A sala de aula, agora movimentada com as três garotas, se mantinha iluminada. O ar quente dos aquecedores deixavam o local mais aconchegante. Pela janela, a neve se mostrava mais abundante que antes, talvez Hiroki estivesse certo.
Ana olhava, pelo vidro, cada floco de neve cair sobre o chão branco. A noite anterior, apesar dos problemas e sentimentos confusos, havia se tornado uma excelente memória.
Enquanto isso, ao lado da garota, Fabíola e Adrielly debatiam sobre os estudos e as propostas para o concurso. As duas, com cabelos amarrados em coque, deixaram os casacos sobre a mesa, e agora, mantinham se apenas com roupas de duas camadas. A cacheada com sua camiseta de um antigo fandom, por outro lado, a ruiva se mantinha neutra com sua blusa de vermelha; Ambas de mangas longas.
– O que será que a Ana está pensando? – Fabíola parou para observá-la.
– Talvez, no motivo de ter chegado tarde da noite. – A ruiva estava curiosa.
– Ah! Quase me esqueci de falar. O Nozomu nos chamou para a formatura dele. – Adrielly continuou.
– Oh, não estava preparada para isso. – Fabíola levou a mão a boca. – Mas teremos o que usar? Digo, o dinheiro que recebemos. Os vestidos são muitos caros?
– Não sei, mas podemos comprar na internet. Ou em algum bazar, roupas nunca perdem o charme! – Estou orgulhosa, esta aprendendo comigo. – A cacheada sorriu ladino.
A mais nova ouvia a conversa sem se preocupar muito. Enfim se virou para as amigas, na intenção de argumentar.
– Não quero ir, meninas. Prefiro ficar em casa. – Respondeu cansada.
– Ah não! Você vai sim, Ana. Nada de baixa autoestima essa semana. – Fabíola colocou a mão sobre os ombros da amiga e a chacoalhou.
– Vamos achar algo que irá gostar. Prometo!
A porta da sala se abriu, e depois dela, a mesma mulher que haviam visto a algum tempo atrás. Haram, agora de pé em frente a lousa, segurava o material didático, e observava as intercambistas seriamente.
– Bom dia, meninas. – Disse calmamente. As ouvintes responderam.
– Como devem ter visto, no plano didático há uma concessão que impõe como tópico, o estudo sistemático comportamental sobre epidemias. O intercâmbio também contaria com um projeto de criação, mas pela participação no festival, não necessitarão de desenvolvê-lo.
– Enfim, administrarei a aula de hoje. Por favor, peguem na minha mesa, as apostilas de estudo.
Fabíola levantou a mão.
– Sim? – Haram respondeu. Não estava vestida como no primeiro dia, hoje portava um estilo mais simples: Calças bege de cintura alta, camiseta social feminina – com um pequeno decote em v – e escarpim preto nos pés. O corte de cabelo curto continuava o mesmo.
O batom vermelho vibrante, chamava a atenção.
– Seremos transferidas? Vi que na faculdade não há o curso de medicina. – Perguntou.
– Sim, vocês serão. Devo enfatizar que continuem focadas na pesquisa.
As duvidas cessaram.
– Hoje, nossa aula será sobre epidemiologia. – Haram escrevia no quadro a medida que falava.
– Imaginemos e voltemos ao passado. Várias patologias causaram grande m*l para a humanidade, algum exemplo? Cólera, Ebola, peste Bubônica.
– Organismo muito pequenos, mas que afetaram em larga escala, a população. Alguém pode me dizer o que todas as doenças possuem em comum? – A mulher dizia enquanto andava de um lado para o outro pela sala.
– A contaminação? – Adrielly respondeu de prontidão.
– Vejo que estão prestando atenção no material. Sim, Adrielly, esse é um ponto em comum.
– Muitas das vezes a contaminação se dá pela falta de higiene, como lavar as mãos.
– Porém, deixo uma partida de reflexão para vocês: Todos os países possuem acesso a água potável?
– Ou tratamento de resíduos?
– A quarentena, como processo de isolação para indivíduos afetados é uma das medidas descritas e realizadas em muitos casos. Agora pensem na atualidade: Se houvesse a propagação de uma doença, onde seria obrigatório o isolamento em alta escala, como o ser humano reagiria?
