Capitulo17

1257 Palavras
Capítulo 17 — Estefany Dois dias. Já tinham se passado dois dias desde o beijo. Dois dias que pareceram duas semanas. Porque, por mais que eu tentasse ocupar a cabeça com trabalho, música, reuniões e compromissos, era impossível fingir que aquilo não tinha acontecido. E o pior? Nenhum dos dois tinha falado sobre isso. Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação. Nada. Como se aquele momento tivesse ficado suspenso em algum lugar entre a realidade e a loucura. Mas eu lembrava. Lembrava perfeitamente. Toda vez que fechava os olhos. Toda vez que ficava em silêncio por mais de cinco segundos. E aquilo estava começando a me irritar. Muito. Por isso eu estava feliz por ter show naquela noite. Trabalho sempre foi minha melhor distração. A música sempre conseguia colocar minha cabeça no lugar. Ou pelo menos era o que eu esperava. Estava terminando de me arrumar em frente ao espelho do quarto. Escolhi uma roupa confortável para tocar, mas que ainda tinha presença. Uma calça cargo preta ajustada ao corpo, um cropped branco de tecido brilhante e uma jaqueta curta preta que eu normalmente usava antes de subir ao palco. Nos pés, um tênis branco. Nada exagerado. Nada que me atrapalhasse durante horas atrás da mesa. Passei os dedos pelo cabelo loiro já escovado e finalizei a maquiagem. Olhos marcados. Batom discreto. Iluminador leve. O suficiente para aguentar as luzes do palco. Meu celular vibrou. Lucas. Claro. — Já tô chegando. — Eu tô pronta. — Milagre. — Vai se ferrar. — Desce logo. Sorri. Peguei minha bolsa e saí. A viagem até a casa de festas foi tranquila. Lucas falava sobre equipamentos. Sobre contratos. Sobre agenda. Sobre tudo. Menos sobre o assunto que eu sabia que ele queria comentar. Até que não aguentou. — Então... Revirei os olhos. — Não. — Eu nem perguntei nada. — Mas ia perguntar. — Ia. — Então não. Ele começou a rir. — Tu tá impossível. — E tu tá curioso demais. — Porque alguma coisa aconteceu. Olhei pela janela. — Lucas. — Tá bom. Mas pela expressão dele eu sabia que aquele assunto ainda voltaria. A casa de festas já estava cheia quando chegamos. Era um daqueles lugares enormes. Segurança para todo lado. Camarotes. Pista lotada. Gente de vários estilos diferentes. A energia já era boa antes mesmo do evento começar. Lucas foi organizar os últimos detalhes dos equipamentos enquanto eu fiquei no camarim fazendo os ajustes finais. Estava retocando o batom quando ouvi a porta abrir. — STEF! Sorri imediatamente. Larissa. Ela entrou praticamente pulando. Cheia de energia como sempre. — Você tá linda! — Você fala isso toda vez. — Porque é verdade. Ri. Ela se jogou na cadeira ao meu lado. — Tá lotado lá fora. Lotado mesmo. A fila tava virando a esquina. — Isso é bom. — Isso é ótimo. Ela parecia mais animada do que eu. Como sempre. Conversamos por alguns minutos. Sobre faculdade. Sobre trabalho. Sobre qualquer coisa. Até que alguém chamou ela. — Eu vou pro camarote. Mas depois eu volto. — Claro. — E arrasa lá em cima. — Sempre. Ela apontou para mim. — Gostei da confiança. — Eu também. Larissa gargalhou antes de sair. Pouco tempo depois chegou minha vez. Respirei fundo. Ajustei os fones. E subi. A energia me atingiu imediatamente. Luzes. Música. Gente. Gritos. Movimento. Era exatamente ali que eu me sentia viva. Peguei o microfone. Cumprimentei o público. Agradeci a presença. E comecei. A primeira música entrou. A pista respondeu. A segunda veio ainda mais forte. Depois a terceira. E quando percebi já estava completamente conectada ao público. Aquele era o meu lugar. Sempre seria. As pessoas pulavam. Cantavam. Filmavam. Sorriam. E eu comandava tudo dali de cima. Foi durante uma transição que meus olhos subiram para os camarotes. Um hábito. Eu sempre gostava de observar o ambiente. Ver