Vanessa indignou-se com as próximas páginas daquele diário. A Condessa simplesmente não voltará a ver o marquês… Ela vivera dias entediantes e monótonos. Reclamava do marido, reclamava de ter que cumprir seus deveres de esposa e reclamava acima de tudo de não ter um bebê. Cada letra escrita naquelas folhas transmitia a dor daquela mulher que era julgada como “ seca ” por não ter gerado mesmo em anos de casamento.
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10 de Fevereiro de 1817
Hoje o dia foi diferente dos últimos tempos, eu me senti aflita em rever o marquês tanto tempo depois do episódio na varanda, mas ele certamente é um cavalheiro e em momento algum fez com que eu me sentisse desconfortável. Que Deus me perdoe por esse pensamento, mas as vezes me pego questionando como seria minha vida se tivesse me casado com um homem como ele …
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Em uma noite fria a alguns bons anos atrás …
- Querida, receberemos visita para o jantar hoje. - Disse Marcos antes de sair andando.
Valentina não teve tempo de perguntar quem seria ou se tinha algum motivo em especial. O marido já não estava mais ali. Ela revirou os olhos, pegou um de seus melhores vestidos e com a ajuda de sua aia se arrumou rapidamente. Não demorou vinte minutos para estar pronta, mas como sempre, estava deslumbrante.
Valentina descia as escadas em passos firmes e decididos, mas falhou quando o viu. O marquês estava ali. Os olhos hora azuis, hora verdes a fitaram atentamente e ela quase tropeçou ali mesmo, mas segurou na parede discretamente e abriu um fraco sorriso.
- Milorde, vossa graça. É um prazer tê-los conosco essa noite. - Falou de forma graciosa enquanto oferecia a mão para o duque, que formalmente levou aos lábios e deu um beijo casto, em seguida o marquês repetiu o gesto e por algum motivo Valentina sentiu-se enfraquecer. Por sorte, a mão firme de Marcos pousou em sua cintura a trazendo de volta a realidade.
- É um prazer estar aqui condessa, é sempre um prazer revê-los. - Disse Henrique de forma cortês. Pensara um milhão de vezes em vir vê-la para saber como ela estava, afinal, a vira prestes a se lançar de uma sacada, mas respeitara a condessa. Era uma mulher casada e antes de tudo, pedira a ele que guardasse segredo sobre o momento e fora isso que fizera.
- Certamente, e ouvimos dizer que vocês tem uma ótima cozinheira. - Brincou o duque arrancando uma risada dos ali presentes.
- Valentina escolhe o cardápio todos os dias e modéstia à parte, minha esposa possui um ótimo gosto. - Falou pomposo, ganhando um olhar astuto da esposa.
Marcos não havia mudado desde aquele dia, ainda era mandão, exigente e frio, mas de repente, na frente daqueles homens decidira elogia-la. Valentina não sabia ao certo o motivo, mas certamente não poderia se importar menos.
Ela abriu um sorriso forçado e pegou a frente, levando-os até a cozinha que exalava o cheiro de longe.
Henrique não conseguia disfarçar, no fundo se preocupara com aquela mulher todos os dias dos últimos meses e sentia uma imensa vontade de perguntar a ela como ia a vida, como estavam as coisas e se o marido havia de fato melhorado ou era apenas um fingimento, visto que na última conversa que tiveram havia lhe puxado a orelha de formas indescritíveis, ainda que isso não fosse de sua conta.
Ele se sentou ao lado do duque e manteve-se a maior parte do tempo calado. O duque e o conde pretendiam fazer alguns negócios dos quais não estava a parte e na verdade, nem mesmo desejava. Henrique voltou toda sua atenção a comida, que realmente, estava divina e era uma das melhores que já havia provado.
Ao fim do jantar, o duque e o conde levantaram-se. Marcos sussurrou algo no ouvido da esposa, ela engoliu em seco e assentiu.
O pedido fora um : “ Faça companhia ao marquês e por Deus, tire a má impressão de péssimo marido que ele criou de mim. ”
- Marquês, seremos breves. Enquanto isso, minha esposa lhe fará companhia. Conte com a condessa pra o que precisar e acima de tudo, sinta-se em sua própria casa.