COIOTE NARRANDO
Os dias foram passando, e minha irmã veio me pedir um favor.
— Mano, quero te falar um bagulho. — Luíza veio. A Giovanna estava na cozinha, fazendo o almoço. — A Giovanna nunca comeu bolo de aniversário, você acredita? Onde ela ficava, deixavam ela comer o resto do pratinho dos outros. Cara, ela era tratada muito mal...
— Você quer que eu compre um bolo de aniversário? — Ela concordou com a cabeça. — E qual é a desculpa? Quem tá fazendo aniversário? — Perguntei para a Luíza. — Não quero ofender a garota.
— Sei lá, o meu peixe betta? — Ela deu os ombros.
— Tá. Ok.
Foi engraçado, mas eu literalmente encomendei um bolo para o aniversário de um peixe betta. Quando eu falei para a confeiteira, ela gargalhou.
— Isso é coisa da Luíza, só pode. — Disse.
— Sim, Tia Bia. É coisa da doida da Luíza. Mas vamos atender, a bichinha tá indo melhor na escola, e eu quero incentivar essa mudança de comportamento que a guria tá tendo. — Falei.
— É, é claro, tem que valorizar mesmo. Entrego hoje a noite pra você. — Ela disse e eu desliguei o telefone.
A noite, quando o bolo chegou, eu coloquei na bancada e chamei Luíza.
— Luíza, o bolo do peixei chegou. Te vira aí, guria. — Eu disse.
Ela veio junto com Giovanna, e eu peguei três pratos, colocando em cima da bancada. Eu peguei o aquário de cinco litros do peixe da Luíza e coloquei em cima da bancada também, afinal, não dá pra ter um aniversário sem o aniversariante, não é mesmo?
— Eu falei que meu peixe estava fazendo aniversário, não falei? — Luíza disse, rindo com Giovanna, que também sorria.
— Você é maluquinha.
— E você é a convidada de honra, porque você alimenta muito mais o peixe do que eu. — Giovanna olhava para nós dois.
— Obrigada. — Disse, olhando especificamente para mim.
Eu servi o bolo para Luíza, depois para Giovanna. Ela colocou uma mexa do próprio cabelo atrás da orelha enquanto sorria boba por ter um pedaço de bolo só dela. Cara, eu não sei o que ela passou, mas foi tenso, e... Eu quero curar os traumas dela, por algum motivo que desconheço.
Nós comemos em homenagem ao peixe da Luíza, e depois, era hora de dormir. Giovanna levou Luíza para o quarto, a incentivando a se trocar para dormir, e depois, voltou para organizar a cozinha.
— Já arrumei, não precisa. — Falei.
— Obrigada pela gentileza. — Ela disse.
Encostei minhas costas na bancada, enquanto a olhava. Ela olhou para baixo, meio desconsertada.
— Deixa eu te dar uma coisa. — Falei. Abri minha carteira e tirei três mil reais em notas de duzentos. Entreguei para Giovanna, que arregalou os olhos.
— O que é isso? — Ela disse, pegando aquele dinheiro.
— Seu pagamento do mês que você trabalhou para mim. Você cozinha, arruma a casa e cuida da minha irmã... É justo que eu te pague um salário mínimo por cada coisa, ao menos.
— Eu nem sei como gastar todo esse dinheiro. — Ela disse, chocada. — Eu nunca peguei tanto dinheiro junto e meu.
— Isso, é seu. Você pode sair pra comprar algumas coisas, Giovanna. Amanhã é sábado, a Luíza vai pra casa de uma amiga... Você pode sair e passear. Aqui dentro do morro, ou fora. É você quem decide.
— Tipo ir ao Shopping? — Eu sorri e concordei.
— Tipo isso.
— E eu posso ir sozinha? Como eu vou sozinha? — Eu dei risada da inocência dela.
