Thomas me ajudou a passar pelo pior momento da minha vida. Minha mãe tinha acabada de ir embora e eu só tinha sete anos em uma cidade nova, por umas semanas meu pai mentiu para mim dizendo que ela tinha viajado, mais voltava.
E eu inocentemente acreditei, não sei acho que no fundo, no fundo meu pai também acreditava. Até que Letícia despejou que a mamãe tinha ido embora, e eu desabei. Em decorrência eu parei de comer até a mamãe voltar, mamãe dizia que eu era gorda e que ninguém gosta de baleias. Por isso quando alguém olhava para mim eu só imaginava que ela estava pensando o quanto eu estava gorda.
Até que eu conheci o Thomas, no recreio ele me deixou uma cartinha cheia de corações dizendo que gostava de mim. Fui até ele e perguntei "Por que você gosta de mim garoto esquisito?" Ele era mesmo, sempre andava com um pato e uma bota cheia de lama, sempre cheirava a graxa e quase sempre passava o recreio só. Kira nunca tinha reparado nele até aquele momento, Thomas abriu um sorriso tímido infantil e disse que a achava tão linda que parecia uma fada, ou melhor para ele, ela era uma fada.
A menina retribuiu em um sorriso largo e abraçou a carta no peito. Teria então uma pessoa no mundo além de seu pai que a acha linda? Tão linda quanto uma fada. Foi então que aquele garoto franzino entrou na sua vida, mantendo sempre a opinião de que Kira era a mulher mais linda do mundo, Thomas sempre a fez de sentir assim, única.
Hoje ela via que muitos emagreciam apenas para agradar os olhos alheios. Ela agora sabia que as pessoas seriam melhores se simplesmente aceitassem que cada um tem seu jeito, que cada um vive do seu modo? Sem precisar se encaixar em padrão algum? Não estava no seu IMC correto, e não se importava com isso, ela estava no seu estado de espírito correto.
Enquanto dirigia sentiu o cheiro de laranja com limão, foi quando seus olhos pelo vidro da janela viram a fazenda, um campo extenso e arado, verde. Era setembro e estava no auge da primavera,
Seus pensamentos a levaram na primeira vez que viu um pé de maracujá. Lembrou do cheiro e da sensação de arranhar a casca com uma faca tentando cravar meu nome e dele.
Ah a necessidade do seu humano de marcar tudo o que toca!
Mas, ela era muito nova e tinha fome de ser reconhecida. Lembrou de como era uma criança agitada. E quando passou de carro pela árvore se perguntou se ainda matinha seus nomes ali? Seu coração saltou no peito.
Será que ele ainda era o mesmo menino complexo pelo qual ela se apaixonou? Ainda tomava café demais para um adolescente?
Chegou até uma fazenda. Sabia que ali abrigava uma pessoa que ela havia magoado, se não há pessoa que ela mais magoou na vida.
Thomas era seu ex namorado, era agricultou e nas horas vagas mecânico. E como seu pai apaixonado pela roça, sua família era famosa por plantar maracujá, além de ser uma fazenda bastante conhecida em toda Minas Gerais.
Ela parou em frente a uma oficina e um cão latiu, desceu do carro e sua bota logo ficou melada de lama. Ela franziu a testa olhando para baixo enquanto saia do carro. Lembrou de tirar o anel de seus dedos. Como explicar para o ex-noivo que ainda usava o anel que ele li dera? Que não conseguia negar que foi difícil tirar aquele anel. Logo, ela acaba deixando o anel cair na lama. Ela se desesperou, o sol já está indo embora então vai ficando mais difícil de olhar onde está o anel. O cheiro de terra era inconfundível.
O ruivo olhou incrédulo para o carro parado em sua frente e sua ex, bem ali em sua frente. Ele arqueou as costas largas se aproximou dela.
— Eu não acredito! O que você esta fazendo aqui? — Perguntou Thomas se aproximando, todo sujo de graxa.
Kira ficou em silêncio, olhando para ele. A mesma voz grossa e firme, o mesmo jeito de olhar, com aqueles olhos castanhos claros expressivos. Ela soltou meio sorriso ao reparar que as pintas que ele tinha no braço esquerdo ainda estavam ali.
Ele pareceu não acreditar que Kira estava ali em sua frente, linda. Mas do que o normal! O rapaz soube que ela estava na cidade, mas queria manter toda distância possível, dela de sua família. ''Era melhor assim'' Dizia para ele mesmo sempre que pensava em se aproximar em dizer um ''oi''. Era um rapaz grosso, mas de certa forma se magoava fácil.
