Capítulo 2

1753 Palavras
Mas o que roubou o fôlego de Lyra e a paralisou completamente, foi seu rosto. Seus traços eram elegantes e muito masculinos, com um maxilar bem afiada coberto de uma barba por fazer. Cabelos pretos e bagunçados caiam sobre sua testa suada. Porém, eram seus olhos que capturavam e destruíam. Não eram olhos humanos. Eram de uma cor âmbar e brilhoso, a parte branca completamente escurecida pelo domínio parcial de seu lobo. Aqueles olhos estavam fixos nela. Não havia nenhuma surpresa nele. Não tinha hesitação. Havia apenas uma possessividade tão violenta, tão avassaladora, que Lyra sentiu que suas garras estavam se cravando em sua alma. O ar entre eles pareceu entrar em combustão. O cheiro da chuva e de cedro ficou incrivelmente forte, desorientando os sentidos de Lyra, embriagando, puxando-a na sua direção. Kaelen não disse nada. Seu peito largo subia e descia em respirações pesadas. Suas mãos, grandes e com garras de lobo ainda um pouco estendidas, apertaram as bordas do buraco no chão com força suficiente pra esmigalhar a madeira. Lyra recuou, pressionando as contas contra a parede de pedra, a adaga de prata ainda erguida na sua frente, um escudo inútil contra um deus da guerra. -Fique longe! - ela gritou, a voz rouca, falhando no final. A ameaça soou vazia, até mesmo em seus próprios ouvidos. Os olhos de Kaelen desceram para a lâmina de prata, depois voltaram para o rosto assustado dela. A visão daquela prata perto da pele de sua companheira, a mera possibilidade dela se machucar mesmo que acidentalmente com sua própria arma, pareceu desfazer o último fio de controle do alfa. Ele não usou as escadas. Kaelen simplesmente pulou no espaço pequeno daquele porão, aterrissando com a graça de um grande felino. O espaço, que já era pequeno, se tornou minúsculo com sua grande presença. Lyra atacou, impulsionada pelo pânico cego. Ela ergueu a faca em direção ao peito dele, um golpe desesperado. Kaelen foi mais rápido do que a olhos humana poderiam acompanhar. Sua mão grande e forte disparou pra frente, agarrando o pulso de Lyra antes que a lâmina tocasse sua camisa. Ele não apertou suficiente para quebrar seus ossos pequenos, uma delicadeza espantosa para um homem no meio de uma guerra, mas a força foi suficiente para arrancar um som de dor de sua boca. A adaga caiu no chão de pedra. Com um puxão forte e firme, ele puxou ela, seu corpo frágil foi diretamente jogado no peito largo e duro feito pedra dele. O impacto do contato pele com pele enviou um choque em ambos. Lyra soltou um grito abafado quando as faíscas da conexão de companheiro dos dois queimou através do tecido das suas roupas, fundindo suas auras. Sua loba uivou em submissão ao alfa, traindo os sentidos de autopreservação de Lyra. Kaelen segurou sua cintura com apenas um braço, e a prendeu como se temesse que ela fosse desaparecer. Sua outra mão quente e grande, agarrou a nuca de Lyra e a forçou a inclinar a cabeça para trás, expondo seu pescoço macio para ele. Ele abaixou o rosto, enterrando o nariz no pescoço dela. Lyra sentiu a respiração quente e ofegante dele na sua pele, seus lábios roçando-a. O lobo dentro do homem inalou o cheiro dela longa e profundamente, como se um homem morrendo de sede tivesse encontrado água. Um tremor percorreu o corpo inteiro do alfa supremo. Quando Kaelen levantou a cabeça para olhar os olhos violetas de Lyra, o âmbar brilhante parecia queimar. A fúria de guerra tinha desaparecido de sua expressão, substituída por uma obsessão sombria. -Minha – a palavra saiu como um rosnado grave e possessivo que foi de seu peito e vibrou até os ossos de Lyra. Era uma declaração de posse absoluta. Lyra abriu a boca para protestar, pra lutar, mas as palavras não saíram quando ele a levantou como se ela não pesasse nada. Apoiando a cabeça dela no ombro dele, ela a carregou pra fora do porão. A partir daquela noite, Lyra Vance não pertencia mais a si mesma. Pertencia a aquele lobo que tinha destruído o seu mundo. O frio daquele lugar deveria ter feito ela tremer até os ossos, mas Lyra não sentia a temperatura do ar. A única coisa que sua mente conseguia perceber era o calor que o corpo forte que quase a esmagava estava irradiando. O peito de Kaelen Blackwood era um paredão de músculos rígidos, se movendo com uma respiração constante e profunda que parecia indiferente ao caos ao redor deles. Cada passo barulhento que ele dava na neve suja de fuligem, esmagando os galhos caídos e algumas vezes coisas que faziam Lyra revirar o estômago, coisas que ele não queria nem olhar. Ela estava paralisada. Em estado de choque profundo que parecia que a tinha anestesiado. Seus braços imóveis, pareciam mortos a cada passado que o alfa dava. O braço dele, uma massa de músculos fortes e possessivos, envolviam as pernas de Lyras com a força parecida de uma prensa hidráulica. Ela sentia cada centímetro daquela pressão contra seus joelhos, uma promessa que que qualquer tentativa de fuga ia ser esmagada antes mesmo de começar. O calor que emanava dele atravessava as camadas de roupa dela, marcando sua pele como uma ferroada de abelha