— Acho que você tem um bocado de coisa pra aprender por aqui ainda, menina. Você quer conhecer o shopping? Posso te levar, se quiser. Só que nós só podemos ir em um shopping que fica duas horas daqui, porque o dono é um cliente e ele desliga as câmeras quando vou.
— Você falou tão rápido que eu não entendi nada, Murilo. Eu sou boa em português, mas às vezes ainda me confundo. — Ela deu risada e eu também.
— Quer ir ao shopping amanhã? Eu te levo. — Falei, um pouco mais devagar.
— Quero. Vai ser legal. Obrigada, Murilo. — Ela disse e eu sorri.
— De nada.
— Eu... Eu posso te fazer um presente com isso? — Ela pegou a notinha fiscal do bolo na bancada e me mostrou.
— Pode. O que vai fazer? — Questionei.
— Vem cá. — Ela me ofereceu a mão e eu peguei.
Giovanna se sentou à mesa, e eu sentei na frente dela. Ela tirou uma caneta do bolso da calça larga de moletom que usava, e começou a desenhar na notinha fiscal. Ela me olhava, e desenhava. E em dez minutos, ela me entregou o desenho.
— Caralho... — Eu falei, chocado com o que recebi. Giovanna tem um talento sem igual para desenho. Era como se ela tivesse tirado um xerox do meu rosto com a caneta bic.
— Em agradecimento pelo bolo. Eu sei que não era para o peixe. — Ela disse e sorriu.
— Ah, é? E como você sabe? — Questionei e ela sorriu.
— A Luíza inventou o aniversário do peixe depois que comentei com ela sobre não ter uma fatia de bolo para mim nos aniversários. Eu deixei escapar por causa de uma lição de casa dela de português... Isso não vai se repetir, não se preocupe. — Giovanna falou.
— Não precisa controlar o que vai dizer... Hm, só respeitando a idade dela, é claro. — Ela concordou com a cabeça.
— Eu não costumo falar sobre o que aconteceu, não se preocupe.
Eu vi a mão de Giovanna em cima da mesa, e num impulso, coloquei a minha por cima. Foi vagaroso, e ela aceitou o meu toque.
— Como você está, Giovanna? Se sente melhor em relação a todas aquelas coisas? — Ela concordou com a cabeça.
— Sim, eu... Eu sou muito grata a você. E a Luíza também. Ela está me ensinando um monte de coisas da escola. — Ela sorriu, de forma alegre. — Acho que é a primeira vez que eu me sinto... Feliz, Murilo.
— É só o começo, você vai ver. Sua vida vai mudar por completo, linda. — Eu ajeitei uma mecha do cabelo loiro dela atrás de sua orelha, e a olhei nos olhos. — Se depender de mim, você vai ser a mulher mais feliz dessa quebrada. Mas, bom, está tarde, e amanhã eu tenho um rolê com uma guria chamada Giovanna, então... — Brinquei e me levantei.
— E eu com um guri chamado Murilo. Melhor dormir. — Falou e saiu. — Boa noite, Muri.
Muri. Eu nunca fui chamado assim por outra pessoa.
Fui para o meu quarto com o desenho que ela fez de mim na minha mão. Enquanto estava deitado, olhava para o desenho pela luz do abajur. O que mais essa loirinha esconde?
Na manhã seguinte, quando acordei, o café estava pronto e Luíza já tinha saído. Giovanna estava com uma calça jeans que marcava bem suas pernas grossas, e uma camiseta branca. Estava linda, mesmo tão simples. Ela passou rímel nos olhos, pelo que vi.
— Vamos? — Perguntei. Ela concordou.
Eu dirigi até o shopping e ela se ocupou olhando as músicas no meu celular. Ela se divertia com os funks de "palavras engraçadas", como ela disse. Quando chegamos, ela parecia estar em um mundo mágico. Os seus olhos brilhavam quando ela via as lojas, e ela me arrastava para dentro de uma ou outra.
— Gi, você não precisa só olhar. Pode comprar algumas coisas pra você. Por que não compra algumas roupas... Ou maquiagens, ou sei lá.
