Lívia manteve a mão apertada no braço de Daniel enquanto ambos permaneciam no topo da escada. A lanterna do celular iluminava o primeiro lance de degraus e parte do corredor do andar de baixo, mas a luz não era forte o suficiente para alcançar todos os cantos da casa. O restante permanecia mergulhado em sombras profundas, como se a própria escuridão tivesse peso.
Por alguns segundos, nenhum dos dois se moveu.
O silêncio parecia tão intenso que qualquer respiração soava alta demais.
Daniel deu mais um passo em direção à escada. A madeira rangeu sob seu peso, o som ecoando pela casa inteira de uma maneira desconfortável. Lívia teve a impressão de que aquele ruído viajou pelos corredores como um aviso.
Ele desceu o primeiro degrau devagar.
Depois outro.
Lívia o seguiu, tentando colocar os pés exatamente nos mesmos pontos para evitar fazer mais barulho do que o necessário. Mesmo assim, cada movimento produzia um rangido longo e seco.
Quando chegaram ao final da escada, Daniel apontou a lanterna para o corredor.
Nada.
A porta de entrada continuava entreaberta, deixando entrar uma faixa fina de luz do lado de fora. O restante da casa permanecia imóvel.
— Talvez tenha sido só o vento — murmurou Lívia, embora nem ela mesma acreditasse muito naquilo.
Daniel não respondeu.
Ele caminhou lentamente pelo corredor, iluminando o chão com a lanterna. A camada de poeira ainda mostrava claramente as pegadas que haviam seguido até a escada. Porém havia algo estranho agora.
Daniel parou de repente.
— Lívia… olha isso.
Ela se aproximou.
A luz da lanterna revelou algo que não estava ali antes.
Novas marcas na poeira.
Pegadas.
Mas não eram as mesmas que haviam seguido antes.
Essas estavam indo na direção oposta.
Lívia franziu a testa.
— Isso… não estava aqui quando entramos.
Daniel balançou a cabeça lentamente.
— Não estava.
As marcas eram diferentes das anteriores. Pareciam mais leves, menos definidas, como se quem tivesse passado por ali estivesse se movendo com cuidado ou lentamente.
Mas havia algo ainda mais estranho.
Elas não pareciam sapatos.
Pareciam… pés descalços.
Lívia sentiu um arrepio percorrer suas costas.
— Talvez seja de alguém que entrou depois da gente.
Daniel continuava observando o chão.
— Como alguém entraria sem fazer barulho?
Ela não soube responder.
Eles começaram a seguir o novo rastro pelo corredor. As pegadas levavam em direção a um dos quartos do andar de baixo — um que eles não tinham explorado da última vez.
A porta estava aberta apenas alguns centímetros.
Daniel empurrou devagar.
O quarto era pequeno, talvez um antigo escritório. Havia uma mesa antiga encostada na parede, coberta por papéis amarelados e poeira. Uma estante inclinada ocupava um canto, cheia de livros antigos que pareciam não ter sido tocados por anos.
Mas o que realmente chamou a atenção de Lívia foi o chão.
As pegadas terminavam ali.
Bem no centro do quarto.
Como se alguém tivesse parado naquele ponto… e simplesmente desaparecido.
Daniel iluminou o local com a lanterna por alguns segundos.
— Isso não faz sentido.
Lívia concordou em silêncio.
Não havia outra porta.
Não havia janela aberta.
Não havia nenhuma passagem visível.
Mesmo assim, as marcas paravam ali.
Daniel passou a luz da lanterna lentamente pelas paredes. O papel de parede estava rasgado em vários pontos, revelando a madeira antiga por baixo. O teto tinha manchas de umidade que formavam desenhos irregulares.
Então ele iluminou a estante de livros.
Por um instante, algo pareceu se mover.
Daniel aproximou a luz.
Era apenas um livro caindo lentamente de lado.
Ele deve ter sido empurrado por algum pequeno movimento ou vibração.
Mesmo assim, o som do livro tocando a madeira foi alto demais naquele silêncio.
Lívia deu um passo para trás.
— Eu não gosto disso.
