Capítulo 40

1153 Palavras
Lívia permaneceu alguns segundos olhando para a porta entreaberta, como se estivesse tentando enxergar além da escuridão que se estendia para dentro da casa. A luz do dia iluminava a varanda atrás deles, mas o interior parecia engolir completamente qualquer claridade que tentasse atravessar aquela entrada. Daniel também não se movia. As pegadas na madeira da varanda estavam claras demais para serem ignoradas. A poeira acumulada deixava cada marca perfeitamente visível, como se alguém tivesse passado por ali há muito pouco tempo. E o mais inquietante era que elas seguiam apenas em uma direção: para dentro. Não havia pegadas voltando. Daniel passou a mão pela nuca, observando o chão novamente. — Isso não parece antigo — murmurou. Lívia concordou em silêncio. Aquilo só tornava tudo mais perturbador. Se o vigia realmente tinha subido até ali na madrugada, como Daniel suspeitava, então aquelas marcas provavelmente eram dele. Ela levantou os olhos para a porta mais uma vez. — Você acha que ele entrou mesmo? Daniel respirou fundo antes de responder. — Se entrou… — ele fez uma pausa breve — então talvez ainda esteja aqui. As palavras ficaram suspensas no ar entre os dois. Lívia sentiu um arrepio leve percorrer seus braços. A ideia de que alguém pudesse estar preso dentro daquela casa, talvez ferido ou perdido, fazia o medo se misturar com uma estranha sensação de responsabilidade. Daniel deu um passo em direção à porta. — Espera — disse Lívia rapidamente. Ele parou e olhou para ela. — Tem certeza disso? — perguntou ela. Daniel não respondeu imediatamente. Ele também parecia estar lutando com os próprios pensamentos. — Não — admitiu finalmente. — Mas se alguém entrou aqui e aconteceu alguma coisa, não podemos simplesmente ir embora. Lívia sabia que ele estava certo. Ela não gostava da ideia de entrar novamente naquela casa. Na última vez, tudo tinha sido estranho demais: os sons inexplicáveis, a sensação de que os corredores eram maiores do que deveriam ser, o silêncio pesado que parecia envolver cada parede. Mas agora havia algo diferente. Desta vez, existia uma razão real para entrar. Daniel empurrou a porta lentamente. O rangido da madeira ecoou pela varanda, um som seco e prolongado que pareceu desaparecer dentro da casa como se tivesse sido absorvido pela escuridão. Por alguns segundos, nada aconteceu. O interior continuou completamente silencioso. Daniel tirou o celular do bolso e ligou a lanterna. Um feixe de luz atravessou a entrada e iluminou parte do corredor. O mesmo corredor da última vez. As mesmas paredes antigas. O mesmo chão de madeira. Mas algo parecia diferente. Talvez fosse apenas a tensão do momento, mas Lívia teve a impressão de que o lugar parecia ainda mais vazio do que antes, como se a própria casa estivesse prendendo a respiração. Eles entraram. O ar dentro da casa estava frio, muito mais frio do que lá fora. Havia também um cheiro antigo, uma mistura de madeira envelhecida, poeira e algo mais difícil de identificar. Daniel apontou a luz da lanterna para o chão. — Olha. Lívia se aproximou. As pegadas continuavam ali. Agora eram ainda mais claras. Marcadas na camada fina de poeira que cobria o corredor. E seguiam em linha reta para dentro da casa. — É impossível alguém ter feito isso há muito tempo — disse Daniel em voz baixa. — A poeira teria coberto tudo de novo. Lívia observou o rastro com atenção. As marcas pareciam ligeiramente irregulares, como se quem tivesse caminhado por ali estivesse se movendo depressa ou sem muita firmeza. — Parece que ele estava correndo — comentou ela. Daniel assentiu. — Ou tentando sair. As palavras fizeram o silêncio ao redor parecer ainda mais pesado. Eles começaram a seguir as pegadas pelo corredor. Cada passo fazia o chão de madeira ranger sob seus pés, e o som parecia ecoar mais alto do que deveria. As portas dos quartos ao longo do corredor estavam abertas, exatamente como da última vez. O interior de cada cômodo era um vazio escuro, onde a luz da lanterna m*l conseguia penetrar. Lívia evitava olhar diretamente para dentro deles. Havia algo profundamente desconfortável naqueles espaços. Era como se os quartos fossem muito maiores do que pareciam à primeira vista. Daniel continuava seguindo o rastro no chão. — Ele veio por aqui — disse ele. As pegadas dobravam no final do corredor e seguiam em direção a uma escada que levava ao andar superior. Lívia parou imediatamente. — Ele subiu? Daniel iluminou os degraus com a lanterna. Sim. As marcas continuavam ali. Subindo. A madeira da escada parecia ainda mais antiga do que o resto da casa. Alguns degraus estavam tortos ou ligeiramente quebrados, e o corrimão tinha partes faltando. — Isso não parece seguro — disse Lívia. Daniel observou a escada por alguns segundos. — Talvez ele tenha se escondido lá em cima — disse ele. Lívia não respondeu. Seu olhar estava fixo no topo da escada, onde a luz da lanterna não conseguia alcançar completamente. A escuridão parecia mais densa ali. Mais profunda. Daniel colocou o pé no primeiro degrau. A madeira rangeu alto. Ele parou por um momento, esperando algum tipo de reação da casa. Nada aconteceu. Então ele começou a subir. Lívia o seguiu logo atrás. Cada passo fazia a escada protestar com rangidos longos e irregulares. O som ecoava pela casa de uma forma que fazia parecer que havia mais alguém se movendo junto com eles. Quando chegaram ao topo, Daniel levantou a lanterna. O andar superior era diferente do primeiro. O corredor era mais estreito e o teto mais baixo. Algumas partes da parede estavam rachadas, e a pintura antiga havia descascado em grandes pedaços. As pegadas continuavam ali. E seguiam diretamente para o fundo do corredor. Lívia começou a sentir o coração bater mais forte. Havia apenas uma porta fechada ali. Daniel parou diante dela. Ele olhou para Lívia. — Pronta? Ela não sabia se estava. Mas assentiu. Daniel estendeu a mão e empurrou lentamente a porta. Ela abriu com um rangido longo. A lanterna iluminou o interior do quarto. Era um espaço simples e quase vazio. Um antigo guarda-roupa encostado na parede. Uma cadeira quebrada. E uma janela grande voltada para a cidade. Mas não foi isso que fez Lívia prender a respiração. No chão do quarto… havia algo caído. Daniel deu alguns passos à frente e abaixou a lanterna. Lívia aproximou-se lentamente. Era um objeto. Pequeno. Escuro. Daniel se abaixou e pegou. Quando levantou a mão novamente, a luz da lanterna revelou o que era. Um celular. Daniel virou o aparelho na mão. A tela estava rachada. Mas ainda era possível ver algo gravado na capa. Um nome. Ele olhou para Lívia. — Eduardo Braga. O silêncio que tomou conta do quarto naquele momento parecia pesado demais para o espaço. Se o celular estava ali… então não havia mais dúvidas. Eduardo realmente tinha estado naquela casa. E por algum motivo… ele não tinha conseguido sair.
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