A noite havia caído sobre as montanhas.
O vento soprava entre as rochas, fazendo um som baixo que ecoava ao redor da caverna de Góvia. A fogueira queimava devagar, iluminando as paredes de pedra com sombras tremeluzentes.
Góvia estava sentada perto do fogão de pedra que Dargan havia construído para ela.
Dentro de uma pequena panela improvisada, algumas ervas ferviam lentamente na água. O cheiro era forte, quase amargo, mas ela sabia que aquelas plantas tinham propriedades importantes.
Seu conhecimento de química e plantas medicinais ainda era sua maior vantagem naquele novo mundo.
Do outro lado da fogueira, Dargan estava sentado em silêncio.
Ele afiava sua lâmina de caça com movimentos lentos e precisos. O brilho da pedra de afiar refletia a luz do fogo.
Nenhum dos dois falava.
Mas o silêncio já não era hostil como antes.
Era… tolerável.
De repente, algo estranho aconteceu.
Uma luz azul suave surgiu diante dos olhos de Góvia.
Não era uma luz real.
Parecia mais uma imagem que apenas ela podia ver.
Palavras apareceram no ar por um breve instante.
Ela arregalou os olhos.
Outra vez…
Desde que acordara naquele corpo, aquele estranho “sistema” surgia ocasionalmente diante de sua visão.
Mensagens silenciosas.
Tarefas.
Recompensas.
Mas ninguém mais parecia notar.
Dargan continuava afiando sua faca como se nada tivesse acontecido.
As letras desapareceram rapidamente.
Mas Góvia já havia entendido.
Uma nova tarefa.
Algo relacionado a uma planta rara que crescia perto do rio da floresta.
Ela manteve o rosto neutro.
Não podia revelar aquilo para ninguém.
Nem mesmo para Dargan.
Em vez disso, mexeu calmamente as ervas na panela.
— Está com fome? — perguntou de repente.
Dargan levantou os olhos.
— Sempre.
Ela colocou mais lenha no fogo.
— Então amanhã você vai precisar caçar algo maior.
Dargan levantou uma sobrancelha.
— E por quê?
Góvia deu um pequeno sorriso.
— Porque amanhã…
— Eu vou sair para a floresta.
Dargan a observou por alguns segundos.
Como se tentasse entender o que estava passando pela cabeça daquela ogra tão diferente da que ele conhecia.
Mas no fim, apenas voltou a afiar sua lâmina.
— Não se perca.
Góvia olhou para o fogo.
E pensou silenciosamente:
Eu preciso encontrar aquela planta.
Se quero sobreviver neste corpo…
preciso continuar ficando mais forte.