que deixava ela tonta, enquanto a outra mão larga dele estava espalmada na lateral de suas costelas, os dedos longos dele afundavam no tecido fino só seu suéter de lã. Onde a pele dele encostava na dele pelos rasgos que tinha na roupa, ondas elétricas invisíveis e insuportáveis disparava pelos seus nervos. Era o elo deles. Aquele maldito e incontestável elo de companheiros. A loba dentro de Lyra, que passou vinte e dois anos escondida, muda e silenciosa, agora rosnava e arranhava sua mente, bêbada pelo cheiro de terra molhada e cedro escuro que exalava da pele daquele homem que a carregava. Alfa, a peste ronronava na sua mente, uma excitação patética de adoração que fazia as entranhas de Lyra se revirar de nojo. Nosso. Forte. Seguro. Seguro? Lyra pensou, a raiva borbulhando no fundo da sua garganta, ela quase gritou revoltada. Ela forçou seus olhos a abrirem, as pálpebras pesadas pelo pó fino. A vila da lua de prata já não existia mais. Onde antes tinha o refeitório comunitário agora só restava as carcaças de vigas queimadas que pareciam cuspir faíscas no céu. O cheiro de carne queimada e sangue fresco era tão forte que a fazia querer vomitar, um gosto metálico que a fez engolir em seco para não vomitar em cima do homem que ainda a carregava. Ele tinha massacrado todos eles. Guerreiros, sentinelas, talvez até o i*****l do alfa Thorne. E agora ele estava me levando. Como um prêmio pela guerra. A p***a de um prêmio. -Feche os olhos, - a voz de Kaelen soou baixa. Não foi um pedido gentil. Foi uma ordem grossa e gutural que disparou diretamente do seu peito, até o rosto de Lyra. Era um tom áspero, igual à violência recente, carregado com uma autoridade que acho que ninguém questionava. Lyra não fechou. A rebeldia e teimosia vindo do terror recente fez seu maxilar travar. Ela tentou virar a cabeça pra longe do pescoço dele, longe daquele cheiro gostoso que não estava fazendo ela raciocinar direito. No exato momento que ela tentou mover o pescoço pra se afastar, os dedos dele que estavam em suas costelas se fecharam. Não o suficiente para quebrar seus ossos, mas foi um aperto firme, possessivo, colocando-a de volta no calor de seu corpo. Um rosnado muito baixo foi ouvido, um que não era possível ser ouvido pelo ouvido humano, mas alto para os sentidos lupinos dela, direto da garganta do alfa. O som atravessou os ossos de Lyra, um aviso claro que se ela tentasse fugir ia ser contida pela força bruta dele. Eles cruzaram as linhas das árvores, deixando as ruinas em chamas para trás. A luz do fogo foi engolida pela escuridão da floresta, e o ar se tornou ainda mais pesado e gelado. Foi então que Lyra viu os monstros. Dezenas deles. Homens e mulheres brutais, vestidos com uniformes táticos escuros, manchados de sangue e de suor, eles esperavam em completo silêncio, disciplinados em uma clareira próxima a uma estrada de terra. Não tinha nenhuma comemoração barulhenta pela vitória, não tinha gritos. Tinha apenas uma eficiência militar que arrepiava. No centro da clareira, tinha uma frota de veículos blindados pretos, grande igual tanques, esperavam com os motores ligados e baixos, cuspindo uma fumaça branca pelo tempo congelante. Quando o som das botas de Kaelen quebrou o silêncio, a clareira inteira reagiu como um só. Os guerreiros da eclipse de sangue se viraram todos ao mesmo tempo. Ao verem o alfa supremo surgir das sombras carregando uma mulher nos braços, não houve choque ou murmúrio. Um por um, eles, assassinos cruéis olharam para baixo, expondo a pele do pescoço em um gesto de submissão absoluta e incontestável a ele. Não havia duvidado respeito deles, pesado como a névoa que se formava ali no chão. Nenhum deles olhou diretamente para Lyra. A aura assassina e territorial que emanava de Kaelen era um escudo letal e invisível para ela. O aviso era silencioso e claro: olhem pra ela, e eu irei arrancar os olhos de vocês. O estômago de Lyra revirou em um desespero. Se antes ela tinha alguma esperança infantil de que os homens deles interviriam, ou que se houvesse confusão que ela poderia escapar, ela morreu ali mesmo, congelada na neve e pisoteada. Ela não estava apenas nas mãos de um invasor, ela estava nas guarras de um deus para aquelas pessoas. Kaelen, caminhou direto para o maior veículo que tinha ali, um SUV blindados com vidros escuros como um abismo. A porta foi aberta de forma agressiva e apressado por um guerreiro que tinha cicatrizes no rosto, ele manteve os olhos fixos no chão. O alfa se abaixou de uma maneira fluida e assustadora pra o tamanho dele e deslizou para o banco traseiro que era bem espaçoso. Ele não me soltou. Ele não me colocou no assento do seu lado. Kaelen se acomodou no banco de couro escuro, esparramando aquelas pernas longas, e me manteve exatamente onde ela estava antes, no colo dele, presa contra seu peito, cercado pelos seus braços e por aquele calor sufocante do seu corpo. A porta foi batida, nos isolando do resto do mundo em um casulo escuro e que cheirava a carro novo, sangue seco e a tempestade elétrica da presença dele.
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