as reações. Sentir a energia. E foi aí que eu vi. Larissa. Ela estava sorrindo. Dançando. Falando com algumas pessoas. Mas não foi ela que chamou minha atenção. Foi quem estava ao lado dela. Nilo. Meu coração tropeçou. Instantaneamente. Como sempre. Ele estava apoiado na grade do camarote. Observando. Sério. Calmo. E olhando diretamente para mim. Droga. Ao lado dele estava outro rosto conhecido. Olhos verdes. Postura tranquila. Betinho. A mesma sensação estranha voltou. Aquela familiaridade sem explicação. Aquela impressão de que existia alguma coisa ali que eu ainda não entendia. Mas não tive tempo para pensar. A música exigia minha atenção. E eu voltei para o trabalho. As duas horas seguintes passaram voando. Música atrás de música. Energia lá em cima. A pista completamente entregue. E, por mais que eu tentasse focar apenas no show... De vez em quando meus olhos voltavam para aquele camarote. E quase sempre encontravam os dele. Como se ele estivesse fazendo exatamente a mesma coisa. Quando meu horário terminou, agradeci ao público. Recebi os aplausos. Sorri. Me despedi. E deixei espaço para o próximo DJ. Assim que desci, Lucas apareceu. — Mandou bem. — Eu sei. — Humilde. — Sempre. Ele riu. Começamos a recolher algumas coisas. Até que ele perguntou: — Vai ficar? Pensei por dois segundos. Talvez três. — Acho que não. Tô cansada. Vamos embora. Lucas assentiu. — Beleza. Vou pegar os equipamentos. Ele saiu. E eu realmente achei que iria embora. Até ouvir uma voz conhecida atrás de mim. — Nem pensar. Virei. Larissa. De novo. — Vamos pro camarote. — Larissa... — Não. — Eu tô cansada. — Não me importa. — Você é muito mandona. — Aprendi com meu irmão. Revirei os olhos. — Só um pouco. Ela insistiu. — Dez minutos. Suspirei. — Cinco. — Fechado. Mentira. Nós duas sabíamos que não seriam cinco. Quando Lucas voltou, expliquei rapidamente. Ele deu de ombros. — Vai lá. Eu termino aqui. E então fui arrastada por Larissa. Literalmente. Subimos as escadas do camarote. E meu coração começou a acelerar. Porque eu sabia quem estava lá. Sabia perfeitamente. Quando chegamos, Larissa abriu os braços. — Gente! Olha quem eu trouxe. Meu Deus. Ela era completamente s*******o. Algumas pessoas sorriram. Cumprimentaram. E então ela me puxou para frente. — Stef. Esse é meu irmão chato. Meu olhar encontrou o dele. Nilo. Por um segundo ninguém falou nada. Então eu sorri. Pequeno. Controlado. Ele respondeu com um sorriso de canto. Aquele sorriso perigoso. — Prazer. Falei. — O prazer é meu. Ele respondeu. Mentiroso. Nós dois sabíamos. Mas Larissa não. Graças a Deus. — E esse aqui é o Betinho. O melhor amigo do meu irmão. Betinho estendeu a mão. — Prazer. Segurei sua mão. E imediatamente aquela sensação voltou. Estranha. Familiar. Difícil de explicar. Ele pareceu sentir alguma coisa também. Porque me observou por um segundo a mais. Mas então soltou minha mão. E tudo voltou ao normal. Ou quase. Porque Nilo continuava me olhando. E eu continuava percebendo. Larissa me puxou novamente. — Chega de apresentação. Vem. Ela colocou um copo de bebida na minha mão. — Vamos dançar. — Eu não vim pra isso. — Agora veio. Comecei a rir. Era impossível discutir com ela. Poucos segundos depois estávamos no meio do camarote. Dançando. Conversando. Rindo. E eu realmente tentei relaxar. Tentei aproveitar. Tentei esquecer. Mas era difícil. Porque, mesmo rodeada de pessoas... Mesmo ouvindo música... Mesmo conversando com Larissa... Eu continuava sentindo. A presença dele. Como uma corrente invisível. E toda vez que eu olhava para o outro lado do camarote... Os olhos de Nilo estavam em mim. Observando. Calmos. Intensos. Perigosamente atentos. E alguma coisa me dizia que aquela noite ainda estava longe de terminar.
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