NARRAÇÃO: MARIANA LACERDA Mercedes abriu as portas duplas de madeira maciça com uma reverência que parecia mais um ensaio fúnebre do que um gesto de hospitalidade. Eu parei no batente, sentindo o ar fugir dos meus pulmões e uma náusea seca subir pela garganta. O quarto não era um quarto; era um insulto acintoso à realidade em que eu vivia até duas horas atrás. O pé-direito era altíssimo, com molduras de gesso trabalhadas à mão que emolduravam um lustre de cristal moderno, cujas lâminas de luz fria pareciam flutuar sobre a cama king-size como guilhotinas luminosas. Meus pés, ainda sujos da areia grossa daquela praia e do asfalto rachado do meu bairro, afundaram em um tapete tão macio e espesso que parecia uma nuvem cinza-chumbo, feita para abafar o som de qualquer protesto. A decoração er

