EPISÓDIO 17

1624 Palavras
— Você é o bode expiatório, Marco é o filho de ouro e Sam é o bebê. Nossa, ela acertou em cheio com isso. — Mas, pelo menos, você os tem. Eu não tenho ninguém. Nunca pensei em como seria minha vida sem os meus irmãos. Eles são uma constante. Eles estão sempre lá. — Você tem o seu pai e Guido. Digo a ela. Ela tem uma família grande. Primos, entre outras pessoas ao seu redor. — O meu pai está no hospital e nem sei se ele ainda está vivo. Além disso, Guido tem muito ciúme de mim e nunca vai conseguir admitir. Mas eu sei, vejo nos seus olhos quando o meu pai me favorece mais do que a ele. Tenho certeza que ele deve adorar. Claro que seria o máximo da humilhação para qualquer homem. — Guido deve assumir o comando e não eu. Então, agora você entende como as coisas podem ficar tensas. Eu não tenho ninguém, Vito. Você deve agradecer a Deus por sua família. Mesmo que eles te deixem louco. É certo. Eu sei o meu lugar na minha família. Eu os tenho e nem imagino o medo que ela deve sentir por não ter ninguém. Percebo que falar de família a incomoda, porque ela se levanta. — Vou fazer o jantar. Ela diz e começa a tirar coisas aleatórias da despensa e da geladeira. Eu a observo, não querendo atrapalhar. Ela está cortando cebola e tem alguma coisa queimando na panela, então eu me levanto para ver se está tudo bem. — Que dia*bos você está fazendo? Peço abaixando o fogo e retirando a panela. Não vejo sentido na mistura que ela está preparando. — Você sabe cozinhar? — Não, eu não sei cozinhar. Mas eu estava tentando. Ela ri, colocando a panela debaixo d'água, produzindo uma enorme nuvem sibilante de vapor. Em toda a minha vida não conheci uma mulher da Cosa Nostra que não soubesse cozinhar. Normalmente, esse é o propósito dela: Alimentar o seu homem e a sua família. Esta descoberta é verdadeiramente alarmante. — A sua nonna ou a sua mãe nunca te ensinaram a cozinhar? A minha nonna me ensinou a cozinhar para não morrer de fome, caso nenhuma mulher se casasse comigo. — A minha mãe e a minha nonna estão mortas. Então não, elas não me ensinaram a cozinhar. Nós tínhamos um cozinheiro. Isso é triste. Eu paro de rir. Empurro toda a bagunça para o lado. Pelo menos ela tentou, embora, não saiba o que está acontecendo. — As mulheres da nossa família são amaldiçoadas, você sabe. E eu devo quebrar essa maldição. Durante toda a minha vida, as mulheres mais velhas da minha família falaram sobre essa maldição. Acho isso besteira, porque ninguém pode ser amaldiçoado. — M*aldições não são reais. Eu digo a ela e pego a faca dela. — Vou preparar o jantar. — Todas as mulheres da minha família morreram muito jovens. A mãe de Guido disse que se apaixonar por uma Calderone era uma sentença de morte. Por esse motivo, ela nunca se casou com o pai dele, porque isso a assustava. É tão e******o. É o que eu penso, mas não digo a ela. Eu não quero ofendê-la. É obviamente um assunto delicado para ela. — Isso não é verdade, você não pode acreditar, nisso. Ela inteligente, por que ela se apega a tal história? A minha nonna morreu quando o meu pai tinha um ano e a minha mãe quando eu tinha apenas três. A minha única tia morreu quando eu tinha vinte anos. Uma semana após o casamento. Você pode chamar do que quiser, m*aldição, mau-olhado ou qualquer outra coisa. O meu pai queria que eu crescesse como um homem, para não morrer como elas. Melodie sai da cozinha e começa a observar. — Você sabe que você parece louca? Eu digo tentando identificar as falhas dessa teoria. — Sou louca por não querer morrer da maldição? Ela diz e rouba um cogumelo da tábua de cortar — Mas, acredite ou não, o meu pai acreditava. E ele me criou para ser diferente. Ele tinha medo de me perder e entendo. Ele já havia perdido todas as outras mulheres da sua vida. A perda é uma parte importante das nossas vidas, então aprendemos a nos fortalecer diante dela. Mesmo homens como Luigi sabem com o que se comprometeram, mas isso não elimina a dor que vem com a perda. A minha família também passou por essa dor. — Entendo, porém, não acredito em maldições. Digo a ela, colocando os ingredientes para fazer o molho numa panela limpa. Um macarrão terá que ser suficiente. Eu sei cozinhar, mas não sou um Chefe de cozinha. Aprendi o básico para ser capaz de me defender sozinho. — Então, desde que você não se apaixone por mim, não precisamos nos preocupar com essa maldição. Ela brinca, mas