A última coisa que eu deveria fazer é me esconder no banheiro e me encolher na banheira, mas não consigo encontrar outra maneira de lidar com o que está acontecendo comigo. Já esfreguei os olhos, saí do meu quarto mil vezes e verifiquei o meu celular mais de quinze vezes — o meu celular antigo que quebrei no dia do meu casamento e do qual me arrependi durante todo o meu casamento! — e tudo continua igual.
— Linda, querida, o que foi? Pergunta a minha mãe do lado de fora. — Você está me assustando. Quer que eu ligue para o médico ou para o seu pai?
— Não!
Levanto-me num pulo, surpresa por ter recuperado essa capacidade. Mesmo assim, não fico remoendo isso e finalmente abro a porta para ela.
— Mamãe, você é tão linda. Digo com lágrimas nos olhos enquanto acaricio o seu rosto. — Você vai ser linda aos oitenta também, mas...
— Ah, qual é. Ela ri. — Você fez uma versão mais velha de mim com aquela coisa de inteligência artificial? Não faça isso, não...
Naquele momento, percebo que não é uma boa ideia contar para ela. Ela é paranoica, e é bem provável que eu acabe no consultório de um psiquiatra se eu contar.
— Eu tive um sonho, mãe. Um em que eu estava com o Ethan há muitos anos, e tudo deu errado. Minto. — Foi tão real que ainda estou com medo.
— Ah, meu amor. Ela diz, me abraçando. — Eu entendo. Já tive pesadelos assim antes, mas está tudo bem.
E se foi só um sonho? Penso, perturbada.
— Eu não quero me casar. Confesso. — Eu não quero, eu não quero.
— Mas, querida, você disse que queria, que faria o Ethan te enxergar de forma diferente algum dia.
— Eu não quero me casar. Confesso. — Ele nunca vai me amar, eu sei disso agora. Asseguro a ela, me afastando. — Preciso cancelar tudo.
— Mas eles vão marcar a data do casamento hoje, querida. Ela responde preocupada. — Tem certeza de que quer cancelar tudo? Eu te apoio, não me importo se seu pai retirar o apoio dele.
— Você vai mesmo me apoiar? Sorrio para ela. — Obrigada, mãe, obrigada. Eu te amo.
— Eu te amo mais, querida. Ainda bem que você caiu em si. Ela exclama, me abraçando novamente. — Vai ficar tudo bem, né? Tenho certeza de que o Ethan vai ficar feliz e pode até nos ajudar. Afinal, antes disso, ele gostava de você.
Gostar. Essa palavra nunca me pareceu suficiente. O carinho que ele sentia por mim desapareceu no instante em que concordei em assinar o acordo pré-nupcial e transformou-se num ódio distorcido com o qual tenho que conviver.
Tenho certeza de que isso não foi um sonho. A mente consegue criar cenários realistas, mas não trinta anos de uma vez só.
Só preciso confirmar com o Ethan. Se ele não se lembrar de nada, posso começar a acreditar que foi um sonho, mas se ele se lembrar…
— Preciso falar com o Ethan. Deixo escapar. — Não me olhe assim, eu preciso contar para ele. Quero ver o sorriso dele quando descobrir que não vou me casar com ele.
— Acho que ele não vai sorrir; isso vai causar problemas.
— O problema seria casar.
Ignorando a minha dor, começo a discar para o Ethan. Ele pode não atender, como sempre, mas não vou parar até que ele atenda.
Para minha surpresa, ele atende imediatamente.
— Precisamos conversar, Linda. Diz ele sem fôlego, com a voz mais jovem, embora ainda grave. — Vou para a sua casa... quer dizer, para a casa da sua mãe.
— Ethan…
— Precisamos conversar! Ele grita.
O meu coração dispara, não de excitação, mas de pânico. Será possível…?
— Sim. Sussurro. — Precisamos conversar.
— Querida, o que houve? Por que o Ethan está vindo? Mamãe me questiona enquanto me observa vestir a primeira coisa que encontro.
Ver a bagunça no meu quarto me dá vontade de chorar, mas tento resistir. Vou ver o Ethan, um homem que voltou a ter trinta e um anos.
Ele está vindo... ele está vindo... eu não sei, mas preciso vê-lo!
Assim que visto a calça, saio correndo do quarto. O meu pé descalço pisa num vaso de flores que mamãe tem no corredor, mas a adrenalina está a mil e não sinto o impacto. Só preciso descer e garantir que não estou sozinha nisso, que o meu ex-marido se lembre de tudo.
Ele precisa se lembrar, custe o que custar. Não, isso não pode ser um sonho, eu não posso estar louca.
Quando abro a porta, o pânico se intensifica. Ele está jovem de novo! Os cabelos brancos sumiram e o cabelo dele está castanho novamente. Ele não usa óculos e o verde dos olhos dele voltou muito mais intenso.
O meu velho e acabado marido não está em lugar nenhum.
— Linda. Ele ofega, dando um tapa no meu rosto. — Você é jovem, você é...
— Me solta, você está me machucando! Eu reclamo, mas não consigo tirar as mãos dele de mim. — Você é jovem, tão jovem.
— Você se lembra? Você também se lembra? Ele pergunta, com os olhos arregalados.
— Sim, eu também me lembro.
— Então estamos de volta, é ótimo. Ele diz, me soltando. — Você tem noção do que isso significa... Linda?
“Sim, não vamos precisar nos casar.”
O sorriso de Ethan se alarga. Ele provavelmente está pensando na oportunidade que está prestes a se dar com Rachel.
— Exatamente, Linda. Ele concorda com a cabeça. — Temos outra chance de cancelar isso, de fazer o que deveríamos ter feito.
— Sim, sim. Respondo, tentando parecer radiante.
— Você não vai me impedir de ser feliz com ela. Ele avisa, me encarando. — Eu me importei com você, não me faça te odiar de novo.
— Não, eu não vou, Ethan. Quero esse noivado cancelado imediatamente também. Respondo com um sorriso que apaga o dele. — Não se preocupe, vou fingir que sei o que estou fazendo para dizer àqueles velhos que essa m*aldita cláusula não existe.
— Sim, eu já preparei os documentos. Ele suspira. — Temos outra chance, Linda. Eu me casarei com Rachel, e você…
— E eu vou encontrar mais Santinos, que já devem ter trinta anos. Brinco, e ele cerra os dentes. — Que noite incrível ele me proporcionou ontem. Uma pena que ele nem tenha nascido este ano.
— O que você está dizendo?
Antes que a sua mão alcance o meu pescoço, minha mãe desce as escadas.
— O que está acontecendo aqui? Ela pergunta, com a voz trêmula e os olhos arregalados. — Ethan, o que…?
— Que não precisaremos nos casar, mãe. Explico com um sorriso. — Encontramos a solução perfeita para não termos que prender as nossas vidas.