Daniel estava prestes a responder quando um novo som ecoou pela casa.
Desta vez não foi um rangido.
Foi algo diferente.
Um sussurro.
Muito baixo.
Quase como o som do vento passando por uma fresta.
Mas não havia vento.
E o som parecia vir de dentro da casa.
Lívia virou o rosto lentamente.
— Você ouviu?
Daniel assentiu.
O sussurro veio novamente.
Desta vez parecia mais próximo.
Não eram palavras claras.
Mas havia um ritmo estranho naquele som, como se várias vozes estivessem falando ao mesmo tempo em um tom muito baixo.
Lívia sentiu o coração acelerar.
— São os mesmos sons da outra vez.
Daniel desligou a lanterna por um segundo novamente, tentando ouvir melhor.
O sussurro continuava.
Parecia vir das paredes.
Do teto.
Do chão.
Como se a própria casa estivesse murmurando algo que eles não conseguiam entender.
Lívia começou a sentir a mesma sensação inquietante que havia experimentado antes: a impressão de que o espaço ao redor deles estava mudando de alguma forma.
— Daniel… — ela disse baixinho.
— Eu sei.
Eles saíram lentamente do quarto.
O corredor parecia mais longo agora.
Muito mais longo.
A porta de entrada, que antes estava a poucos passos de distância, parecia estranhamente distante.
Daniel apontou a lanterna naquela direção.
A faixa de luz do lado de fora ainda estava lá.
Mas algo estava diferente.
A porta…
estava se movendo.
Muito devagar.
Como se estivesse sendo empurrada por alguém do lado de fora.
Ou puxada por algo do lado de dentro.
Lívia prendeu a respiração.
O sussurro nas paredes ficou mais forte naquele momento.
Daniel apertou o celular com força na mão.
— Vamos sair daqui.
Eles começaram a caminhar rapidamente em direção à porta.
Mas antes que pudessem alcançá-la…
um novo rangido ecoou pela casa.
Vindo de trás deles.
Lento.
Pesado.
Como o som de alguém dando um passo no corredor.
Lívia virou o rosto instintivamente.
A lanterna iluminou o espaço vazio atrás deles.
Mas, por um breve segundo…
ela teve a nítida impressão de que havia visto uma silhueta parada no final do corredor.
Observando.
E quando piscou…
não havia mais ninguém ali.
***
Lívia piscou várias vezes, tentando convencer a si mesma de que aquilo tinha sido apenas um jogo de luz e sombra. O coração batia tão forte que ela conseguia sentir o pulso latejando no pescoço.
— Daniel… — sua voz saiu quase como um sopro.
Ele ainda mantinha a lanterna apontada para o fundo do corredor.
— O quê?
— Eu achei que tinha alguém ali.
Daniel não respondeu imediatamente. Ele continuou olhando para o mesmo ponto por alguns segundos, como se estivesse esperando que algo voltasse a aparecer.
Mas o corredor continuava vazio.
Apenas as paredes antigas, o chão coberto de poeira e as portas abertas para quartos silenciosos.
— Eu também pensei ter visto alguma coisa — disse ele finalmente, em voz baixa.
Isso não ajudou em nada a acalmar Lívia.
O sussurro nas paredes parecia mais presente agora. Ainda era impossível distinguir palavras, mas o som tinha um ritmo estranho, quase como uma conversa distante que acontecia atrás de uma parede muito grossa.
Lívia tentou ignorar aquilo.
— Vamos sair daqui agora — disse ela, com mais firmeza.
Daniel assentiu.
Eles voltaram a caminhar em direção à porta de entrada, agora com passos mais rápidos. O chão de madeira protestava sob seus pés, os rangidos ecoando pela casa de maneira irregular.
A cada passo, Lívia tinha a impressão de que os sussurros aumentavam.
Ou talvez fosse apenas sua imaginação tentando preencher o silêncio.
Quando chegaram a poucos metros da porta, Daniel parou de repente.
— Espera.
Lívia quase esbarrou nele.
— O que foi agora?
Ele apontou a lanterna para o chão.
Lívia seguiu a luz com os olhos.
As pegadas.