há algo na sua declaração sobre o amor que me deixou desconfortável. Nunca pensei no amor, sempre acreditei que é mais seguro ficar sozinho. Ter uma família para amar e perder é o suficiente. Ter mais do que isso seria como pedir para acabar amargo e retorcido como o meu pai. — O amor não é para pessoas como nós, Melodie. Eu sei e você também sabe. — O mais seguro para todos é que não possamos amar ninguém. MELODIE Vito está fazendo algum tipo de mágica culinária na cozinha e não vou impedi- lo. Não aguento mais comida pré-pronta e aquecida. Entendo que são convenientes e práticas, mas têm gosto de plástico. A situação entre nos ficou um tanto estranha depois da conversa sobre a maldição. Vito e eu não somos tão diferentes, nós dois sabemos exatamente o que as nossas vidas são e o que não são. Eu tive mais sorte do que a maioria das garotas, eu sei disso, eu realmente sei. Outras mulheres, por exemplo, não têm ideia de como as nossas famílias são selvagens e vivem uma vida de riqueza na ignorância. Um amor fingido e a imagem de uma família perfeita em público, mas, por baixo, está a vida que Vito e eu conhecemos. — Quer que eu te ensine? Ele me pergunta. Ele está mortificado por eu não saber cozinhar, é como se as mulheres servissem para isso. Posso matar um homem a cinquenta passos, posso lavar dinheiro melhor do que qualquer homem de terno, mas como não sei cozinhar, valho menos. M*aldita me*rda. O problema é que não temos mais nada para fazer, então não tenho um bom motivo para recusar a oferta dele. — Você me ensinaria? Talvez ele esteja brincando. — Bem, não é como se estivéssemos muito ocupados ou algo assim. Ele brinca e eu aceno. — Tudo bem, me ensina a cozinhar, Vito. Aceito a oferta dele, talvez assim eu poderia aprender pelo menos alguma coisa confinada a esta pequena casa. Quando mexo a massa, que já está fervendo, ele tira a colher de mim. — Não, não precisa ficar mexendo! Você só faz isso quando coloca na panela para não grudar e depois você sai. Ele balança a cabeça como se eu tivesse cometido um pecado capital na cozinha. — A verdade é que você nunca esteve na cozinha, não é? Ele me pergunta. — Sinceramente não, eu estava aprendendo a atirar e a única cozinha que eu já vivenciei foram nos livros. Isso chamou a atenção dele. Então ele me diz: — Marco faz isso, o meu pai ensinou a ele. Vito experimenta o molho. — Aprendi a atirar e preparar... comida. Ele fica bem quando não está de m*au humor. Gosto do sorriso dele e da maneira como ele parece durão por fora. Mas por dentro, ele é humano. Todos nós somos. As vezes. Estamos conversando e ele está realmente tentando me ensinar quando o segurança bate na nossa porta. — Senhor. Ele diz. — Foi detectada uma violação dentro do perímetro. Por favor, fique dentro da cabana e longe das janelas. Eu olho para Vito e ele apenas balança a cabeça em silêncio. Fechando as persianas da cozinha. — Obrigado. Ele está prestes a fechar a porta e, quando ele faz isso ele, me diz: — Vamos terminar de cozinhar para comermos e vamos esperar para ver o que acontece. Pode ter sido apenas um animal. Ele tenta me tranquilizar, mas depois do que aconteceu na nossa casa na Sicília, o medo está sempre presente. Não deixei transparecer no meu rosto, mas está lá. E se isso for o fim para mim? Vito continua cozinhando, mas não presto atenção nele. Porque eu continuo ouvindo qualquer ruído e verificando todas as portas e janelas. Eu deveria ter perguntado o quão seguro é este lugar. Não sei onde estamos, ou se há um plano de fuga, estou tão confortável que esqueci de estar preparada para o pior. Baixei a guarda e confiei o comando a Vito, não gosto que isso me faça sentir tão vulnerável. — Coma. Vito segura um prato no meu nariz. Realmente cheira muito bem. Isso me lembra de casa e o meu estômago dá um nó pensando em quando eu poderia voltar para lá. — Obrigada. A sua comida é melhor do que qualquer coisa que comemos desde que chegamos aqui, e embora a minha mente esteja disparada, como rapidamente. Eu esqueço as maneiras à mesa, estou morrendo de fome e isso é incrível. — Está delicioso. Eu o parabenizo e ele sorri. — É só macarrão com molho, não é uma refeição digna de um restaurante. Ele me oferece mais e eu o deixo encher o meu prato com muito prazer. — Você não come como uma menina. Ele se aproxima e eu faço um gesto para ele.
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