ANANDA GURGEL
Eu não posso ir até o túmulo de Nataniel, não posso levar flores pra ele ou ser amiga da garota que o fez sofrer. Não posso.
Desligo o chuveiro e deixo o banheiro, me arrumo em poucos minutos e desço para a cozinha. Corto frutas e faço torradas com ovos mexidos, preparo o café e arrumo a mesa. Espero por vinte minutos até ter certeza de que ela não vai descer. Tomo meu café e preparo uma bandeja para deixar em seu quarto, abro a porta com cuidado e não me surpreendo ao encontrá-la dormindo abraçada a foto de Nataniel, levo a bandeja de volta para a cozinha e decido ir para a lojinha hoje. Jogo o café da xícara fora e coloco as frutas na geladeira, coloco as torradas no micro-ondas e como o que não se dá pra guardar.
Pego minha bolsa e passo a chave na porta.
— Como está sua mãe, menina? — Ponho a mão no coração e dramatizo o susto. Quando viro e encaro Dona Augustinha, nossa vizinha e a fofoqueira número um de Duma meu rosto contorce em uma careta.
— A senhora quase me mata. — Falo, arrancando o elástico do meu punho e o envolvendo no cabelo. A mulher semicerra os olhos e os desce pelo meu corpo. Fico tensa, sentindo sua avaliação vibrar em cada osso.
— Você está magra como um alfinete, anda trabalhando demais. — Estala a língua, balançando a cabeça.
Olho de um lado a outro.
— Este é o meu peso de sempre, não perdi nenhuma grama, juro para a senhora.
Na verdade, eu estava mentindo. Perdi quase 5 quilos no último mês.
Balança a mão no ar, indicando que não acredita em mim.
— Pare de enrolar e diga o estado da minha comadre.— Fala e acabo gemendo em desgosto. Por que ela precisa ficar lembrando que é minha madrinha?
— Ela ainda se recusa a seguir em frente, mas, pelo menos, voltou a comer. Aliás, a senhora pode dar uma passadinha mais tarde e checar se ela comeu?
— Claro, menina. Pode contar comigo. — Fala, colocando sua mão esquerda sobre o peito e acariciando meu ombro com a outra.— Olho para trás, para a janela do quarto de mamãe e depois de volta para a mulher e pondero minha decisão. Não sei se Dona Augustinha é a pessoa mais indicada para se pedir um favor, mas ela sempre teve uma boa relação com minha mãe e sua preocupação é verdadeira. — Não se preocupe, Alana. Ficarei feliz em ajudar. — Vejo verdade em seus olhos e lembranças de anos atrás surgem na minha mente, memórias de quando a mulher perdeu o marido, seu companheiro de longos anos em um acidente de pesca.
— Obrigada. —Sem perceber a estou abraçando, apertando seu corpo cheio contra o meu.
Ela ri baixinho e massageia meu couro cabeludo com a ponta dos dedos. Beijo sua bochecha rosada e sigo meu caminho.
(...)
De longe visualizo os cabelos negros balançarem com o vento, a ventania forte bagunça os fios espessos e faz minha sócia gritar para o nada. Com um sorriso repuxando nos meus lábios chego nas pontas dos pés e a pego de surpresa, fazendo ela gritar tão alto que seu irmão gêmeo vem correndo ao seu encontro.
— Que d***a, Alana! Você sabe que sou cardíaca. — Dramatiza, procurando um lugar pra sentar enquanto tenta controlar seu coração. — Desgrama encapetada, tu ainda me paga, espere e veja. — Me ameaça e caio na gargalhada. Darlãn me acompanha e ganha um olhar afiado da irmã.
— O quê? Foi engraçado. — Ele se explica e ela rosna, oferecendo o dedo do meio para nós dois.
— Pensei que tiraria o dia de folga hoje. — Darlene comenta após acabar sua dramatização, me seguindo para dentro da nossa loja.
— Você me conhece, não consigo ficar longe do trabalho. — Isso não era totalmente mentira, mas não foi o motivo e ela sabe disso.
— Certo. Como está o seu humor ? — Arqueio a sobrancelha, prevendo que vem tiro de chumbo pela frente.
— Fala. — Digo e ela se serve um pouco de água.
— Toma, você vai precisar. — Me oferece o copo. Arqueio a sobrancelha quando ela adiciona duas colheradas de açúcar.
— Darlene, o que aconteceu?
— O cão comprou a loja do seu Manel e vai ser nossa vizinha.— Darlãn chega falando e é xingado pela irmã.
— Larga a mão de ser metido, moleque. Falei que quem daria a notícia seria eu. — Reclama, bebendo a água que me oferecia.
— Eu deixei a pior parte pra você, bonitinha. — O moreno fala, piscando para mim enquanto bagunça os cachos da irmã.
Meu corpo fica tenso.
— Pior parte?— Questiono, sentando na primeira cadeira vazia que vejo.
— A loja também é de moda praia, ela será nossa concorrente direta. — Darlãn volta a tomar a frente na fala da irmã e ela joga o restinho de água nele.
— Volta pro útero, troço insuportável. — Começam a discutir e vejo tudo vermelho na minha frente, primeiro ela vai até minha casa e fica espionando minha mãe, depois abre uma loja do lado da minha e ainda copia minha ideia.
Ah, não.
— Ei, onde você vai? — A dupla de irmãos gritam juntos, mas não paro. Meu objetivo e foi traçado e só paro quando aquelazinha sair de uma vez por todas da minha vida.
Abro a porta com certa grosseria e não vejo a parede de músculos na minha frente, caindo de b***a no chão. Que diabos.
—Eita.— Ouço a voz de Darlene atrás de mim e a olho esperando alguma ajuda, mas seus olhos estão vidrados em quem me derrubou que nem me enxerga aqui no chão.
— Sinto muito. — Olho para a mão masculina estirada e sigo o percurso do braço até chegar ao rosto. Minha respiração falha, meus lábios tremulam, mas nenhuma palavra sai.