A Verdade Sobre Júlia e Bernardo

1145 Palavras
Gastón se virou e me viu ali parada diante dele. Pude notar a sua cara de espanto. - Gastón, aquilo era d***a? - Quê? Do que você está falando? - Perguntou se fazendo de desentendido. - Eu vi… Aquilo era d***a, sim. - Sem perceber, acabei alterando o meu tom de voz. - Fala baixo, Mar. Vamos pra outro lugar. Eu não conseguia acreditar que Gastón realmente vendia drogas, por quê? Se ele fosse pego estaria ferrado, e sinceramente, se ele queria acabar com a vida dele, um tiro seria bem mais eficiente. Gastón e eu fomos até o abrigo, adentramos o local e nos dirigimos para o quarto dos garotos. - Por que você vende drogas? Está maluco? Quer ser preso? Quer acabar com a sua vida? - Não Mar, eu não tenho nada a ver com isso, você não está entendendo. Eu não faço isso porque quero. - Falou o loiro. - Como assim? - Perguntei. - Eu vi… - Sim, eu sei o que você viu. Mas não é como você está pensando. Ah, d***a! - Ficou uns segundos em silêncio. - Mar, eu sou obrigado a fazer isso. - Obrigado? - Perguntei sem entender nada. - Por quem? - Pela Júlia e pelo Bernardo. - Ele disse. - Quê? Mas… Eles obrigam você a vender drogas pra eles? - Perguntei confusa. - Não só eu, mas o Tato, a Euge e o Nano também. Também somos obrigados a roubar pra eles, Mar, inclusive, a Lupita e o Matteo, que são pequenos. Quê? Não, eu não podia crer, mas como? Como eles podiam fazer isso? Como alguém podia ser tão c***l assim? Obrigar crianças e jovens a roubar e a entregar drogas? Isso é muita loucura. E a Lupita tinha só 7 anos e o Matteo 8, eram só crianças, eles deviam estar brincando e estudando, e não roubando pra dois filhos da p**a s*******o. Ai, que raiva! - E o Nico sabe disso? - Perguntei. - Claro que não, né? Ninguém sabe, Mar. E nem podem. - Gastón disse. - Mas temos que contar, precisamos denunciar esses infelizes, eles não podem fazer isso. - Ah, Mar, em que mundo você vive? Nós não temos voz, ou em quem você acha que eles vão acreditar? Na gente que não vai ser, né? Eu estou só esperando completar 18 anos pra pegar a minha irmã e ir embora daqui. - Falou se referindo a Lupita. Eu não estava conseguindo acreditar no que o garoto estava me contando, e… ai, que raiva! Eu queria sair daquele quarto e ir correndo contar pro Nico, ele parecia ser boa gente, e aposto que daria um basta nisso, duvido que ele permitiria tais absurdos, quer dizer, eu não o conhecia há tanto tempo para ter certeza disso, mas ele parecia um homem direito e íntegro, e deu pra perceber que todos gostam dele, o Matteo falou que Nico era tipo um pai pra eles, achei fofo ele falando isso. E… ah, se eu pudesse fazer algo… Aqueles dois que não inventem de mexer comigo, eu me n**o a roubar ou fazer o que for para aqueles dois. (...) Euge, Tato, Gastón, Nano, Lupita, Matteo e eu estávamos no sótão do abrigo, juntamente de Bernardo e Júlia. - Mar, hoje você vai aprender a tática de pegar emprestado, claro, sem ser preciso devolver depois, que não é o mesmo que… - Se aproximou de Lupita. - Roubar. - Completou a garota. - Porque nós somos bons, e isso é r**m. E você precisa saber que o principal segredo é… - Se aproximou de Nano. - A tática e a estratégia. - Falou o menino. - E para que tudo saia perfeito, devemos preparar… - Se aproximou de Tato. - Uma boa cena. - Completou. - Perfeito! Essa aula está cada vez melhor. - Disse Bernardo. - Bom, vamos à prática. (...) Bernardo e Júlia me levaram para uma rua, um pouco afastada do abrigo, e ficamos escondidos, eles não queriam levantar suspeita. De longe, eu avistei, a pequena Lupita se aproximando de uma moça que estava sentada à mesa em uma lancheria, a criança conversou algo com a mulher, enquanto Nano discretamente, roubava a carteira, que estava em cima da mesa. O garoto colocou o objeto no bolso de sua calça e saiu sem que ninguém o visse. Logo, Lupita se despediu da mulher, e foi para o lado oposto ao do garoto. Eu não conseguia crer naquilo que os meus olhos estavam vendo. Quando Gastón me contou, eu torci tanto para ser mentira, antes fosse. - Agora vá lá, e mostre que aprendeu a lição. - Falou Júlia. Olhei para a megera com fúria, e fui até um rapaz, que estava passeando com o seu cachorrinho. Me aproximei dele e pedi uma informação sobre uma rua qualquer, e assim que o homem se distraiu, me dando a tal informação, eu peguei levemente a sua carteira, que estava no bolso traseiro de sua calça. Coloquei o objeto por dentro da minha calça, por trás, para ele não ver. - Entendeu onde é essa rua? - Ele perguntou. - Ah, entendi, sim. Muito obrigada. - De nada. - Sorriu. Fui na direção que o homem havia me dito, para ele não suspeitar de nada, e assim que ele saiu do meu campo de visão, eu fui até onde estavam Bernardo e Júlia. - Tá aqui essa m***a. - Joguei a carteira com raiva no chão. - Tá maluca? - Júlia me puxou pelo cabelo. - Não jogamos esse tipo de pertence dessa forma. Junta! - Não. - Falei com tamanha raiva. - Eu mandei você juntar. - Puxou o meu cabelo com mais força, fazendo a minha cabeça ir quase até o chão. Estava doendo muito, eu não queria ter que obedecê-la, mas doía demais. Então, com muito ódio, eu juntei aquela porcaria e entreguei na mão de Bernardo, que estava esticada esperando pelo objeto roubado. Júlia me soltou, e eu me aproximei de Eugênia, que estava no local e havia visto tudo. A garota me puxou levemente pelo braço, fazendo eu me aproximar mais dela e me abraçou, enquanto eu chorava de dor. - Por hoje é só, meus pequenos querubins. - O homem disse com um enorme sorriso. - Estão dispensados. Amanhã nos vemos novamente. Ele e Júlia saíram, indo em direção ao abrigo. - Por que eles fazem isso? - Perguntei. - Porque são cruéis e nos odeiam. - Disse Nano. - É… Se prepara, Mar, isso é só o começo. - Falou Tato. Por quê? Não era justo. Eu não queria roubar. Eu não era uma criminosa. Eu nunca tinha roubado nada. Pô, eu já tinha até morado nas ruas (quando fugia dos abrigos), passava m*l de tanta fome, e mesmo assim não roubava um pão sequer, eu não queria ter que fazer isso.
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