Eu sentia como se meu coração fosse estourar meu peito, como um xenomorfo da franquia Alien. Ele estava acelerado, batendo tão rápido que eu achava que um médico não poderia medir tal velocidade. Depois do que aconteceu naquela vila, quando Nathanael e Aaron Van Helsing, com ajuda de algumas outras pessoas cujo nome eu não lembrava-me, tiraram o coração dela e a jogaram em um coma mágico do qual era impossível acordá-la, eu nunca imaginei que a veria outra vez – exceto, talvez, em sonho ou ilusão, como a criada por Reymocell.
No entanto, ali estava ela. Seu rosto estava mais pálido, mas não parecia mais magro. Seus cabelos estavam tão castanhos como sempre. Suas curvas eram as mesmas, como se o fato de estar deitada há seis meses não afetassem seus músculos de maneira alguma. Elena estava coberta por um lençol fino de seda; ambas as mãos estavam sobre a barriga, direita sobre a esquerda.
O homem que estava sentado na cadeira ao seu lado cessou a leitura de um livro cujas palavras eram desconhecidas, em uma estranha língua que eu nunca tinha ouvido antes. Entretanto, reconheci uma palavra que Lael tinha pronunciado quando lia as palavras gravadas nas pedras redondas. Perguntei-me se aquele homem não falava Urshistaniano, afinal, aquele lugar estava em ruínas do ancestral reino do Urshistan, ou pelo menos, uma reconstrução delas.
Então, levantou a cabeça para me encarar. Sua pele era mulata, com olhos intensos e amarelos, capazes de ler o mais profundo segredo de uma alma, viva ou morta. Ele sorriu, mostrando dentes cerrados em “v”; seu nariz era pequeno, quase inexistente, tendo em seu lugar apenas dois buracos semiverticais que se abriam e fechavam quando ele respirava. Seus cabelos eram extremamente pretos, chegando até mesmo a serem foscos.
– Você deve ser Leonard Ross. – Ele disse; sua voz era suave, como a de um cantor. – O Senhor disse que você viria.
– O Criador? – Eu perguntei retoricamente depois de olhar para Týr por um segundo; eu sabia muito bem qual era a resposta.
– O próprio. Chamo-me Sa’drik Danass, gêmeo de Misha Danass, e uma das duas almas de Urshistan a viver no Paraíso. Estou aqui a mais tempo do que quase todas as almas, quer dizer, depois de sair da Mansão dos Mortos cerca de dois mil anos atrás.
Quando a Morte perdeu a chave do Reino dos Mortos para o Criador – e que era o motivo de tudo que havia acontecido comigo, com os escolhidos e com toda aquela guerra que acontecia ao nosso redor.
– O que você está fazendo aqui?
– Eu sou escolhi viver aqui, no lugar mais parecido com meu antigo lar, assim como meu irmão. Entretanto, o Criador pediu-me para cuidar dela. – Apontou para Elena. – Inclusive, contou-me toda história de vocês, incluindo após sua morte e seu acordo que te colocou no Paraíso. – Assim que ele falou, eu percebi que tudo que havia acontecido não estava fora do conhecimento dEle; talvez, a Morte não o tinha enganado como eu imaginei durante o Julgamento. – E Ele fez algo que nunca imaginei que ele faria: conectou o Paraíso ao Inferno, mas apenas nesse quarto.
Eu pensei na Batalha dos Heartless que aconteceu há apenas uma semana e alguns dias. Uma conexão do Paraíso com o Inferno era mais comum do que ele imaginava; ao mesmo tempo, pensei nas palavras exatas dele: o Criador havia feito aquela conexão, e não os demônios.
– Ele também me deu isso.
Sa’drik caminhou até uma prateleira, onde havia alguns livros de capas escuras, mas sem o título na lombada. Pegou o que estava no meio, em cor de vinho intenso. Abriu-o e tirou de dentro dele um pequeno frasco redondo em volume e com o bico de saída mínimo, quase como um conta-gotas. Transparente, o líquido dava a cor dourada para o frasco. Não vi qualquer rótulo, frente ou verso.