– Ansiedade, depressão, e privação de liberdade. O que isso levaria? Quais seriam os impactos? E isso afetaria as medidas de higiene?
– Anotem essas perguntas, tragam respondidas para min amanhã.
– Continuando o conteúdo, lembrem-se da famosa Peste n***a. Por meio de pulgas achadas em ratos, uma grande quantidade da população foi dizimada. O que Darwin diria sobre isso?
– Não estamos defendendo nenhuma ideologia ou forma de pensamento. Quero que observem com o olhar crítico.
– Como recém cientistas, vocês devem observar e discutir. Levar em conta o fato, as alusões e o comportamento consequentemente.
– Teorias nunca serão dadas como verdade, e sim, são levadas como impossíveis de se questionar em tal momento.
Depois de muita discussão, a aula acabou com a palavra final de Haram.
– Amanhã estudaremos a concepção básica sobre causalidade e risco na epidemiologia. E o avanço do estudo sul coreano na área. – Dizia enquanto apagava o quadro.
O horário do almoço havia chegado, e o movimento da lanchonete estava quase escasso. As meninas, novamente, optaram por se dentro do estabelecimento. A neve continuava a cair do lado de fora.
– Que aula foi essa? – Fabíola levava a colher a boca, a medida que falava.
– Já estou com dor de cabeça. – Ana respondeu.
– Eu gostei, pela primeira vez, me senti como uma universitária. – A ruiva havia trazido um sanduíche de casa.
– A mulher falou de peste bubônica. Achei que nunca mais ouviria sobre isso na vida. – Luiza jogou a cabeça sobre a mesa. – E passou uma tonelada de trabalho. – Aquela altura, sua voz já estava abafada.
– Acho importante sempre lembrar do passado, para evitar no futuro. – A cacheada concluiu.
– Imaginem se não soubéssemos sobre o segundo reinado no Brasil, e a e********o fosse esquecida? – Fabíola se animou em explicar.
– Leis dos sexagenários, ventre livre, o Eusébio no barquinho. O que poderia ter ajudado a desenvoltura dos negros depois daquilo? Será que se existissem políticas de inclusão, o a*******d teria acontecido?
– Meu deus, Fabi. Calma, volte para terra. – Ana disse, levantando a cabeça.
– Ana, você não nos contou sobre onde foi ontem. – Adrielly continuava curiosa.
– Fui perguntar como o Nozo se sentia com essa confusão que criei. Então ele me deu uma patada.
– Me senti m*l, e fui caminhar para esfriar a cabeça. Como daquela vez que aumentaram a taxação sobre os livros, ano passado. – Continuou ela.
– E então conheci um garoto.
– Um garoto? – Adrielly e Fabíola reagiram em sincronia.
– Não se preocupem, o pior ficou para depois. Decidi andar um pouco de ônibus, e dei de cara com o Hiroki.
– E o garoto? – Fabíola bebeu de seu chá de hortelã.
– Aquela altura, ele já havia ido embora. Estava sozinha.
– E como você reagiu? – A ruiva mordiscou seu sanduíche.
– Não sabia onde enfiar a cara. Então ele me viu, pediu para sentar comigo, e ficamos conversando.
– Só isso? – A cacheada sabia que havia caroço naquele angu.
– Não, depois ele me levou para comer, e... – A garota fez suspense.
– E... – Adrielly estava curiosa.
– E ficamos de mãos dadas. – Ana colocou as mãos sobre o rosto, envergonhada.
– Não acredito!
– Por um momento me senti m*l, o que será que o Hiro vai pensar de min? Sai com ele, mesmo estando "namorando''.
– Não se preocupa, Niga. Você vai estar linda naquela formatura! – Adrielly assentiu.
O dia esperado chegara. A entrada do salão, decorada com balões brancos, possuía uma grande faixa ao alto, parabenizando a todos os formandos pelo fim da jornada.
Adrielly, com seu vestido longo, liderava o g***o de garotas. Seus trajes em tom carmim, sintonizavam com maquiagem em tons dourados, com retoques vermelhos. O penteado em coque, realçava ainda mais o batom vermelho em seus lábios.
