A caminhada da pequena rodoviária até a casa de sua família não era longa, mas naquela noite pareceu carregar um peso diferente, como se cada passo de Lívia pelas ruas silenciosas de Vale das Brumas despertasse memórias adormecidas que ela não tinha certeza se queria reviver. O ar estava mais frio do que ela se lembrava, e a neblina que se espalhava lentamente entre as casas tornava os contornos da cidade mais suaves e indistintos, como se o lugar estivesse envolto em um véu que escondia algo antigo sob sua superfície aparentemente tranquila.
Lívia ajustou a alça da mochila sobre o ombro e continuou caminhando pela rua principal, passando diante das mesmas fachadas de madeira que haviam feito parte de sua infância. Havia algo reconfortante na familiaridade daquelas construções, mas ao mesmo tempo existia uma sensação sutil de estranhamento, como se a cidade tivesse permanecido quase igual enquanto ela própria mudara demais para se encaixar perfeitamente ali novamente.
Algumas janelas ainda estavam iluminadas, revelando fragmentos de vidas comuns acontecendo atrás das cortinas: pessoas conversando à mesa, uma televisão ligada em algum canto da sala, uma criança correndo pelo corredor de uma casa próxima. Era o tipo de rotina simples que sempre definira Vale das Brumas, um lugar onde quase todos se conheciam pelo nome e onde as histórias se espalhavam mais rápido do que o vento que descia das colinas.
No entanto, enquanto caminhava, Lívia não conseguiu deixar de notar que a cidade parecia mais quieta do que deveria estar naquela hora. Não havia risadas ecoando das varandas, nem grupos de vizinhos conversando nas calçadas como costumava acontecer nas noites mais quentes. Em vez disso, havia apenas o som distante de um cachorro latindo em algum lugar da vila e o leve farfalhar das árvores quando o vento passava entre os galhos.
Ela dobrou a esquina da rua onde crescera e parou por um instante.
Ali estava.
A casa.
Era exatamente como ela lembrava: uma construção simples de dois andares, pintada de um tom claro que agora parecia ligeiramente desbotado pelo tempo, com uma varanda estreita na frente e um pequeno jardim que sua mãe sempre cuidara com uma dedicação quase obsessiva. Mesmo àquela hora da noite, Lívia conseguiu ver as formas escuras das roseiras alinhadas perto da cerca, suas sombras se misturando com a neblina que se arrastava lentamente pelo chão.
Uma luz amarela brilhava na janela da sala.
Helena estava acordada.
Lívia sentiu algo apertar levemente seu peito, uma mistura de saudade e nervosismo que ela não esperava sentir com tanta intensidade. Durante os anos em que vivera longe dali, suas visitas haviam se tornado cada vez mais raras, sempre adiadas por provas, trabalhos da universidade ou qualquer outra desculpa que lhe permitisse permanecer distante por mais um tempo.
Agora, porém, não havia mais como adiar.
Ela abriu o pequeno portão de madeira que rangia da mesma maneira que sempre rangera e caminhou pelo curto caminho de pedras que levava até a porta da frente. Cada passo parecia ecoar mais alto do que deveria na quietude da noite.
Antes que pudesse bater, porém, a porta se abriu.
Helena Andrade apareceu no batente com uma expressão que misturava surpresa e alegria, como se tivesse estado esperando por aquele momento desde que a filha anunciara sua visita.
Por um segundo, as duas apenas se olharam.
Helena parecia exatamente como Lívia se lembrava: os cabelos escuros presos de maneira prática atrás da cabeça, algumas mechas grisalhas começando a surgir discretamente nas laterais, e aquele olhar firme que sempre transmitira uma combinação de força e carinho. O uniforme de enfermeira ainda estava visível sob o casaco leve que ela vestia, sugerindo que provavelmente acabara de voltar do hospital da cidade.
Então o rosto dela se iluminou completamente.
— Lívia! — exclamou, avançando para abraçar a filha com força.
O abraço foi imediato e apertado, cheio de uma emoção que nenhuma das duas tentou esconder. Por um momento, Lívia se permitiu relaxar completamente nos braços da mãe, sentindo o calor familiar daquele gesto que durante anos havia representado segurança e p******o.