– Neste pequeno frasco está a mais poderosa substância de todo universo, de qualquer um dos mundos, até mesmo os esquecidos. – Notei que Sa’drik tinha um gosto pelo dramático. – Uma Gota da Criação, um resquício do momento exato em que os Três surgiram neste universo. Não existe qualquer registro disso em qualquer lugar, ou seja, nem mesmo os serafins, que estão mais próximos do Criador do que qualquer outro ser, sabe. Nós dois somos extremamente abençoados com tal confiança, Leonard Ross. – O jeito como ele falou meu nome arrepiou minha espinha. – E Týr, a fada, é claro. – Senti minha companheira tremendo em meu bolso; as palavras de Lael e Abraão vieram a minha mente: o Criador sabe de minha jornada em detalhes.
– No que isto pode me ajudar?
– A Gota da Criação pode te qualquer coisa que desejar, qualquer mesmo. Todas as regras do universo podem ser quebradas com esse pequeno frasco. – Sa’drik olhou para Elena. – Pode restaurá-la, sem qualquer vestígio da Ọkan ǹā Enkh, o que significa que não existe qualquer chance de ela se tornar má outra vez. E pode te dar uma segunda chance.
– Já me ofereceram isso. – Retruquei, pensando na ilusão de Reymocell e no quanto eu queria que ela tivesse sido real.
– Isto aqui – ele gesticulou com o frasco, para enfatizar o que dizia – não é um truque de feitiçaria barata, Leonard. É uma segunda chance verdadeira. Você terá seu corpo, sua vida de volta, terá Elena de volta, terá tudo que desejar, até mesmo o que não tinha. Poderá ter uma vida inteira que sempre sonhou, ser uma estrela de cinema, se quiser. Não importa. Será real, tanto quanto o Paraíso, Kifo e os Filhos do Abismo são reais.
– Mas também pode me dar o poder de acabar com a guerra, com Kifo, trazer a paz de volta ao Paraíso, não? – Eu disse, sorrindo um pouco sarcasticamente.
– Sim, dará. – Sa’drik respondeu, ignorando meu tom. – Mas você não precisará. O segredo para derrotar Kifo já está em você. – Se ele apontasse para meu coração, eu vomitaria. – Metade para você e metade para ela, simples assim.
– Por que o Criador daria algo assim a um humano qualquer?
– Porque Ele te ama. Porque Ele deseja que você tenha a vida que nunca teve a chance de ter. Ele quer que você seja feliz em vida antes de poder ser feliz na morte. – Sa’drik sorria.
Para minha surpresa, ele colocou o frasco nas mãos de Elena e virou seus olhos amarelos para mim depois de deixar o livro onde estava o frasco sobre a cadeira em que ele se sentava antes. Sa’drik passou por mim, sem sorrir ou dizer nada mais, até a porta, pela qual saiu, mas não antes de acrescentar:
– É sua escolha, Leonard Ross.
– Para onde vai? – Eu disse, confuso.
– Meu trabalho aqui terminou. Eu cuidei dela como fui ordenado, entreguei a mensagem do Criador e agora vou voltar a reunir-me com meu irmão. – Ele parou no batente e virou-se para avisar: – Quando sair daqui, a conexão com o Inferno será encerrada e não terá mais acesso à Elena; e o que procura estará logo a sua frente. E um último aviso: não abra o livro dentro de Alexandria, mesmo que na superfície. De fato, só o faça quando estiver longe da África. As consequências podem ser catastróficas.
– O que você quer dizer com is... – Não tive a chance de terminar, pois Sa’drik já não estava mais ali.
Fui até a cama de Elena, que sendo de casal, me deu a chance de deitar-me ao seu lado uma última vez; contudo, não precisava ser a última. Olhei para o líquido dourado que ela tinha inconscientemente em mãos. Respirei fundo diversas vezes, pensando nas possibilidades, pensando no que queria.
