PONTO DE VISTA: MARIANA LACERDA
O maxilar do policial endureceu de uma forma que eu quase pude ouvir o som do osso rangendo sob a pele tensa. A veia em seu pescoço pulsava como uma serpente sob pressão, mas, num esforço hercúleo de controle que me causou mais calafrios do que seus gritos, o tom de sua voz voltou a ficar perigosamente suave. Era uma suavidade doentia, a calma de um predador que sabe que a presa não tem para onde correr.
— Bia… — ele disse, a voz aveludada, ignorando minha existência por completo, como se eu fosse um inseto incômodo que ele esmagaria mais tarde. — Eu só quero conversar, meu amor. Você me conhece. Eu perdi a cabeça, eu sei. Mas eu só quero conversar. Vem. Cinco minutos. Dentro do carro. A gente resolve isso como adultos, sem esse espetáculo todo no meio da rua.
Beatriz tremia tanto atrás de mim que eu sentia as vibrações do seu pavor atravessarem minhas próprias costas. O ar entre nós três parecia eletrificado, carregado com o ozônio que precede um desastre.
— Eu não tenho nada pra resolver com você, Ricardo. Nada! — a voz dela saiu pequena, mas com uma nota de finalidade que o fez estacar.
Ele deu um passo à frente, invadindo nosso espaço vital com a força de um tanque de guerra. O cheiro de farda engomada e metal frio emanava dele.
— Você ainda é minha esposa — ele sibilou, a suavidade começando a trincar.
— Ex — ela corrigiu. Foi uma palavra curta, seca, mas firme o suficiente para fazer o sorriso cínico dele sumir instantaneamente.
O que se seguiu foi um borrão de movimento bruto. Num movimento rápido, quase imperceptível para quem não estivesse esperando, Ricardo levantou o antebraço e me empurrou para o lado com uma força desdenhosa. Não foi um empurrão para me derrubar no chão, mas foi um golpe calculado para deixar claro que, para ele, eu não passava de um obstáculo físico irrelevante. Eu cambaleei para o lado, o pé falhando por um segundo no asfalto irregular.
— Sai da frente, garota — ele rosnou, a máscara de "marido arrependido" caindo para revelar o monstro por baixo.
Antes que eu pudesse sequer recuperar o equilíbrio ou processar o insulto, ele avançou e agarrou o braço de Beatriz. Não foi um toque. Foi uma captura. Os dedos dele se fecharam em torno do pulso dela como algemas de carne e osso. Forte. Forte demais. Eu vi a pele dela empalidecer sob a pressão e ouvi o gemido baixo e sufocado que escapou dos lábios dela.
Alguma coisa dentro de mim, algo que eu vinha guardando desde as noites em que ouvia meu pai quebrar as coisas em casa, simplesmente quebrou. A teoria do Direito, o Código Penal, o medo da farda... tudo sumiu diante da visão daquele agressor machucando minha amiga.
Eu avancei sem pensar, o corpo agindo por puro instinto de sobrevivência e fúria. Coloquei as duas mãos no peito dele, contra o tecido rígido da farda, e empurrei com toda a força que minha indignação podia gerar.
— LARGA ELA AGORA! — meu grito rasgou a quietude da rua, atraindo os primeiros olhares dos pedestres distantes.
Ricardo cambaleou meio passo para trás. Ele não caiu, nem se machucou; ele ficou mais surpreso com a minha audácia do que propriamente afetado pelo impacto. Mas o efeito nos olhos dele foi imediato. O azul claro de suas íris escureceu de vez, tornando-se duas poças de piche tóxico. Não tinha mais sorriso. Não tinha mais fingimento. Só uma promessa de destruição.
— Você enlouqueceu, sua pirralha? — ele rosnou, a voz saindo das profundezas do peito, um som animal.
— Você não encosta nela! Nem mais um dedo! — eu respondi, plantando meus pés no chão, mesmo que minhas pernas estivessem prontas para ceder.
