Cobri a cabeça com a coberta mais grossa que encontrei ao meu lado quando vi minha mãe abrir a porta. Ela estava vestida em um de seus majestosos vestidos confeccionados com os mais incríveis tecidos da França. Seus cabelos mel/grisalhos estavam presos para trás de maneira elegante e sua postura demonstrava a melhor rainha que eu já havia visto.
Ainda que fosse um tanto complicado para mim, devia admitir que no fundo meu maior temor era não conseguir ser tão boa quanto minha mãe, ou meu pai eram. O reinado deles era de longe o melhor que o país já havia tido. Juntos haviam conseguido ajudar as vilas mais necessitadas, os trabalhadores que imploravam por empregos e até mesmo aqueles que sequer tinham moradia.
— Não adianta se esconder querida. - Minha mãe disse calmamente enquanto se sentava na beirada da minha cama.
— Eu não quero ir mamãe. - Bufei enquanto puxava a coberta para mais perto de mim.
— Não será definitivo, não ainda ... Apenas irá conhecer o príncipe, e não morrerá por isso. Eu e seu pai estaremos com você. Vamos, se apresse. - Falou, agora com a voz mais firme e eu sabia que quando aquele tom era usado, não era nada inteligente discutir.
Me levantei com um imenso peso nas costas.
— Prometa que não sairá do meu lado. - Sussurrei.
Desde que me entendia por gente - mais especificamente desde o dia que meu pai fez 56 anos - eu sabia que teria que me casar com um desconhecido. Minha mãe sempre alegava que ela e meu pai se amavam cegamente mesmo que tenham tido um casamento arranjado, e que o mesmo podia nos ocorrer. O que não era mentira, de fato o amor dos dois era conhecido por todos. Tudo que haviam enfrentado para ficarem juntos e tudo que ainda faziam lado a lado. Graças a idade, papai estava um tanto quanto debilitado; minha mãe também já não era diferente e ainda sim, o amor dos dois era tão grande que era quase palpável ... Mas oras, porquê eu deveria acreditar que o mesmo aconteceria comigo e um garoto completamente estranho para mim?
Um ...
Desconhecido ...
Arfei perdida em meus pensamentos. Para maior alívio, essa visita seria apenas para que nos conhecêssemos. Eu havia acabado de completar quinze anos, e ele aproximava-se de seus dezoito, o Rei de Roma, insistia em dizer que tardávamos em nos casar, mas papai havia se assegurado que só firmaríamos uma união quando eu completasse meus dezessete anos, o que agradeci grandemente. Teria mais um curto espaço de tempo para aproveitar minha pequena " liberdade ".
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Quando chegamos no palácio Romano senti meu queixo cair, já havia ouvido falar sobre as imponentes construções de Roma, mas nem em minha mais fértil imaginação podia imaginar algo do tipo e ainda sequer havíamos entrado no palácio. As portas eram de ouro e as paredes de um material desconhecido para mim, mas o mais belo que meus olhos já haviam contemplado.
Ajudei meu pai a descer da carruagem e enlacei nossos braços.
Apesar da idade, papai ainda estava muito bem. Tinha alguns poucos problemas rotineiros, mas não era nada grave. Sorri para minha mãe quando ela pegou o outro braço dele, e juntos entramos no palácio real. Haviam cortinas leves e flores por todo o lugar, a decoração era impecável e os tons pastéis prevaleciam. Logo ao lado havia uma imensa piscina com cascatas que jorravam água. O ambiente era agradável e muito bem ventilado, sem contar o cheiro de flores que emanava.
— Altezas. - Um lacaio tratou de nos receber com toda cortesia possível. Nós manuseamos a cabeça em um gesto quase nulo. — Sigam-me.
O único barulho que podia ser ouvido enquanto o seguíamos pelos imensos corredores era o de nossos saltos em contato com o chão causando um forte eco.
O lacaio abriu a porta da sala real e nos anunciou.
— Rei Felipe da França. Rainha Elisa da França. Princesa Aurora da França. - Ele colocou as mãos para trás e se curvou antes de retirar-se.
O rei levantou-se pomposo de seu trono. Papai e ele haviam tido grandes atritos no passado, me restou torcer para que esses atritos tivessem sido resolvidos.
— Querido Felipe, rainha Elisa. - Ele apertou a mão de meu pai como cumprimento. Curvou-se perante minha mãe e em seguida tomou minha mão levando-a aos lábios. — Encantado. - Disse enquanto me fuzilava com os olhos, ofereci o mais perto de um sorriso que consegui.
— Igualmente, alteza. - Sussurrei.
— É um prazer tê-los em meu palácio.
— É um prazer enfim nos conhecermos pessoalmente. - Minha mãe respondeu confiante. — Diga-me, aonde se encontra seu filho? .- Ela perguntou desconfiada. Tentei segurar uma risada, lembrei-me da história do dia que meus pais se conheceram, mamãe ainda falava desse dia e dava leves tapinhas no peito de meu pai sempre que essa assunto surgia.
— Logo ali. - Ele apontou para a porta da sala real.
Nós três nos viramos no mesmo instante.
Um garoto de cabelo preto, alto, de olhos verdes como esmeralda e a aparência aproximada a de um anjo se aproximou ao lado de uma mulher igualmente perfeita. Apesar da nítida idade sua beleza não podia passar despercebida. Todos os seus traços eram como os do garoto, julguei ser sua mãe.
— Essa é minha esposa, Rainha Catarina, e o príncipe Ethan, meu querido filho.
Mamãe o olhou dos pés a cabeça e não pude deixar e observar seu cenho franzido.
O príncipe e sua mãe curvaram-se perante meus pais, e meus pais fizeram o mesmo. A Rainha me olhou da mesma forma que minha mãe havia olhado o filho dela e então vi um brilho surgir em seus olhos.
— Encantada. - Disse após sua longa análise.
— Grata, alteza. - Respondi.
O príncipe aproximou-se em passos lentos e curtos, tomou minha mão enluvada e a levou até os lábios rosados.
— É um prazer, princesa.
Senti meu rosto queimar. O olhar dele era tão penetrante que pensei que pudesse enxergar minha alma.
— Igualmente, príncipe.