Capítulo 18

1125 Palavras
A neblina daquela manhã parecia diferente. Não era a neblina comum que subia da colina nos dias frios; era densa, quase viscosa, como se carregasse algo vivo dentro dela. Lívia e Daniel observavam do topo da estrada que levava à cidade, sentindo um arrepio percorrer toda a espinha. A colina parecia pulsar, e mesmo à distância, eles podiam ver sombras estranhas se contorcendo entre as árvores, como se a própria terra respirasse. — Olhe para isso — disse Daniel, a voz baixa, cheia de tensão. — Não é normal. A cidade nunca teve esse tipo de neblina. Lívia engoliu em seco, sentindo o coração acelerar. — É a casa… a maldição… algo dela está saindo. Não apenas para nós, mas para a cidade inteira. Enquanto caminhavam pelas ruas vazias da manhã, perceberam pequenas alterações sutis, mas perturbadoras. Objetos pareciam ter se movido sozinhos, portas que estavam fechadas na noite anterior estavam agora abertas, e sussurros quase inaudíveis ecoavam entre as paredes das casas, carregando uma sensação de urgência e medo. — Você está ouvindo isso? — perguntou Daniel, inclinando-se para ouvir melhor. — Sim — respondeu Lívia, a voz quase um sussurro — mas não sei de onde vem. Parece estar… em toda parte. Eles continuaram andando pela cidade, e os efeitos da maldição da colina se tornavam cada vez mais claros. Um cachorro latiu freneticamente para a direção da colina, mas ninguém estava lá. Vizinhos apareceram nas portas, com expressões de medo confuso, murmurando palavras desconexas, alguns olhando para cima como se esperassem algo. Em uma pequena praça, Lívia e Daniel viram uma família que parecia imóvel, quase petrificada, os olhos fixos na colina. O vento frio trouxe consigo palavras quase inteligíveis, sussurros de alguém que parecia chamar nomes de forma melancólica e insistente. — É… — murmurou Daniel, com a mão na boca para tentar abafar o tremor — a casa… está falando com eles também. Lívia observou mais atentamente e percebeu que os símbolos que haviam visto nos diários e no mapa antigo começavam a se manifestar de forma mais sutil na cidade. Pedras no chão, rachaduras nas paredes, padrões de folhas e galhos — tudo parecia reproduzir os sinais da colina, como se a própria cidade estivesse se tornando uma extensão da casa, cada detalhe conectando-se à consciência viva que haviam encontrado no sótão. Enquanto caminhavam pelas ruas estreitas, começaram a ver pessoas desaparecendo. Não era rápido, não era violento. Era silencioso, quase imperceptível, mas inevitável. Um homem idoso, que havia saído para passear com seu cachorro, simplesmente desapareceu enquanto cruzava a rua, e o cão uivou sozinho, correndo em círculos antes de fugir. — Meu Deus… — disse Daniel, segurando a mão de Lívia. — Não é apenas aqui… é a cidade inteira. Está se espalhando. Lívia respirou fundo, tentando manter a mente focada. — Precisamos encontrar a origem disso, Daniel. Se a maldição se expandir para toda a cidade, não haverá como contê-la. Enquanto isso, pequenos fenômenos se tornavam mais evidentes. Luzes acendendo e apagando sozinhas, portas se fechando sem vento, objetos que se moviam como se tivessem vontade própria. E mais que tudo, os sussurros: nomes sendo chamados, palavras em línguas antigas, gritos abafados de crianças e adultos que há muito haviam desaparecido ou morrido. — É como se a cidade estivesse presa na colina — disse Daniel, a voz quase trêmula — tudo está ligado à casa. Cada sombra, cada vento, cada objeto. Lívia assentiu, sentindo uma tensão crescente, o medo se misturando à determinação. — Precisamos voltar à colina. Precisamos entender o que a casa quer, antes que seja tarde demais. Mas enquanto caminhavam de volta, perceberam que a colina parecia maior, mais imponente, como se tivesse crescido durante a noite. A neblina subia das árvores e das pedras, envolvendo cada passo deles, e a sensação de ser observados se intensificava. Cada som parecia amplificado: o estalo de uma tábua, o farfalhar de folhas, o grito distante de alguém desaparecendo. Ao se aproximarem novamente da estrada que levava à colina, ouviram o primeiro fenômeno realmente assustador. Uma figura pequena, quase indistinta, surgiu na névoa. Seus movimentos eram erráticos, como se não estivesse totalmente presa à realidade, e sua presença trazia consigo uma sensação de frio, de desespero e de alerta absoluto. — Lívia… — disse Daniel, com os olhos arregalados — o que… quem é isso? — Não sei… mas é real… — respondeu ela, sentindo o coração acelerar — é uma das memórias presas da casa, ou… uma manifestação dela fora da colina. A figura desapareceu tão rapidamente quanto surgiu, deixando um rastro de ar gelado e um eco de sussurros que se espalhou pela cidade como uma onda. Eles correram os últimos metros até a base da colina, sentindo a presença da casa pulsando, respirando, viva, consciente. — Temos que subir de novo — disse Lívia, com uma mistura de determinação e medo — a cidade está em perigo. Cada hora que passamos fora da casa, cada pessoa na cidade… está sendo afetada. Daniel olhou para ela, o terror estampado no rosto. — Mas… a última vez que subimos… você viu o que aconteceu lá dentro. Não sei se consigo suportar outra vez. — Então não podemos fugir — respondeu ela firmemente — não podemos ser apenas espectadores. A maldição não é só nossa, Daniel. É de todos. E se não fizermos algo, a cidade inteira… vai se perder. Enquanto subiam lentamente a colina, cada passo parecia um esforço monumental. A neblina se tornava cada vez mais densa, envolvendo-os, quase sufocando-os. O vento frio carregava sussurros, lembranças, gritos e risadas distorcidas. Cada pedra parecia pulsar com energia viva, e a própria colina parecia guiá-los, abrindo caminhos impossíveis, revelando corredores que não existiam na realidade, como se estivesse moldando a subida deles, manipulando cada movimento, cada pensamento, cada medo. Ao chegarem à porta da casa, Lívia sentiu a presença da boneca mais intensa do que nunca. Os olhos de vidro pareciam brilhar com vida própria, e uma sensação de expectativa e julgamento tomou conta do sótão. Cada corredor, cada sombra, cada objeto dentro da casa estava pronto para reagir, como se soubessem que os protagonistas haviam levado a consciência da colina para o mundo real, espalhando seu terror pela cidade inteira. — Estamos prontos — disse Lívia, respirando fundo, os olhos fixos na porta que rangia suavemente — vamos enfrentar isso… e descobrir como impedir que a colina devore tudo. E naquele instante, enquanto cruzavam o limiar da casa, a cidade abaixo parecia esperar, suspensa em silêncio e medo, sabendo que o coração da maldição havia despertado completamente, e que os próximos eventos seriam uma batalha de resistência, coragem e sobrevivência que testaria limites físicos, psicológicos e emocionais de todos que ousassem enfrentar a colina.
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