Antes de tomar minha decisão, porém, olhei para ela em seu estado de coma, perguntando-me se ela não poderia ouvir tudo que se passava ao redor. Naquele momento, muito mais do que outro, eu senti saudade de todas as conversas que tivemos e como eu adorava contar as coisas que aconteciam comigo para ela. Por isso, resolvi narrar tudo que havia acontecido desde que nossos caminhos se separaram, quando ela levou o tiro que daria início àquela jornada.
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Assim que cruzaram o arco para dentro do Castelo, Leonard Ross desaparecera completamente. Miguel não podia sentir mais sua presença ou a da fada. Soube imediatamente que a partir daquele ponto, os dois tinham uma trilha solitária pela frente. Seja lá quais desafios esperavam, o querubim teria que enfrentá-los sozinhos.
No entanto, ao caminhar pelo corredor sombrio, sem qualquer luz que não saísse dele mesmo, Miguel não teve tanta certeza que de fato haveria desafios. Talvez o próprio corredor o fosse, o que seria extremamente fácil – ou talvez não, pois logo os pensamentos de pressa por causa da guerra do lado de fora daquele lugar estava ficando cada vez pior para os anjos. Foi quando a porta surgiu no final dele.
O querubim sacou sua espada assim que encostou nela. Porém, quando tentou acender o Fogo Celestial, falhou. Algo naquele lugar o impedia de usar sua melhor a**a, apesar de que o Sídero Theía era um metal com propriedades espetaculares mesmo sem o Fogo.
Colocou a mão na maçaneta, sentindo-a quente, mas não a ponto de queimar. Estranhou ainda mais quando tocou na porta, sentindo a mesma temperatura. Abriu-a lentamente, tentando precaver-se do que poderia encontrar, mas tudo que via eram as pedras vermelhas com as quais as paredes eram feitas.
Assim que sentiu o cheiro de enxofre, ele sabia muito bem que estava no Inferno, mesmo que fosse impossível, já que os dois mundos não se conectavam naturalmente – exceto pela passagem que Lúcifer usava da Mansão dos Mortos para o vazio do Julgamento, já que ele era parte deste.
Olhou em volta, notando centenas de símbolos nas paredes, palavras de fato, mas em uma língua que não conhecia – e sabia reconhecer a Sr̥ṣṭi, a Língua da Criação – o que eliminava todas os idiomas dos sete mundos, incluindo a Língua Proibida. Seja lá qual era os das paredes, não era algo que Miguel ou qualquer outro anjo poderia ler.
Havia ali apenas um altar no centro exato do salão; tal altar era feito das mesmas pedras das paredes, com os mesmos símbolos. Sobre ele havia um diamante avermelhado, inexistente em nenhum lugar dos outros mundos, apenas ali no Inferno. A pedra girava lentamente, no ar, flutuando. Além disto, apenas um homem estava ali; este tinha a pele morena, olhos amarelos e dentes cerrados.
Um Urshistaniano de dois apenas que estavam no Paraíso. Miguel conhecia a história dos únicos daquele reino ali; de fato, conhecia todas as almas que pertenciam ao mundo antes do Diluvio, todas elas quase tão antigas quanto ele mesmo.
– Onde está seu irmão? – disse, fazendo com que o outro virasse para ele.
– Sa’drik está falando com seu companheiro, Leonard Ross.
– Eu já estive em muitos lugares dos mundos – Miguel falou depois de alguns segundos de silêncio – principalmente do Inferno, mas nunca estivesse aqui. Onde estamos exatamente?
– O Criador chamou esta sala de Câmara do Irrevogável. Estamos no lugar mais profundo do Inferno, onde existe a Ọkan, o Coração, do mundo. – Ele apontou para o diamante. – Algo frágil, mas de extrema importância. O que acha de destruir todos os seus inimigos que existem no Inferno?
Os pensamentos de Miguel pararam de repente. Aquela alma dizia a verdade, podia sentir, mesmo que suas palavras não constassem em qualquer lore do universo – deste ou de outro, como Amorah. Não havia nenhum dizer que falava sobre o Coração do Mundo, nem nada semelhante. Ao mesmo tempo, ele achava que era possível, já que os Três – Criador, m*l e Morte – possuem Ọkans, corações.
