CORVO
Cássia era uma filha da p**a.
Tinha subido até o meu camarote atrás de mim e ainda tinha a coragem de me chamar de amor.
A f**a com ela era boa, eu não ia mentir.
Mas era só isso. Mais uma marmita que eu comia de vez em quando e que, por algum motivo, achava que tinha direito de se considerar fiel a mim.
Eu estava pouco me fodendo para isso.
Foi quando Ayla passou por nós.
Ela esbarrou em mim de propósito ou por acaso, eu não sabia dizer. Só sabia que a cara dela estava fechada. Ela estava p**a, e não fazia questão nenhuma de esconder.
Meu olhar acompanhou cada passo dela.
Antes que Cássia pudesse abrir a boca novamente, puxei-a pelo braço e a coloquei dentro do quartinho ao lado do camarote.
Fechei a porta atrás de mim.
— Tá achando que você é quem, p*****a?
O sorrisinho cínico que estava estampado no rosto dela morreu na mesma hora.
— Calma, Corvo... Eu só vim te dar prazer do jeito que você gosta.
Ela tentou se aproximar, mas coloquei a mão no peito dela e a afastei.
— E quem disse que eu quero você agora? Quem disse que eu te chamei?
Cássia ficou em silêncio.
Segurei-a pelos cabelos, fazendo com que ela olhasse diretamente para mim.
— Escuta aqui. É a última vez que eu vou falar isso. Você só vem atrás de mim quando eu chamar. Fora isso, vaza.
E para com esse papo de amor. Marmita não ama p***a nenhuma. Se ligou?
Ela engoliu seco.
— Perdão, Corvo. Não faço mais isso.
Soltei seus cabelos e apontei para a porta.
— Então vaza.
Ela não se mexeu.
— E não quero olhar pra tua cara hoje. Em canto nenhum desse morro. Entendeu?
Cássia assentiu rapidamente e saiu praticamente correndo.
Assim que ela desapareceu, chamei um dos soldados.
— Vê se essa p**a já saiu do baile. Se ainda estiver lá, lembra ela do que eu mandei e tira ela daqui.
O soldado apenas confirmou com a cabeça antes de sair.
Respirei fundo.
Precisava de uma bebida.
Peguei um copo de uísque e voltei para a grade do camarote.
Foi então que meus olhos encontraram Ayla novamente.
Ela estava dançando como se não existisse amanhã.
Como se já pertencesse àquele lugar.
A filha da p**a era gostosa, e sabia disso.
Branquinha, com aquela carinha de inocente que enganava qualquer um... mas os olhos?
Os olhos eram de demônio.
Ela tinha aquele olhar de quem sabia exatamente o que queria.
E, aparentemente, sabia muito bem como provocar.
Demorou alguns minutos até que ela finalmente olhasse para mim.
Quando nossos olhos se encontraram, um sorriso pequeno apareceu no canto da boca dela.
Então Ayla começou a dançar de um jeito ainda mais sensual.
Porra.
Era para mim.
Cada movimento parecia uma provocação.
Apoiei o copo na grade e fiquei observando.
Ela não fazia ideia de quem estava provocando.
Ou talvez soubesse.
Talvez fosse exatamente isso que tornava tudo ainda mais perigoso.
Ayla sustentou meu olhar enquanto continuava dançando.
E, naquele momento, uma certeza passou pela minha cabeça:
aquela mulher estava brincando com fogo.
E ela ainda não tinha descoberto o quanto eu podia queimar.
— Vai ficar encarando ela a noite toda?
A voz de PH surgiu ao meu lado.
Nem precisei olhar para saber que ele estava rindo.
— Cuida da tua vida, PH.
Ele se aproximou da grade e olhou na mesma direção que eu.
Ficou alguns segundos em silêncio.
Depois soltou uma risada.
— Ah, agora eu entendi.
— Entendeu o quê?
— É ela.
Virei o rosto lentamente.
— Ela quem?
PH apontou discretamente com o queixo para a pista.
— A novinha da dona Ana.
Voltei a olhar para Ayla.
— E daí?
— Nada.
Ele riu novamente.
— Só achei engraçado.
— O que é engraçado?
— Você.
Franzi a testa.
— Eu?
— Você mesmo.
Ele cruzou os braços.
— Faz horas que você tá olhando pra essa garota.
— Tô olhando pro meu baile.
PH gargalhou.
— Claro. Pro baile.
Ignorei.
Ele continuou observando Ayla por alguns segundos.
— Ela tem cara de problema.
Dessa vez, olhei para ele.
— Problema?
— Grande.
Ele voltou a rir.
— E pelo jeito você já percebeu.
— Não sei do que você tá falando.
— Corvo...
PH balançou a cabeça.
— Eu te conheço há tempo demais.
Fiquei em silêncio.
Ele apontou novamente para Ayla.
— Essa aí não tem cara de quem vai baixar a cabeça pra você.
Olhei para a pista.
Ayla continuava dançando.
— Não vai mesmo.
PH me encarou, surpreso.
— Então você admite?
— Admito o quê?
— Que ela já chamou sua atenção.
Soltei um suspiro.
— Ela é diferente.
O sorriso de PH aumentou.
— Pronto.
— Pronto o quê?
— Acabou.
— Acabou o quê, p***a?
— Você.
Ele começou a rir.
— Nunca vi você falar que uma mulher é diferente.
Balancei a cabeça.
— Não começa.
— Eu não tô começando nada. Só tô assistindo.
— Então assiste quieto.
PH levantou as mãos.
— Beleza.
Ficamos alguns segundos em silêncio.
Então ele olhou novamente para Ayla e depois para mim.
— Só toma cuidado.
— Com ela?
— Com você.
Aquilo me fez encará-lo.
PH não estava mais sorrindo.
— Essa garota acabou de chegar aqui e já conseguiu fazer você perder a concentração no próprio baile.
Olhei novamente para a pista.
Ayla levantou os olhos.
Nossos olhares se encontraram outra vez.
Ela sorriu.
E eu soube que PH tinha razão em uma coisa.
Aquela garota tinha cara de problema.
O pior?
Eu estava começando a gostar da ideia.