— Pensei que você chegaria só amanhã de manhã — disse Helena quando finalmente se afastaram um pouco, ainda segurando os ombros da filha enquanto a observava como se estivesse tentando recuperar o tempo perdido. — Você está mais magra… e seu cabelo está maior.
Lívia sorriu, um sorriso genuíno que surgiu sem esforço.
— Universidade faz isso com as pessoas — respondeu ela, com um leve tom de brincadeira.
Helena balançou a cabeça, ainda sorrindo, e deu um passo para o lado.
— Entre, está frio aí fora.
Assim que atravessou a porta, Lívia foi envolvida por um cheiro familiar de café recém-passado misturado com algo doce que provavelmente havia sido preparado mais cedo naquela noite. A sala parecia exatamente como ela se lembrava: o mesmo sofá gasto perto da janela, a estante cheia de livros antigos e fotografias da família espalhadas pelas prateleiras.
Por um instante, foi como se o tempo tivesse voltado alguns anos.
Mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, um som rápido de passos ecoou pelo corredor.
— Ela chegou?!
A voz animada surgiu um segundo antes de Rafael aparecer correndo na sala.
O irmão mais novo de Lívia havia crescido mais do que ela esperava. Aos quinze anos, ele já estava quase tão alto quanto ela, com os mesmos cabelos castanhos da família e um olhar curioso que parecia estar sempre procurando algo interessante ao redor.
— Lívia! — disse ele, abrindo um sorriso enorme.
Antes que ela pudesse reagir, Rafael a envolveu em um abraço rápido e meio desajeitado, típico de alguém que ainda estava tentando decidir se já era adulto demais para demonstrações abertas de afeto.
Lívia riu, abraçando-o de volta.
— Você cresceu muito — comentou ela, observando-o com surpresa genuína. — Daqui a pouco vai estar mais alto que eu.
— Já estou quase — respondeu ele com orgulho.
Helena observava a cena encostada na porta da cozinha, com uma expressão satisfeita que só uma mãe poderia ter ao ver os filhos juntos novamente depois de tanto tempo.
Por alguns minutos, os três permaneceram ali conversando, trocando pequenas histórias sobre o último ano e rindo de detalhes cotidianos que, naquele momento, pareciam extremamente importantes.
Parecia um reencontro simples.
Normal.
Mas em algum momento da conversa, Rafael mencionou algo que fez o ambiente mudar quase imperceptivelmente.
— Ah, você chegou bem na hora — disse ele, sentando-se no braço do sofá. — Tem umas coisas estranhas acontecendo na cidade ultimamente.
Helena lançou um olhar rápido para o filho.
— Rafael…
Mas o garoto já estava empolgado demais para parar.
— Algumas pessoas dizem que viram uma casa lá na colina outra vez.
Lívia sentiu uma leve tensão percorrer seu corpo.
— Casa? — perguntou, tentando manter o tom casual.
Rafael assentiu, os olhos brilhando com entusiasmo.
— Aquela casa velha que aparece na neblina. Todo mundo na escola está falando disso.
Helena suspirou baixinho, passando a mão pela testa.
— São só histórias, Lívia. Você sabe como as pessoas daqui gostam de inventar coisas.
Mas Rafael balançou a cabeça.
— Não é invenção. Ontem mesmo o pai do Lucas disse que viu luz acesa lá em cima.
Por um instante, o silêncio tomou conta da sala.
Lívia lembrou imediatamente da silhueta que havia visto na colina quando chegou à cidade.
A casa.
Ou pelo menos algo que parecia uma casa.
Ela não disse nada, mas sentiu um leve arrepio subir lentamente por sua espinha.
Do lado de fora, a neblina continuava a se espalhar pelas ruas silenciosas de Vale das Brumas.
E em algum lugar além da colina escura, escondida entre as árvores antigas da floresta, algo parecia observar a pequena casa onde Lívia agora se encontrava.
Algo que já sabia que ela havia voltado.
E que, muito em breve, começaria a chamá-la.