Seu tamanho não havia mudado, os pequenos saltos, revelavam um pequeno pé. Mais acima, as belas pernas torneadas se mostravam a medida do corte na lateral do vestido. Muitos a observavam, apesar que ainda não havia entrado no salão.
Fabíola mantinha seu cabelo solto, os cachos desciam sobre os seus ombros e o vestido preto. A gola escura se prendia a uma renda que ia das manhas até o começo do corpete. Detalhes florais se estendiam pelo b***o até a cintura, e por fim, novamente a cor n***a se misturava com a renda sobreposta em uma saia até o joelho. Os lábios carnudos pintados ao roxo bordô, casavam se excelentemente com a maquiagem em tons clássicos no degradê do cinza ao n***o.
As três entregaram os convites e entraram no salão. A musica calma, trazia o aconchego para uma boa conversa entre os convidados. Oliver estava no palco, tocando o baixo, concentrado na melodia tocada. Um lugar agradável.
O americano acenou para as garotas assim que as viu, sorridente.
Jung Bae, vendo as garotas, se aproximou com seu longo vestido rosa rodado. Se assemelhava a uma princesa, uma mulher independente pronta para construir seu conto de fadas.
– Adrielly! Fabíola! – A coreana se aproximou.
– Bae! Você está linda. – Adrielly comentou sorridente.
– Vocês também estão! Agora vamos pegar uma bebida.
A mais nova continuou parada ali, estava sem v*****e de prosseguir. Apesar de estar linda com seu vestido de renda branco, não se sentia segura. A garota lutava para não manchar a maquiagem que Adrielly fizera. Sua ansiedade estava a ponto de explodir.
Então, uma de suas mãos trêmulas foi levemente coberta por outra.
Outras pesadas mãos que reconhecera logo que as sentiu. Hiroki estava ao lado da garota agora.
– Você está linda. – Ele disse baixo no ouvido da garota.
Ela sorriu cabisbaixa.
Hiroki estava como os formandos, vestido a terno preto. Seu cabelo estava levemente penteado para o lado. Seu sorriso chamava mais atenção, do que suas vestes.
– Se importa se eu segurar sua mão? – Disse educado.
Não houve resposta. Ana não queria ter de dizer não.
– Podemos ficar longe dele hoje? Não quero que os pais dele me vejam. – A garota queria evitar qualquer coisa que atrapalhasse o amigo.
– Vergonha? – Hiroki a guiava para a pista de dança.
Agora, os dois, envolvidos pela calma musica; dançavam lentamente.
– Não sei dançar muito bem. – Ana se desculpou com os braços envoltos sobre o pescoço do outro.
– Apenas se apoie em min. – Enfim a garota colocou a cabeça sobre o ombro de Hiroki.
Enquanto isso, ao longe, os outros observavam a garota dançar. Todos sentados em uma mesa no canto, a bebida estava agradável.
– Fiquei com pena dela, Bae. Se o Hiroki não tratá-la bem, terá de se ver comigo. – Fabíola bebeu um dos drinques.
– Valeu a pena deixá-la sozinha. – A coreana sorria vendo a cena.
– Enfim, me junto a vocês hoje. A princesa Jung Bae está sozinha hoje. – A asiática entornou o copo.
– Como assim? – Perguntou a ruiva.
– Ela terminou com o namorado. – Oliver revirou os olhos ao ver o drama da amiga.
– Ele era um b****a. – Nozomu comentou.
– Era mesmo! – Bae enfatizou.
– Eu disse para ela que ele não prestava, mas ela foi teimosa. – O americano parecia estar incomodado.
– Você o conhecia, Oliver? – A cacheada perguntou.
– Sim, era meu colega de quarto. Nunca mais faço isso na vida.
Todos riram.
– Ei, nada de falar sobre ele hoje. Quero aproveitar o máximo. E arrumar alguém para a Fabíola. – A coreana balançou a cabeça.
– Para min? Estou bem, Bae. – A morena tentou se explicar.
– Ninguém estará bem se não pegarmos alguém hoje.
– Que tal um jogo de verdade ou desafio? – Bae continuou.
– Mas não temos uma garrafa. – Nozomu tentou explicar.