— O que eu quiser? — Perguntou.
— Sim, o dinheiro é seu.
— Essa blusa é o que eu quiser? — Ela tirou uma blusa lilás da arara e me mostrou.
— Sim. Por que não experimenta? — Ela sorriu e eu a levei até os provadores.
Quando ela saiu, com a blusa lilás, eu sorri satisfeito. A blusa era no estilo cropped, com mangas compridas, e mostrava dois dedos da barriga dela.
— Está bom? — Perguntou.
— Está linda.
Ela acabou levando no corpo mesmo, e pagou pela etiqueta. Giovanna foi moderada, mas quis comprar um celular, não escolheu um modelo caro, não. Foi um que custou mil e quinhentos, e ela saiu satisfeita. Fizemos um plano de celular para ela e depois, eu a convidei para almoçar. Almoçamos lá mesmo, no McDonalds.
— Estive no McDonalds uma vez. — Falou. — Já comi aqui.
— É? Foi legal?
— Foi. Um casal pagou alimento para os meus pais e para mim. Foi um dia legal. Eu tinha... Talvez cinco, seis anos. Eles me levaram para a fazenda aos seis, e foi um pouco antes disso.
— Entendi. Seus pais eram pobres? — Ela concordou com a cabeça.
— Pobres demais. Eles me entregaram para a família da fazenda porque não podiam me criar. Mas eu não quero falar disso, sinceramente, hoje é o melhor dia da minha vida. — Ela disse e sorriu. — Obrigada, Murilo.
Depois, quando estávamos indo embora, eu vi uma papelaria. Me lembrei do desenho que ela me deu, então, peguei sua mão e a puxei.
— Tem uma coisa que quero comprar para você. Quer dizer, algumas coisas. Vem aqui. — Eu falei e ela me acompanhou.
— Oi, posso ajudar? — Uma funcionária veio nos atender.
— Pode. Minha amiga aqui é uma desenhista nata, e eu quero dar materiais para ela começar a estudar e aprimorar os desenhos.
Giovanna me olhou em choque. Depois, sorriu.
— É sério?
— Sim, é. — Falei.
Ela tentava conter a alegria, mas me agarrou no meio da loja em um abraço apertado. Eu a abracei de volta, rindo.
— Obrigada! — Disse, empolgada, ainda agarrada em mim. Eu lhe dei um beijo na testa, e aproveitei para discretamente sentir o cheiro de seu cabelo. Eu gosto do cheiro dessa menina.
— De nada, Gi.
Fomos embora e ela veio, pela primeira vez, tagarelando sobre como ela gostava de desenhar e como foi que aprendeu. Com os materiais novos, ela poderia treinar e melhorar ainda mais.
Ela foi para o quarto dela quando chegou, guardar suas coisas. Passou o dia lá, e não a vi mais, porque precisei resolver algumas coisas também. Quando era noite, eu ouvi batidas na porta do meu quarto. Já era bem tarde, então, fiquei um pouco preocupado... Mas quando abri a porta, vi Giovanna com um sorrisinho tímido na porta.
— Ah, oi.
— Te acordei? — Perguntou.
— Não. Precisa de alguma coisa? — Ela concordou com a cabeça.
Giovanna se aproximou de mim e me abraçou. Eu a abracei de volta, de forma protetora.
— Ei... O que aconteceu?
— Eu só preciso de um abraço. — Ela disse.
Eu continuei a abraçando, mas tocá-la, sem poder tê-la, é torturante. Minha vontade era puxar essa garota para o meu quarto e f***r com ela a noite toda, mas me controlei.
Levei minhas duas mãos até o rosto dela, e a fiz me olhar.
— O que houve?
— Você me fez tão feliz hoje e eu não sei como agradecer. — Falou, olhando em meus olhos.
Desfizemos o abraço. Ela segurou minha mão e deu um beijo nela, e aí, eu não me aguentei.
Preciso, desesperadamente, beijar a Giovanna. Não aguento mais.