— Eu que o diga! — ela diz, mas então me olha em silêncio por um tempo. Seus olhos carregam algo que não quero decifrar. Depois de soltar o ar devagar, se levanta do sofá e se senta mais perto de mim. Sua expressão está carregada de dor.
— Quero que você se interesse por uma moça e se case novamente. Mas sei que aqui não é o caso... — Seus olhos me estudam com cautela. — Você está apenas encantado pela jovialidade dela e, mais para frente, ela pode se tornar desinteressante. Saia com mulheres do seu nível, maduras. Vocês falarão a mesma língua e elas sabem se defender. Essa garota me parece bem inocente.
É isso que Lola e ninguém mais entende. Eu me cansei de todas elas. São sempre as mesmas... Superficiais, fúteis, tão obcecadas em se dar bem na vida.
Pensando bem, conheço uma garota interessante. O nome dela é Helen. Inteligente, segura, independente. Mas não me atrai nem um pouco. É como se eu visse um homem na minha frente.
— Não quero ninguém. A vida que levo está muito boa, obrigado.
Lola fecha a cara.
— Tudo bem, mas não colocará suas patas de lobo em cima dessa garotinha. Eu vou instruí-la muito bem.
Me levanto, irritado.
— Vou indo, Lola. E depois fale com ela. Mostre que está tudo bem.
— Bem não está.
— Lola! — Meu tom é de advertência.
— Ah, va bene! — Ela levanta as mãos, rendida.
Me aproximo e deposito um beijo em sua testa.
— Arrivederci. Vou trocar de roupa e sair. Volto mais tarde.
Me afasto com passos largos, mas antes de me trocar, resolvo falar com Natasha. Preciso prepará-la para o que Lola vai dizer contra mim. Não vou permitir que ela deturpe minha imagem. Sei que ela falará apenas verdades, mas Natasha precisa conhecer minha história pelos meus lábios.
Vou até o quarto de hóspedes e bato duas vezes na porta. Meu peito se agita em expectativa.
Pouco tempo depois, ela se abre. Natasha me encara, surpresa, seus olhos claros brilhando sob a luz do quarto.
Sorrio levemente.
— Posso falar com você?
— Claro. — Ela segura a porta, hesitante.
— Mas não aqui no corredor. — Solto aquele sorriso de canto que sempre funcionou com as mulheres.
Ela cora. Seu desconforto é nítido, mas se afasta e me dá passagem.
Entro no quarto.
— Feche a porta. Precisamos conversar.
Ela hesita, mas obedece, os dedos trêmulos girando a maçaneta. Fica ali, meio perdida, olhando para mim com incerteza.
Me sento na cama e bato de leve no colchão ao meu lado.
— Vem.
Ela avança devagar, como uma menina obediente. Sorrio em satisfação e viro meu corpo, focando meus olhos nos dela.
Natasha hesita um segundo, mas faz o mesmo, voltando seu rosto para mim, esperando. Seu olhar é vivo, intenso. Meu coração se agita.
Um calor denso me envolve, chega a doer meu corpo o prazer negado. Difícil encarar tamanha beleza e mantê-la intocada. A vontade de ser o primeiro homem em sua vida faz meu corpo pulsar de desejo.
Mas mantenho meu semblante sério. Não posso e não quero assustá-la.
— Conversei com Lola e descobri por que ela está agindo assim. Não é nada com você, nem com seu serviço.
— Não? — Seus olhos piscam, confusos.
— O problema dela é comigo.
— Brigaram?
— Por favor, me chame de André. — Minha voz sai mais baixa, mais gentil. Quero que ela me veja como um amigo no início. Então respiro fundo e desvio o olhar por um segundo antes de encará-la novamente. — Lola não gosta do jeito que tenho levado minha vida sentimental. Mas ela não entende que sou assim por causa do meu passado. Não tive muita sorte nos meus relacionamentos, por isso sou o que sou.
Seus olhos não desgrudam dos meus.
Fecho os meus por um breve instante, revivendo cada momento do que passei. Respiro fundo e então lhe conto sobre minha vida sentimental tumultuada.
Descrevo tudo. O amor que tive por Rebeca, como ela me destruiu, como sofri, como comi o pão que o d***o amassou. Não omito nada.
Quando termino, Natasha está em silêncio, me estudando com um olhar diferente. Como se me enxergasse de um jeito novo.
Ela engole em seco.
— Mas por que Lola te culpa? Você não tem culpa de nada...
Que doce anjo.
Dio Mio. O desejo que me consome quase me faz perder o controle. Meu corpo todo responde a ela.
— Não, bambina. Não tenho culpa dos meus fracassos.
— Então por que Lola pensa que sim?
— Ela não me julga pelos fracassos, mas pela pessoa que me tornei.
Natasha franze o cenho.
— E que pessoa você se tornou?
A encaro firme, franco.
— Hoje sou um homem que não leva a sério seus relacionamentos. Saio com muitas mulheres, mas não me firmo com nenhuma delas. Então... — dou um sorriso débil. — Lola acha que meu intuito é te seduzir.
Seus olhos se arregalam e seu rosto cora violentamente.
Eu a observo sem perder um único detalhe. Suas mãos tremem. Seu semblante fica fechado, pensativo.
Congelo, esperando que ela me olhe de novo. Meu peito aperta com a impaciência.
Quando finalmente seus olhos buscam os meus, meu coração dispara como um louco.
— E... Lola está certa? — Sua pergunta sai quase num sussurro.
Ela me encara, madura de repente. Como se soubesse exatamente a resposta.
Respiro fundo.
— Tenho por você um forte sentimento de proteção. Você ainda me deve o valor daquele terno, mas esse nunca foi o maior motivo para eu te trazer aqui. Acredito que a vida não tem sido fácil e justa com você. Então, se posso te ajudar, por que não?
Ela escuta cada palavra, os lábios entreabertos, a respiração acelerada.
Continuo:
— Lola tentará denegrir minha imagem. Vai querer que pense coisas erradas sobre mim. Talvez ela esteja certa em algumas coisas, não sei. Mas numa coisa ela não está certa: Lola vai tentar te fazer acreditar que você é igual às outras mulheres que passaram pela minha vida. E isso não é verdade. Não deixe que ela baixe sua autoestima.
Faço uma pausa e olho fundo em seus olhos.
— Você é especial. Diferente de todas as mulheres que já conheci.
Seus lábios se entreabrem num "oh" mudo. Sua respiração falha.
Me levanto antes que a tentação seja grande demais.
— Bem, vou sair agora. Hoje é sábado e sempre almoço na casa dos meus pais. — Hesito. — Quando eu voltar... Você ainda estará aqui? Ou vai fugir de mim?
Seus lábios tremem.
— Não. Estarei aqui. — Então ela me dá um pequeno sorriso. — Afinal, eu ainda te devo o terno. Bom almoço.
Meu peito se aquece com alívio e uma alegria inesperada.
— Grazie.
Eu lhe dou uma leve inclinação de cabeça antes de sair do quarto. Vou para o meu, sentindo o coração menos pesado.
Mas não menos agitado.