas em direção à cozinha. Não vejo os meus pais, afinal, o dia ainda está claro, e eles só chegam a noite, como foi a minha vida inteira. Um saco pardo me aguarda no balcão da cozinha, junto com duas latas de refrigerante e uma garrafa de água.
- Vai buscar ela em casa? - A Lucia me pergunta, agora com um ar curioso.
- Em um hotel no caminho… O noivinho de merdä aprontou alguma coisa. - Ela assente, porque ela é uma das únicas pessoas que sabe tudo sobre mim. Inclusive, a minha opinião sobre essa relação da Amélia.
- Ele machucou ela? - A pergunta dela é cheia de cautela, mas mesmo assim me faz tremer.
- É o que eu pretendo descobrir. - Ela assente, morde a boca e respira fundo.
- Eu espero que não. - Ela se aproxima e segura as minhas mãos, grudando os olhos nos meus, com uma sabedoria que me acompanhou a vida inteira. - Meu menino, seja lá o que o rapaz fez com ela, por favor…
- Não vou fazer nada. - Me defendo, mesmo sabendo que ela tem razão em se preocupar. - Ela não é nada minha. Nunca foi. - Mordo a boca, porque eu enterrei fundo qualquer esperança sobre a Amélia no dia que o Matthew ameaçou a nossa amizade por isso. - Ela é a irmã do Matthew e apenas isso importa. Farei isso por ele.
- Nós dois sabemos que essa não é a verdade. - Ela sorri para mim.
- O problema é que apenas nós dois sabemos disso. - Ela me abraça, mas eu não tenho tempo para me permitir sentir.
Preciso salvar o meu tormento.
Saio com o carro, tendo os olhos da minha mãe de criação e governanta da minha família, fixos em mim, e não demoro para cair na rodovia. Somente no meio do caminho me dou conta que o carro está silencioso, enquanto sou engolido por uma sequência de pensamentos e dúvidas sobre as próximas horas da minha vida.
Horas essas que eu deveria evitar, mas ainda assim não consigo.
A decisão de fingir indiferença foi fácil, e com isso em mente eu parei o carro e encarei o hotel tenebroso que o meu tormento está hospedado.
Putä merdä, Amélia.
Caminho entre os quartos, sentindo o meu estômago retorcer em antecipação e quando paro em frente a porta de número 14, ainda não estou pronto.
Faz quase 3 anos e ainda assim dói para um caralhö só respirar o mesmo ar que ela…
Bato na madeira e prendo a respiração enquanto ouço ela destrancar a porta.
Conto os segundos, quase dando um minuto, e assim que vejo os olhos caramelo brilhando cheios de surpresa, preciso segurar o sorriso.
Ela não sabia que era eu que viria.
Maldito Matthew!
- Olá, Mia Back.