– Como?
– Basta destruir o diamante. – Informou, com o sorriso simples.
– Qual é o truque?
– Está dizendo que o Criador é um ser de fazer truques? – Misha respondeu, ironicamente.
– Não. – Miguel disse, deixando que a ironia passasse por cima de sua cabeça; não daria o gostinho de vitória para a alma. – Mas algo tão poderoso assim tem suas consequências, algo grande o bastante que irá servir de contraponto. Algo como... Um teste.
Miguel vira o Criador escrever a história de milhares de humanos, vivos ou mortos ou algo entre os dois estados; vira milhares deles serem testados para algo maior, para um plano que Ele tinha. De tempos em tempos ele também testava os anjos – ele testou Lúcifer, mas ele falhou, o que causou a Rebelião e a queda de um terço das Legiões.
– Bem – Misha sorria da artimanha de Miguel, sabendo que havia sido derrotado naquele pequeno jogo da manipulação – se destruir a Ọkan do Inferno, destruirá o Inferno e tudo que habita nele. – Neste ponto, Misha estava à porta pela qual havia entrado, quase deixando a Câmara do Irrevogável.
O querubim soube imediatamente qual era seu teste, ainda mais considerando o que vira antes. Quando encarou Rafael e Lúcifer, ele aprendeu não apenas que nem tudo se resolvia com uma espada; mas também aprendeu a perdoar a si mesmo e deixar o passado onde estava. Ali estava o último teste antes de poder retornar para a guerra no Paraíso.
– A escolha é sua, General Miguel. E seja lá o que escolha, o que veio buscar estará a sua frente, ao alcance de sua mão. – Assim, Misha deixou-o sozinho.
Miguel sabia muito bem quais eram as consequências de destruir aquele diamante: bilhões de demônios cessariam de existir, fossem anjirëzor ou njerëzor ou qualquer outro que morasse naquele mundo; Lúcifer, Vráchos e todos aqueles que um dia se opuseram ao poder dos anjos, do Paraíso e do Criador. Não havia mais qualquer ameaça vinda daquele lugar.
No entanto, ele destruiria também trilhões de almas humanas. Não que não merecessem, pois foram pessoas terríveis quando em vidas e algumas nem mesmo arrependiam-se mesmo sendo torturadas por toda eternidade. Isto levaria todas as almas a serem mandadas para o Inferno cessariam de existir. Por fim, destruir o Inferno acabaria com o Equilíbrio da Terra; e sem seu equivalente e oposto, as consequências seriam apocalípticas.
Ele sabia qual era a escolha correta. Sabia que tinha que virar e deixar aquele lugar, sabendo que nunca mais conseguiria entrar ali em uma segunda chance. Aquela era uma oportunidade única, não apenas na existência dele, como também em toda História do universo, para qualquer ser.
Levantou a espada, posicionando-a ao lado do diamante. Um simples balanço e acabaria com a maior parte de suas preocupações; de seus inimigos.
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Misha e Sa’drik encontraram-se no salão principal do castelo. Os dois sempre se impressionavam com a precisão que Alexandre, o Grande, reconstruiu a ancestral morada dos dois. Morar ali no Paraíso trazia lembranças boas – e, infelizmente, ruins, mas com as quais eles conviviam sem sofrimento – da infância dos dois. Nunca fora fácil ser príncipes, principalmente depois de serem expulsos e verem o trono, a herança que recebiam, ser dada a um forasteiro.
– Como foi? – Sa’drik pensando que seu irmão tivera a missão mais fácil, pois os anjos eram muito mais firmes em suas convicções do que os humanos.
– Entreguei a mensagem. – Informou, com um sorriso esperto. – E agora torço para que ele faça sua escolha da melhor maneira possível. E seja lá o que ambos escolham, eles sairão mudados.
– E prontos para o que o Criador tem planejado para eles. – Sa’drik disse mais para si mesmo do que para seu irmão; Misha nunca teve muita fé nos outros.