Kira sabia muito bem disso, afinal conhecendo-se desde dos oito anos você passa a conhecer trejeitos, manias e gostos.
— Ah, oi? Eu vim, é eu vim... — Ela o olhou juntando as mãos, nervosa. 4 anos sem ver o único homem a qual ela disse sim, sem pestanejar, e depois de todo o furacão ela não poderia vê-lo da mesma forma. — Estufou o peito e joga os cabelos loiros, e soube mais o rosto. — Eu vim consertar o meu carro!
Ele balançou a cabeça e soltou uma risada rouca. — O seu eu não tenho a peça, pode ir embora! — Deu de ombros, e dando as costas para ela.
— An? Mas o que? Você nem sabe qual é o problema? — Ela se enfureceu, saiu batendo a porta do carro com olhar furioso. Andando atrás dele, ela andou com dificuldade, pois a lama gruda em suas botas.
Ele continuou andando em silêncio, sem dizer uma palavra. Ela soltou ar pela boca, levando as mãos na cintura.
— Espera, eu vim aqui te pedir desculpas, por magoar você... Ou melhor, perdão. Desculpa por ter deixando seu gato fugir, e por ter dito que sua irmã era uma vaca, por ter dito que você nunca sairia do lugar, e por.... — Ela revira os olhos.
Ele a interrompeu, cético. — O quê? — Houve uma pausa em sua voz, enquanto os dois se olhavam. — Jamais pensei ouvir um pedido de perdão vindo da sua boca. Não depois de você dizer que não faria nada que a fizesse se sentir inferior.
Aquela era a velha Kira, e ela não era mais assim. Porém, pensou consigo mesma não ele não precisava dizer aquilo.
Ela estava sabendo que não era por aquilo que deveria pedir perdão. Por ter ido embora 2 dias antes do casamento, por todas as brigas e palavras despejadas, na verdade os dois deveriam pedir perdão, ela então percebe e olha de lado, entrando na oficia.
— O que? É claro que eu sou capaz de pedir perdão! — A loira esbraveja, afastando os cabelos do rosto, seus brincos se balançaram na orelha. — Ora onde eu tava com a cabeça de vir aqui? — Ela olhou em volta, seus olhos verdes percorreram os lugares. — Esse lugar continua imundo, e fedorento, igual a você! —Puxou o ar, e cruzou os braços levantando as sobrancelhas e saiu andando.
Antes dele despejar umas verdades sobre a loira ele, pensou bem. O que ela estava fazendo ali? Não estava tão próxima, mas mesmo assim ele conseguia sentir o cheiro dela. O perfume dela ainda parecia o mesmo apesar de tanto tempo. O vento balançou o cabelo dela trazendo ainda mais a sua flagrância para ele.
Ele deu um sorriso malicioso. — Não achava tão fedorento quando namorávamos aqui! — Coçou as bochechas. — Olha eu estou bastante ocupado para procê, mas antes de ir avisa pro o seu pai que a encomenda dele tá pronta. — Ele disse com os olhos baixos, olhando para o motor do carro.
Ela parou e andar ao ouvir, se virou devagar, e em tom triste indaga.
— Meu pai? Mas ele morreu ontem pela manhã, você não sabia?
Ele engole-o seco e a tristeza nublou as suas feições, o ruivo calou. Mas logo em seguida se aproximou dela.
— Não. — Ele balançou a cabeça, seu coração doeu, o pai dela era alguém em que ele se espelhava e era muito querido por todos. — Eu sinto muito. Eu sei o quanto isso deve está doendo, perder seu pai assim. — Ele se aproximou com passos tímidos.
Kira se aproximou mais e seus braços envolveriam na cintura dele em um abraçando forte, ela desaba. Lágrimas caem inundando seu rosto, quando suas mãos apertão o pano da camisa dele.
Ela não queria desabafar daquele jeito. Mas seu cérebro não a obedecia enquanto seu coração fora tomando pela emoção da tristeza. Tristeza por ir embora partido o coração dele, tristeza por perder seu pai, por não ter apoiando Letícia e por sempre ter tratado Lídia com certa indiferença. Agora ela estava sozinha...
Mas ali enquanto ele a abraçava e fazia carinho em seu cabelo, mesmo com o cheiro de terra, era só ele e ela. Sua cabeça ouvindo o coração dele, sentiu saudades daqueles braços, parecia estar em casa novamente.