As mesmas que eles haviam visto antes.
Mas agora havia algo novo.
Algumas delas estavam mudando de forma.
Não era exatamente que estavam desaparecendo… era mais como se a poeira ao redor estivesse sendo lentamente arrastada.
Como se algo estivesse passando por ali naquele exato momento.
Lívia sentiu o estômago se contrair.
— Daniel…
Ele também parecia tenso.
A luz da lanterna tremia levemente em sua mão.
— Isso não é possível — murmurou.
Uma das marcas no chão se alterou novamente.
Muito devagar.
A poeira deslizou alguns milímetros.
Como se um pé invisível tivesse acabado de pressionar aquele ponto.
Lívia deu um passo para trás imediatamente.
— Não… não… vamos embora.
Daniel não discutiu.
Eles começaram a se mover mais rápido em direção à porta.
Mas antes que conseguissem alcançá-la, o sussurro nas paredes mudou.
Até aquele momento, era apenas um murmúrio confuso.
Agora parecia diferente.
Mais claro.
Mais próximo.
Por um segundo, Lívia teve a sensação de que algo estava tentando formar palavras.
Ela parou sem perceber.
— Você ouviu isso?
Daniel virou o rosto para ela.
— Ouvi.
O som veio novamente.
Muito baixo.
Mas desta vez havia algo reconhecível nele.
Uma sílaba.
Talvez um nome.
Ou talvez apenas o eco da imaginação deles.
Lívia não conseguiu distinguir exatamente o que era.
Mas teve certeza de uma coisa.
Os sussurros estavam vindo de trás deles.
Lentamente, ela virou a cabeça.
O corredor continuava vazio.
Mas a sensação de presença ali era inegável.
Daniel segurou o braço dela com firmeza.
— Não olha para trás. Só vamos sair.
Eles deram mais alguns passos.
A porta agora estava a menos de dois metros.
A luz do lado de fora parecia quase brilhante depois da penumbra da casa.
Lívia já conseguia sentir o ar mais fresco da tarde entrando pela a******a.
Então algo aconteceu.
Um barulho seco ecoou pela casa.
Alto.
Repentino.
A porta de um dos quartos bateu com força.
O impacto fez a madeira vibrar.
Lívia deu um pequeno grito involuntário.
Daniel virou a lanterna naquela direção imediatamente.
A porta estava agora completamente fechada.
Mas os dois sabiam que ela estava aberta antes.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Pesado demais.
E então…
um novo som surgiu.
Desta vez não era um sussurro.
Nem um rangido.
Era um passo.
Claro.
Inconfundível.
Atrás deles.
Muito próximo.
Lívia sentiu o corpo inteiro congelar.
Daniel girou a lanterna rapidamente.
A luz atravessou o corredor.
Iluminou as paredes.
As portas.
O chão.
Mas não havia ninguém ali.
Mesmo assim…
o chão rangia novamente.
Como se alguém estivesse caminhando devagar.
Exatamente na direção deles.
Daniel apertou o braço de Lívia.
— Corre.
Eles avançaram quase tropeçando em direção à porta.
Lívia sentiu o ar da tarde bater no rosto quando atravessou a entrada da casa. Daniel saiu logo atrás dela, e os dois desceram rapidamente os degraus da varanda.
Somente quando chegaram ao chão de terra diante da casa é que pararam.
Ambos respiravam com dificuldade.
Lívia virou-se lentamente para olhar para a casa.
A porta continuava aberta.
Silenciosa.
Imóvel.
Como se nada tivesse acontecido.
Mas naquele momento, uma sensação estranha surgiu dentro dela.
Algo que a fez olhar para a janela do andar de cima.
A mesma janela do quarto onde haviam encontrado o celular de Eduardo.
Por um segundo…
apenas um segundo…
ela teve a impressão de que havia alguém parado ali.
Uma silhueta escura atrás do vidro antigo.
Observando.
Lívia piscou.
E a janela estava vazia novamente.
Ela não disse nada.
Mas no fundo do peito, uma certeza começou a se formar.
Seja o que for que existia naquela casa…
não estava preso lá dentro.
Estava apenas…
esperando.