Ele me encarou em silêncio por alguns segundos que pareceram horas. Ele estava me avaliando, pesando minha altura contra a dele, minha falta de armas contra o seu arsenal, calculando exatamente quanto esforço seria necessário para me esmagar como uma barata sob sua bota.
— Você está interferindo numa situação conjugal, Mariana. Isso é assunto de família. Saia enquanto ainda pode andar — ele falou, a mão ainda apertando o braço da Bia, que agora chorava baixinho.
Eu ri. Foi uma risada histérica, amarga, alimentada pelo ódio puro que eu sentia por homens como ele.
— Situação conjugal é diálogo, Ricardo. Isso que você está fazendo é agressão física. É crime. É Maria da Penha. E eu sou testemunha.
Ele apertou o braço de Beatriz de novo. De propósito. Só para ver a reação dela, só para me mostrar que ele tinha o controle da dor dela. Bia soltou um choramingo de dor que foi o estopim final. Eu puxei o ombro dela para trás com uma força violenta, fazendo com que ele perdesse a pegada por um segundo devido à surpresa do movimento.
— Solta ela agora ou eu juro que—
— Você jura o quê? — ele cortou, avançando e ficando a milímetros do meu rosto.
Ficamos cara a cara. A adrenalina fazia meus ouvidos zumbirem. Ele era muito maior. Mais pesado. Vestia a farda, portava a arma na cintura, o distintivo brilhando no peito como um escudo de impunidade. Mas eu não recuei um milímetro. Se ele quisesse passar por cima dela, teria que me quebrar primeiro.
— Você acha que pode brincar de heroína de livro de Direito? — ele falou baixo, o hálito quente cheirando a café e fúria. — Eu posso complicar sua vida de um jeito que você nem imagina. Posso fazer sua faculdade ser o menor dos seus problemas.
— Tenta — eu desafiei, as palavras saindo por entre dentes cerrados. — Tenta e eu garanto que o vídeo de você agredindo uma civil vai parar na Corregedoria antes de você chegar no batalhão.
Ricardo deu um sorriso curto, desprovido de qualquer alegria. Um sorriso c***l.
— As duas. Vêm comigo agora.
Foi uma ordem. Não foi um convite, nem uma intimação educada. Foi o tom de quem manda e não espera contestação. Ele se virou, esticou o braço e abriu a porta traseira da viatura com um puxão seco e metálico que ecoou na rua deserta.
— Entra. As duas. Agora.
Beatriz estava em estado de choque catatônico. Eu senti meu coração disparar, batendo contra as costelas como um pássaro engaiolado. Minha mente jurídica gritava: Prisão arbitrária! Abuso de autoridade!
— Com base em quê? — perguntei, minha voz saindo fria, tentando esconder o tremor nas mãos. — Onde está o flagrante?
Ele virou para mim, os olhos injetados.
— Desobediência. Perturbação da ordem. Resistência à ação policial. Escolha um, Mariana. Eu tenho o dia todo para escrever o relatório.
Eu quase ri da audácia. Era o manual do policial abusivo sendo lido em voz alta.
— Resistência a quê? A ser sequestrada por você? Você não está em serviço de ocorrência, Ricardo. Você está usando patrimônio público para perseguir sua ex-mulher.
Os olhos dele brilharam com um perigo letal.
— Cuidado com o que você diz.
— Não. Você que tenha cuidado. O mundo está mudando, Ricardo. Homens como você não se escondem mais atrás do distintivo tão fácil.
Ele deu um passo brusco na minha direção e, antes que eu pudesse desviar, segurou meu braço com uma força brutal. Agora era comigo. A pressão dos dedos dele nos meus músculos doeu instantaneamente, enviando ondas de dor pelo meu braço.
— Eu posso te levar agora por desacato. Você quer ir algemada ou por vontade própria?
— Então faz direito! — eu retruquei, puxando o braço com uma violência que fez a pele arder, mas eu consegui me soltar. — Me dá voz de prisão formal! Diz o motivo no rádio! Aciona a central e pede apoio! Faz tudo protocolado, Ricardo! Vamos ver se a central autoriza você prender duas mulheres sem crime nenhum na porta de casa!