Paula sentiu o peso das palavras de Angel como um golpe, afundando-a ainda mais na espiral de desespero que a envolvia. A irmã mais velha falava com uma calma calculada, como se estivesse analisando friamente uma equação matemática e não a vida da própria irmã.
— Você precisa pensar logicamente, Paula, — Angel disse, cruzando os braços com uma expressão que beirava o desdém. — Isso é sobre salvar nossa família. Não há alternativa.
Mary, que até então permanecia em silêncio, assentiu, concordando com a filha mais velha. Embora estivesse visivelmente tensa, sua postura sugeria que já aceitava a decisão antes mesmo de ouvir a opinião de Paula.
— Querida, todos estamos sofrendo, — Mary disse, sentando-se ao lado de Paula e colocando uma mão reconfortante sobre seu ombro. — Mas, às vezes, precisamos fazer sacrifícios pelo bem de quem amamos.
Paula sentiu-se sufocada. As palavras de sua mãe e irmã pesavam como correntes invisíveis, prendendo-a a uma decisão que não queria tomar. Sua mente estava um turbilhão de pensamentos: medo, indignação, tristeza… mas, acima de tudo, uma profunda mágoa.
— Eu… eu não sei… — Paula balbuciou, a voz trêmula, mas ninguém parecia disposto a aliviar a pressão que recaía sobre ela.
O silêncio que se seguiu foi torturante, apenas quebrado pela respiração pesada de Robert. Ele, que até então parecia o mais quebrado de todos, finalmente levantou a cabeça.
— Paula, eu sei que isso é pedir muito, — ele disse, com o olhar carregado de culpa. — Mas eu já dei minha palavra. Joaquim espera sua aceitação.
Paula virou-se para o pai, os olhos ardendo com lágrimas que ela se recusava a derramar. Sentia-se traída. Como ele poderia sequer considerar entregá-la a um homem que ela nem conhecia?
— Você… você já me vendeu, não é, pai? — ela perguntou, a voz carregada de mágoa.
Robert abaixou o olhar, incapaz de encará-la.
Paula levantou-se abruptamente, afastando-se da mão de Mary em seu ombro.
— Bom, então acho que não tenho outra escolha, — ela disse, a voz amarga. — Não importa o que eu queira, vocês já decidiram por mim.
E sem esperar resposta, ela subiu as escadas em direção ao quarto, batendo a porta atrás de si.
A sala permaneceu em silêncio após a saída de Paula. Robert sentiu o vazio no peito aumentar enquanto as palavras da filha ecoavam em sua mente. Ele havia cruzado uma linha da qual sabia que jamais poderia voltar.
Mary fechou os olhos, soltando um suspiro aliviado, mas sua expressão sugeria que aquele alívio era tão vazio quanto sua tentativa de justificar a decisão. Angel permaneceu imóvel, impassível, embora um leve sorriso de satisfação curvasse nos lábios.
Na manhã seguinte, Robert estava de volta ao escritório de Joaquim. O ambiente luxuoso, com móveis de madeira nobre e o cheiro de couro impregnando o ar, contrastava com a tensão que ele carregava. Sentado diante do homem que agora controlava o destino de sua filha, Robert tentou manter a compostura.
— Paula aceitou, — ele disse, a voz rouca.
Joaquim inclinou-se na cadeira com um sorriso que era ao mesmo tempo triunfante e ameaçador. Ele parecia um predador que acabara de capturar sua presa.
— Excelente, — Joaquim respondeu, servindo-se de uma dose de uísque. Ele ergueu o copo como se brindasse a própria vitória.
Após um gole, ele abriu uma pasta de couro sobre a mesa e retirou um contrato. Deslizando-o na direção de Robert, apontou para as linhas de assinatura.
— Aqui está o acordo, — Joaquim disse, com a voz controlada. — Assim que o casamento for formalizado e assinado por ambas as partes, a dívida estará quitada.
Robert pegou o documento com mãos trêmulas. Seu olhar percorreu rapidamente as páginas, verificando as condições. Quando chegou à última página, seus olhos se estreitaram ao ler uma cláusula em letras pequenas.
— O divórcio não pode ocorrer antes de um ano? — ele perguntou, franzindo a testa.
Joaquim encostou-se na cadeira, os dedos tamborilando no braço de couro.
— Exatamente, — ele disse, com um sorriso irônico. — É apenas uma medida para garantir que o casamento seja levado a sério.
Robert queria protestar, mas sabia que qualquer tentativa seria inútil. Joaquim estava no controle da situação, e ele não tinha escolha senão ceder.
— Compreendo, — Robert respondeu, resignado.
Pegando a caneta que Joaquim ofereceu, ele assinou o contrato. Cada traço da assinatura parecia um golpe de martelo selando seu destino e o de Paula.
Joaquim, satisfeito, pegou o contrato e inspecionou as assinaturas com cuidado antes de guardá-lo novamente na pasta.
— Ótimo, — ele disse, o tom de voz cheio de uma satisfação quase c***l. — A única coisa que falta agora é a assinatura de Paula. Ela fará isso durante o jantar de noivado.
— Jantar de noivado? — Robert perguntou, surpreso.
Joaquim levantou-se, ajustando os punhos da camisa com a calma de um homem que tinha tudo sob controle.
— Sim. Hoje à noite, na minha casa. Prepare Paula para o que está por vir.
Robert assentiu lentamente, sentindo o nó em sua garganta apertar ainda mais.
— Entendido.
Joaquim acompanhou Robert até a porta do escritório, um leve sorriso ainda curvando seus lábios.
— Estou ansioso para o jantar, — ele disse, com um tom que enviava calafrios pela espinha de Robert.
Robert não respondeu. Apenas saiu do escritório de Joaquim, com as mãos tremendo e o coração pesado.
Enquanto Joaquim observava a porta se fechar, seus olhos brilharam com um misto de vitória e expectativa. Para ele, aquilo era mais do que um acordo. Era o início de algo muito maior — e ele tinha todas as intenções de controlar cada detalhe.