SONHAR

1211 Palavras
A última coisa que eu deveria fazer é me esconder no banheiro e me encolher na banheira, mas não consigo encontrar outra maneira de lidar com o que está acontecendo comigo. Já esfreguei os olhos, saí do meu quarto mil vezes e verifiquei o meu celular mais de quinze vezes — o meu celular antigo que quebrei no dia do meu casamento e do qual me arrependi durante todo o meu casamento! — e tudo continua igual. — Linda, querida, o que foi? Pergunta a minha mãe do lado de fora. — Você está me assustando. Quer que eu ligue para o médico ou para o seu pai? — Não! Levanto-me num pulo, surpresa por ter recuperado essa capacidade. Mesmo assim, não fico remoendo isso e finalmente abro a porta para ela. — Mamãe, você é tão linda. Digo com lágrimas nos olhos enquanto acaricio o seu rosto. — Você vai ser linda aos oitenta também, mas... — Ah, qual é. Ela ri. — Você fez uma versão mais velha de mim com aquela coisa de inteligência artificial? Não faça isso, não... Naquele momento, percebo que não é uma boa ideia contar para ela. Ela é paranoica, e é bem provável que eu acabe no consultório de um psiquiatra se eu contar. — Eu tive um sonho, mãe. Um em que eu estava com o Ethan há muitos anos, e tudo deu errado. Minto. — Foi tão real que ainda estou com medo. — Ah, meu amor. Ela diz, me abraçando. — Eu entendo. Já tive pesadelos assim antes, mas está tudo bem. E se foi só um sonho? Penso, perturbada. — Eu não quero me casar. Confesso. — Eu não quero, eu não quero. — Mas, querida, você disse que queria, que faria o Ethan te enxergar de forma diferente algum dia. — Eu não quero me casar. Confesso. — Ele nunca vai me amar, eu sei disso agora. Asseguro a ela, me afastando. — Preciso cancelar tudo. — Mas eles vão marcar a data do casamento hoje, querida. Ela responde preocupada. — Tem certeza de que quer cancelar tudo? Eu te apoio, não me importo se seu pai retirar o apoio dele. — Você vai mesmo me apoiar? Sorrio para ela. — Obrigada, mãe, obrigada. Eu te amo. — Eu te amo mais, querida. Ainda bem que você caiu em si. Ela exclama, me abraçando novamente. — Vai ficar tudo bem, né? Tenho certeza de que o Ethan vai ficar feliz e pode até nos ajudar. Afinal, antes disso, ele gostava de você. Gostar. Essa palavra nunca me pareceu suficiente. O carinho que ele sentia por mim desapareceu no instante em que concordei em assinar o acordo pré-nupcial e transformou-se num ódio distorcido com o qual tenho que conviver. Tenho certeza de que isso não foi um sonho. A mente consegue criar cenários realistas, mas não trinta anos de uma vez só. Só preciso confirmar com o Ethan. Se ele não se lembrar de nada, posso começar a acreditar que foi um sonho, mas se ele se lembrar… — Preciso falar com o Ethan. Deixo escapar. — Não me olhe assim, eu preciso contar para ele. Quero ver o sorriso dele quando descobrir que não vou me casar com ele. — Acho que ele não vai sorrir; isso vai causar problemas. — O problema seria casar. Ignorando a minha dor, começo a discar para o Ethan. Ele pode não atender, como sempre, mas não vou parar até que ele atenda. Para minha surpresa, ele atende imediatamente. — Precisamos conversar, Linda. Diz ele sem fôlego, com a voz mais jovem, embora ainda grave. — Vou para a sua casa... quer dizer, para a casa da sua mãe. — Ethan… — Precisamos conversar! Ele grita. O meu coração dispara, não de excitação, mas de pânico. Será possível…? — Sim. Sussurro. — Precisamos conversar. — Querida, o que houve? Por que o Ethan está vindo? Mamãe me questiona enquanto me observa vestir a primeira coisa que encontro. Ver a bagunça no meu quarto me dá vontade de chorar, mas tento resistir. Vou ver o Ethan, um homem que voltou a ter trinta e um anos. Ele está vindo... ele está vindo... eu não sei, mas preciso vê-lo! Assim que visto a calça, saio correndo do quarto. O meu pé descalço pisa num vaso de flores que mamãe tem no corredor, mas a adrenalina está a mil e não sinto o impacto. Só preciso descer e garantir que não estou sozinha nisso, que o meu ex-marido se lembre de tudo. Ele precisa se lembrar, custe o que custar. Não, isso não pode ser um sonho, eu não posso estar louca. Quando abro a porta, o pânico se intensifica. Ele está jovem de novo! Os cabelos brancos sumiram e o cabelo dele está castanho novamente. Ele não usa óculos e o verde dos olhos dele voltou muito mais intenso. O meu velho e acabado marido não está em lugar nenhum. — Linda. Ele ofega, dando um tapa no meu rosto. — Você é jovem, você é... — Me solta, você está me machucando! Eu reclamo, mas não consigo tirar as mãos dele de mim. — Você é jovem, tão jovem. — Você se lembra? Você também se lembra? Ele pergunta, com os olhos arregalados. — Sim, eu também me lembro. — Então estamos de volta, é ótimo. Ele diz, me soltando. — Você tem noção do que isso significa... Linda? “Sim, não vamos precisar nos casar.” O sorriso de Ethan se alarga. Ele provavelmente está pensando na oportunidade que está prestes a se dar com Rachel. — Exatamente, Linda. Ele concorda com a cabeça. — Temos outra chance de cancelar isso, de fazer o que deveríamos ter feito. — Sim, sim. Respondo, tentando parecer radiante. — Você não vai me impedir de ser feliz com ela. Ele avisa, me encarando. — Eu me importei com você, não me faça te odiar de novo. — Não, eu não vou, Ethan. Quero esse noivado cancelado imediatamente também. Respondo com um sorriso que apaga o dele. — Não se preocupe, vou fingir que sei o que estou fazendo para dizer àqueles velhos que essa m*aldita cláusula não existe. — Sim, eu já preparei os documentos. Ele suspira. — Temos outra chance, Linda. Eu me casarei com Rachel, e você… — E eu vou encontrar mais Santinos, que já devem ter trinta anos. Brinco, e ele cerra os dentes. — Que noite incrível ele me proporcionou ontem. Uma pena que ele nem tenha nascido este ano. — O que você está dizendo? Antes que a sua mão alcance o meu pescoço, minha mãe desce as escadas. — O que está acontecendo aqui? Ela pergunta, com a voz trêmula e os olhos arregalados. — Ethan, o que…? — Que não precisaremos nos casar, mãe. Explico com um sorriso. — Encontramos a solução perfeita para não termos que prender as nossas vidas. ‍​‌‌​​‌‌​​‌​​‌​​​​​​‌​​​​​‌​​​‌‌​​​‌​​​‌​​​‌​​​‌​​‌​‌‌‌‍
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