Jung entornou o recipiente de champanhe.
– Agora temos. Quem começa? – Disse Nozo concluindo.
– Vou girar. – A ruiva se voluntariou.
A garrafa girou sobre a mesa. Todos estavam exitantes em saber o resultado. Enfim parou.
– Certo, Fabíola pergunta para o Oliver. – Adrielly informou.
– Senhor Oliver, por acaso seu cabelo é tingido de loiro? – Fez uma cara suspeita.
– What? Claro que não. – Ele riu.
– Ainda tenho minhas duvidas.
– Ele tem medo de tingir o cabelo, Fabi. – Nozomu respondeu. Rindo da mesma forma que o amigo.
Oliver se voluntariou a girar.
– Adrielly, você ficaria com alguém dessa roda? – Bae jogou a pergunta.
– Apenas eu que percebi que ninguém está perguntando "verdade ou desafio"? – Adrielly indagou.
– Nem ouse fugir do assunto.
– Aish, talvez...
– Wo, agora estou curiosa.
– Próxima rodada. – A ruiva girou.
– Verdade ou desafio, Nozomu? – Oliver fez careta.
– Verdade. – Disse calmamente.
– Sem graça. Enfim, você pegaria a Ana?
– Claro que não. Quer que o Hiroki me mate? – Riu.
Outra rodada.
– Já transou na universidade? – Bae perguntou para Oliver.
– Sim.
– O que?! – Nozomu arregalou os olhos.
– Muitos fazem isso. Você é muito careta, meu caro.
Do outro lado da pista, a dança entro Ana e Hiroki haviam cessado. Agora procuravam um lugar para se sentar.
– Vamos ficar com um amigo. – Ele segurou a mão da garota e a guiou novamente.
Assim que encontraram a mesa, os dois se sentaram. A mais baixa se mantinha concentrada em não estragar o vestido até aquele momento. Então, não havia posto os olhos no amigo de Hiroki.
– Bom, Ana. Esse é meu amigo Hoseok. – Disse, Hiro.
– É um prazer conhece-la.
– Nossa, você fez me lembrar de quando estudava, havia um cantor que minha amiga gostava e... – Enfim se virou, os olhos arregalaram.
– Não é possível, Hoseok é você?! – Levou a mão à boca.
– Parece que encontrei uma ex fã. – O garoto sorriu.
– Como diabos vocês se conhecem? – Ana perguntou.
– Amigos de longa data. Pensei que todos tivessem me esquecido. – Hoseok respondeu.
– Bom, se me dão licença, preciso ir ao banheiro. – Continuou ele, se levantando.
Jung Hoseok deixou a mesa e seguiu para o banheiro que, por sorte, não estava lotado. Ao terminar de usá-lo, saiu distraído enquanto observava a mancha de aguá que havia feito em seu terno. Demorarei secar.
A passo que dava, se esquecia mais de onde estava. E por fim, acabou esbarrando com alguém. Uma garota que agora estava encharcada com bebida, da mesma forma que Hoseok.
– Oh, meu deus. Me desculpe, não foi minha intenção. – Fabíola disse observando a roupa molhada e tentando limpá-la.
– Não se preocupe. A culpa foi minha. – O garoto respondeu sem graça.
E então Fabíola olhou o rosto do estranho.
– Jung... Hoseok... – Respondeu Atônita.
Na mesa, Hiroki continuava conversando com Ana Luiza. Estavam a terminar uma garrafa de bebida.
– Segunda noite aleatória da minha vida. – A garota disse rindo.
– E qual foi a primeira?
– Ontem, quando te encontrei.
– Oh, talvez seja algo bom. – O asiático não parava de observar a garota.
– Quando vamos montar um boneco?
– Você está mesmo animada para fazer um boneco. – Ele riu.
– Claro, e você disse que faríamos.
– Podemos marcar, se você responder minhas mensagens. – Concluiu.
– Oh, me desculpe por isso. Fiquei ocupada com os trabalhos por algum tempo.
– Sem problemas. Enfim, por que preferiu ficar comigo do que com seu namorado?
A menina pensou duas vezes se realmente deveria contar a verdade.
– Veja... tenho que te contar uma coisa.