Ela soltou do abraço e limpa as lágrimas. — Me perdoa, eu me descontrolei. —Ajeitou o colarinho da camisa dele.— Bom acho que já vou, o item era perdão, não receber. E você não tem obrigação... Vou pedir desculpas a mais gente com licença. — Ajeita o cabelo.
Ele a olhou de lado, e seus olhos cintilaram. — Tá tudo bem! — Ele abaixa a cabeça. — E que item é esse que você está falando?
Ela lambeu os lábios com eles juntos, e estende a mão dando a ele a carta. Quando ele o olho e começa a ler ele coça os olhos que estão vermelho.
Thomas se prendeu para não chorar em frente a ela. — Essa lista é bem tudo que você faria, não imagino seu pai fazendo nada disso por mais descolado que ele fosse. — Ele deu um riso frouxo apontando para o 'item' 3 'item', que era escalar uma montanha (Ou o muro da minha casa mesmo).
Ela abaixou a cabeça, e juntas as mãos, aquele homem sabia como deixar ela envergonhada. — Bom, eu já vou indo.
Caminhou até o carro, e entrou o encarando. Saiu dali dirigindo com pressa, esquecendo do anel que deixará cair. Ela lembrou, mas o que podia fazer? Voltar pra buscar o anel? O que iria dizer a ele? Enquanto e dirigia, percebeu seus olhos vermelhos pelo espelho do carro. Mas, já estava perto de casa.
Ela bateu sua cabeça contra o volante duas vezes, se dando conta que sentia saudade de tudo aquilo que deixará em minas, Kira sempre se esforçou para mostrar que iria sair dali, e quando finalmente saiu. Algo pareceu certo, mas agora nada estava certo. Ela estacionou o carro em frente à casa do pai.
Letícia a vê pela janela e desse as escadas, andou até o carro com os braços cruzados, ao se aproximar bateu no retrovisor do carro.
— Você pode por favor assinar esse papel! Pare de ser tão insuportável, sabe que preciso desse dinheiro! — Ela bate na porta, Kira a olha assustada para irmã gritando. Letícia não era de fazer cena, inda mais depois que se casou com o prefeito da cidade. Aquilo simplesmente não parecia ela para Kira. — Saí desse carro, aposto que foi tentar fugir de algo importante de novo, era o enterro do nosso pai, custava ficar? — Ela estava descontrolada.
Sabe meu caro leitor, conforme você está crescendo e mudando. Você começará a perceber que não é a mesma pessoa que costumava ser. As coisas que você costumava tolerar agora se tornaram intoleráveis. Onde antes você lutava e discutia, agora você está escolhendo permanecer em silêncio. Você está começando a entender o valor da sua voz e existem algumas situações que não merecem mais seu tempo, energia e foco.
Kira sabia muito bem disso, não era lá a rainha da maturidade. Mas, não adiantava brigar agora, ambas compartilhavam da mesma dor, talvez Letícia não fosse mais tão calada como era antes.
A loira permaneceu em silêncio e balançou a cabeça concordando. Entrou e assinou o papel. Andou pela casa lembrando do pai, e Ao entrar no quintal, lembranças vem em sua mente, enquanto ela sentou no balanço que seu pai havia feito para duas. Seu coração ficou apertado.
Ela chorou se sentindo sonolenta, levantou a cabeça e olhou para a noite e encheu os olhos de estrelas. Sentiu um misto de esperança e saudade e fome.
Subiu para tomar banho, a agua quente não alivia o frio daquela noite, ela pensou em voltar para o Canadá, Minas Gerais já não era mais o seu lugar, seu lar. Talvez nenhum lugar fosse.
Fechou os olhos enquanto deitou na cama fria e não conseguiu conter o choro. O que ela tinha? Se encolheu, sozinha e sentiu uma angústia inexplicável, uma solidão, seu coração bate forte e ela se vira na cama, tentando dormir.
Mas pensamentos como, ''Onde será que seu pai estava agora?'' ''Iria eu ver o Thomas de novo?'' ''Daqui a dois dias, pego o voo e nunca, mas irei vê-lo'' ''Deveria ter comido bolo de limão'' e claro pensamentos de coisas passadas, coisas que sempre veem em nossa mente quando estamos ansiosos e tristes. Depois de lutar com esses pensamentos ela consegue dormir.