Capítulo 15

1037 Palavras
A manhã parecia comum, mas para Lívia, cada momento estava impregnado da sensação de que a casa ainda a observava, que a colina respirava com ela, que os corredores impossíveis e os sussurros continuavam presentes mesmo à distância. Ela olhou para Daniel sentado à mesa, os olhos fixos no café que não parecia existir realmente, o corpo ainda tenso, como se cada fibra estivesse pronta para correr novamente. — Daniel… — começou Lívia, hesitante, a voz baixa, carregada de uma determinação que ela mesma não sabia que possuía. — Nós precisamos… voltar. Ele a olhou, incrédulo, franzindo o cenho. — Voltar? — repetiu, a incredulidade misturada com medo evidente. — Você está louca? Depois do que aconteceu… eu nunca mais entro naquela casa! Ela engoliu em seco, mas manteve o olhar firme. Cada célula do seu corpo tremia, não de medo, mas de uma urgência inexplicável. — Eu sei que você está com medo — disse ela, a voz suave, mas firme — mas a casa não vai nos deixar em paz até que entendamos… até que saibamos o que quer de nós. Não é apenas sobre nós. É sobre tudo… tudo o que está ligado à colina. Daniel respirou fundo, a mão tremendo enquanto segurava a xícara de café. Cada palavra dela parecia pesar toneladas, cada sílaba carregando uma urgência silenciosa que ele não podia ignorar. Ele sabia que ela tinha razão, mas a simples ideia de voltar àquela casa, entrar novamente pelos corredores que se estendiam sem fim, ouvir os sussurros e sentir os olhares da boneca, era quase insuportável. — Lívia… — disse ele finalmente, a voz baixa, quase um sussurro — Eu não sei se consigo… — Eu também não sei se consigo — respondeu ela, aproximando-se e segurando sua mão — Mas não temos escolha. Se não formos agora, o que quer que esteja lá dentro vai continuar a nos perseguir. Vai crescer, vai se infiltrar em cada canto da nossa vida. A única maneira de terminar isso é enfrentar. Houve um longo silêncio. Daniel sentiu o peso da decisão esmagá-lo, mas olhou para Lívia, viu a determinação em seus olhos, sentiu a urgência em sua voz, e soube que não poderia deixá-la ir sozinha. — Está bem — disse finalmente — Mas se algo acontecer… — Ele engoliu, incapaz de completar a frase. — Se algo acontecer, eu não vou perdoar a mim mesmo. — Eu sei — respondeu Lívia — Mas precisamos. Não podemos fugir para sempre. O clima estava pesado, cada segundo carregado de tensão, como se o próprio ar à sua volta estivesse atento, observando, esperando. Eles se prepararam, reunindo lanternas, cordas, e tudo que poderia ajudá-los caso a casa tentasse prendê-los novamente. Cada objeto parecia ganhar um peso simbólico, cada ferramenta uma promessa silenciosa de sobrevivência. O caminho até a colina parecia mais longo desta vez. Cada passo era acompanhado pelo vento frio que carregava o eco da colina, pelo farfalhar de folhas que soava como sussurros chamando seus nomes. Cada sombra projetada pelo luar parecia alongar-se, distorcendo-se, lembrando-lhes dos corredores intermináveis, das portas que surgiam do nada, da boneca imóvel mas consciente. Quando chegaram ao portão da casa, a atmosfera mudou. O ar tornou-se mais denso, carregado de algo antigo, profundo, invisível, mas impossível de ignorar. Daniel apertou a mão de Lívia com força, cada músculo tenso, os olhos fixos na entrada da casa que parecia os encarar, viva, respirando, aguardando. — Está pronta? — ele perguntou, a voz trêmula. — Estou — respondeu Lívia, e, pela primeira vez, sentiu que a determinação superava o medo. Eles entraram. A porta rangeu lentamente, como se a própria casa os saudasse. O corredor à frente parecia igual, mas diferente. As paredes respiravam, pulsavam, e cada sombra parecia estar em movimento, mesmo que nenhum objeto se mexesse. O ar estava frio, pesado, quase sólido, carregado de memórias de todos os que já estiveram ali. A boneca estava na sala principal, imóvel, mas com os olhos refletindo a luz das lanternas, observando-os, como se medisse cada pensamento, cada emoção. Cada passo dado parecia ecoar na mente, reverberando em cada fibra do corpo. O terror não era apenas físico; era psicológico, emocional, absoluto. — Precisamos seguir até o sótão — disse Lívia, a voz firme — É lá que tudo começou. É lá que vamos entender. O caminho até o sótão era tortuoso, cheio de corredores que se alongavam mais do que deveriam, portas que surgiam inesperadamente, quadros cujos olhos pareciam seguir cada movimento deles. Cada estalo do assoalho ecoava como um grito, cada sombra parecia conter vida própria, e os sussurros não paravam, chamando nomes antigos, histórias esquecidas, lembranças enterradas. Quando alcançaram o sótão, a presença da casa atingiu seu ápice. A boneca estava lá, imóvel, mas de alguma forma viva, no centro de uma sala que parecia pulsar, respirando, respirando em uníssono com eles. Velhos móveis, fotos antigas, objetos de infância desconhecida, tudo emanava uma energia ancestral. E então, Lívia percebeu algo que jamais esqueceria: inscrições nas paredes, símbolos antigos, nomes que ecoavam histórias da colina, de quem construiu a casa, de como a própria terra havia sido amaldiçoada. — Daniel… — murmurou ela — Agora eu sei… tudo começa aqui. E naquele instante, os sussurros cessaram, substituídos por um silêncio absoluto, pesado, como se a própria casa estivesse prendendo a respiração, observando-os, aguardando cada passo, cada decisão, cada pensamento. Lívia sabia, com absoluta clareza, que estavam prestes a descobrir os segredos mais profundos da casa, a verdade por trás da colina, e a razão pela qual a casa os chamava, por que a boneca os seguia, por que os corredores existiam para confundir e prender, por que cada memória perdida de infância estava de alguma forma ligada àquela presença antiga, consciente e implacável. Eles estavam no limiar do desconhecido. A casa, viva, respirava, silenciosa, ameaçadora. E, embora o medo fosse intenso, a determinação de Lívia era ainda maior. Ela estava pronta para enfrentar a verdade, não importa quão aterradora fosse, não importava quanto terror a esperasse. O sótão, com sua escuridão viva, cheia de memórias e segredos, aguardava. E a boneca… silenciosa, imóvel, consciente, observava. O momento da revelação da colina, do coração da casa, havia finalmente chegado.
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