O sol já se punha atrás das montanhas, tingindo o céu de tons laranja e dourado, quando Kael e Dargan finalmente avistaram o contorno da caverna de Góvia.
Os pacotes de sementes estavam amarrados firmemente em suas mochilas. Cada saco continha um pequeno tesouro: trigo, arroz, cebolas, tomates e agrião. Para qualquer agricultor, eram simples produtos; para Góvia, eram o início de uma revolução na montanha.
Kael respirou fundo e comentou, enquanto descia o último trecho da trilha:
— Espero que ela saiba usar isso direito…
Dargan apenas bufou, encarando o céu:
— Se ela souber ou não, a responsabilidade agora é dela. Nós só trouxemos as sementes.
Ao chegarem à entrada da caverna, Góvia já estava esperando, em pé, próxima da pia alta, observando o fluxo da água da cachoeira. O brilho no rosto dela mostrava a satisfação de ver suas ideias ganhando forma.
— Finalmente! — exclamou ela, estendendo a mão para receber os pacotes. — Trigo, arroz, cebolas… Muito bom.
Kael começou a colocar os sacos no chão, enquanto Dargan distribuía os pacotes menores.
— Agora temos o que precisamos. — disse Góvia, observando cada saco. — Mas não vamos parar apenas nisso. Quero planejar tudo com cuidado.
Ela pegou um graveto e começou a desenhar na terra diante deles, como já fazia antes.
— O trigo será plantado aqui, ao lado do vale que Rhogar limpou. — apontou para o terreno fértil. — O arroz precisa de mais água, então vamos plantar perto do canal da cachoeira. As cebolas, tomates e agrião ficarão juntos, para facilitar o cuidado e a colheita.
Dargan franziu a testa, mas ficou impressionado com a organização dela.
— E você acha que vai conseguir cuidar de tudo isso sozinha?
Góvia sorriu levemente, confiante.
— Não sozinha.
— Vocês vão me ajudar.
— Mas… desta vez, cada um vai ter responsabilidades.
Kael arregalou os olhos.
— Responsabilidades?
— Sim. Dargan, você continua trazendo caça. — Góvia apontou para ele. — Mas também vai preparar o terreno para a plantação de arroz.
— Eu? — resmungou Dargan, mas acatou.
— Kael, você vai me ajudar com a irrigação, garantindo que a água da cachoeira alcance o arroz e o agrião.
— E Rhogar? — perguntou Kael, apontando para o dragão de pedra.
— Rhogar ficará com o vale de trigo, cuidando da terra e preparando o solo. Ele tem força suficiente para mover as pedras maiores, então aproveitaremos isso.
Enquanto os três discutiam os detalhes, Góvia sorriu olhando para a pia alta, a água cristalina escorrendo suavemente.
— Nunca mais vou me ajoelhar para lavar uma panela. Isso é só o começo.
Ela olhou para a montanha que começava a se transformar diante de seus olhos. E por mais que estivesse cansada, um sentimento de realização e poder crescia dentro dela.
No horizonte, no entanto, nas sombras da cidade, Seraphyne observava tudo. Seus olhos brilhavam de inveja e ambição.
— Aquela ogra… está mudando.
— E cada mudança aproxima mais os meus objetivos — murmurou, apertando os punhos.
Góvia ainda não sabia, mas a verdadeira batalha pelo controle de sua vida, de seus maridos e de sua montanha estava apenas começando. 🌾🐉🔥