Capítulo 28 Hellen narrando Fui empurrada para dentro do carro como quem é jogada no abismo — sem chão, sem escolha, sem tempo de respirar. O couro quente do banco queimava minhas pernas e o cheiro de gasolina misturado a sangue seco grudava nas minhas narinas como uma memória que não queria me abandonar. A porta bateu com força. Quando levantei os olhos, dei de cara com ele. Fumaça. — Qual parte você não entendeu quando eu disse não arruma confusão, doutora? — ele perguntou, sem me olhar, os dedos apertando o volante, dirigindo a mil, como se fugir do mundo dependesse da velocidade. A cidade passava em borrões pela janela. Eu encostei a cabeça no vidro, sentindo o coração bater na garganta, mas a raiva ainda era mais forte que o medo. — Eu disse pra você que não ia mais engolir nada

