Capítulo 53

899 Palavras
Quando a Luz Volta Já havia se passado um mês desde o acidente. Um mês de silêncio, de espera, de orações sussurradas nos corredores frios do hospital. Para quem estava do lado de fora, o tempo parecia cruelmente lento. Para Alicia, ele simplesmente não existia. Tudo era escuro. Pesado. Como se seu corpo estivesse preso a um lugar profundo demais para alcançar a superfície. Às vezes, ela sentia algo — um toque distante, uma voz abafada, um calor familiar. Mas era como tentar ouvir através da água. As palavras chegavam quebradas, sem forma, sem sentido. O silêncio era tão grande que doía. Então, algo mudou. Primeiro, foi o peso. O corpo começou a responder, ainda que lentamente. Um dedo que se movia quase sem querer, uma respiração um pouco mais profunda. Depois, vieram as vozes. Longe, muito longe, mas insistentes. — Alicia… minha filha… — a voz era suave, embargada, cheia de amor. Ela tentou se agarrar àquilo. Aquela voz era importante. Ela sabia disso, mesmo sem lembrar exatamente por quê. Com um esforço imenso, como se estivesse rompendo uma barreira invisível, Alicia tentou abrir os olhos. As pálpebras pesavam como se carregassem o mundo inteiro. Mas ela insistiu. E conseguiu. Dona Natália estava sentada ao lado da cama, segurando a mão da nora como fazia todos os dias. Quando percebeu o mínimo movimento nos olhos de Alicia, o coração quase parou. — Meu Deus… — sussurrou, aproximando-se ainda mais. — Alicia? Os olhos de Alicia se abriram um pouco mais, ainda confusos, ainda perdidos. Mas estavam abertos. Dona Natália levou a mão à boca, as lágrimas caindo sem controle. — Ela acordou… — disse com a voz trêmula. — Ela acordou! Sem perder um segundo, levantou-se e gritou pelo corredor. — Doutor! Enfermeira! Ela está acordando! Em poucos instantes, o quarto foi tomado pela equipe médica. Luzes foram acesas, aparelhos checados, vozes técnicas misturadas à emoção contida. Enquanto isso, Dona Natália pegou o celular com mãos trêmulas e discou um número que já sabia de cor. Alan atendeu quase no primeiro toque. — Mãe? Aconteceu alguma coisa? — a voz dele vinha carregada de medo e esperança ao mesmo tempo. — Meu filho… — ela m*l conseguia falar. — A Alicia… ela está acordando. Por alguns segundos, houve silêncio do outro lado da linha. Alan olhou para Alex, que estava sentado à sua frente, e levou a mão à boca, incrédulo. — Acordando? — repetiu, a voz falhando. — Sim. Os médicos estão examinando ela agora. Alan desligou sem nem perceber direito. Olhou para Alex, os olhos marejados. — Ela tá acordando. Alex ficou de pé num salto. — O quê? — A Alicia… ela acordou. Aquilo foi, sem exagero, a melhor notícia que eles já tinham recebido na vida inteira. O caminho até o hospital pareceu curto demais e longo ao mesmo tempo. O coração de ambos batia acelerado, as mãos tremiam, os pensamentos se atropelavam. Nenhum dos dois dizia uma palavra, como se falar pudesse quebrar aquele momento. Ao chegarem, encontraram a mãe Natália sentada na sala de espera, com o rosto ainda molhado de lágrimas, mas com um sorriso que há semanas não aparecia. Alex foi o primeiro a se aproximar. — Mãe… como ela está? — Os médicos estão examinando ela agora — respondeu Dona Natália, levantando-se. — Mas ela abriu os olhos, Alex. Olhou pra mim. Alan sentiu as pernas fraquejarem. — Ela acordou, mãe? — perguntou, quase num sussurro. — Sim, meu filho. Ela acordou. Os dois se olharam, emocionados, e se abraçaram ali mesmo, sem se importar com quem passava. Minutos depois, o médico apareceu. — Ela despertou do coma, sim — explicou com cautela. — Ainda está confusa, é normal. Vamos fazer alguns testes, mas a resposta inicial é muito positiva. Alan e Alex assentiram, tentando controlar a ansiedade. — Vocês podem vê-la agora — completou o médico. — Mas com calma. Um de cada vez… ou melhor, entrem juntos. Acho que ela vai gostar. Quando a porta do quarto se abriu, o mundo pareceu parar. Alicia estava ali. Acordada. Os olhos ainda estavam um pouco perdidos, mas vivos. O rosto pálido, marcado, mas inegavelmente o mesmo que eles amavam. Quando ela virou o rosto lentamente e os viu, algo dentro dela se acendeu. Os amores da sua vida. As lembranças ainda vinham em fragmentos, mas o sentimento era inteiro. Seguro. Forte. — Alan… — sua voz saiu fraca, quase um sopro. Ele se aproximou da cama como quem tem medo de acordar de um sonho. — Eu tô aqui, meu amor. Você voltou. Alex se aproximou do outro lado, segurando a mão dela com cuidado. — A gente ficou te esperando — disse, com a voz embargada. — Todo dia. Alicia tentou sorrir, e uma lágrima escorreu pelo canto dos olhos. — Eu ouvi vocês… às vezes — murmurou. — Achei que fosse sonho. Dona Natália entrou logo atrás, emocionada, acariciando os cabelos da filha. — Nunca foi sonho, minha filha. A gente nunca saiu daqui. Alicia fechou os olhos por um instante, respirou fundo e, quando os abriu novamente, parecia um pouco mais presente, um pouco mais forte. Ela estava de volta. E naquele quarto de hospital, cercada por amor, esperança e promessas silenciosas, a vida começava novamente — não do mesmo jeito de antes, mas com ainda mais força. Porque algumas pessoas não apenas sobrevivem. Elas renascem.
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