O nó na minha garganta apertou. A adrenalina de um confronto iminente se dissipou, dando lugar a uma confusão completa. "Não, por favor, não faz isso", a voz de Isabella, soou como um sussurro urgente. A mão dela no meu ombro era leve, mas firme, transmitindo um misto de medo e súplica. Quando nossos olhares se encontraram, fui atingido pela beleza dos olhos dela. Azuis, como os meus, mas em um tom muito mais claro, quase translúcido. Um azul que parecia brilhar com uma luz própria.
Ela me puxou para mais perto, o perfume suave dela invadindo meus sentidos. "Desculpa, mas meu nome nem é Isabella", sussurrou no meu ouvido, a voz baixa e carregada de um segredo. Um arrepio percorreu meu corpo. O quê? Antes que eu pudesse processar a informação, um sorriso pequeno e enigmático surgiu nos lábios dela.
Ela me guiou até o sofá, um sorriso divertido brincando em seu rosto. "Meu nome é Leila, na verdade", revelou, como se estivesse contando uma piada. "Eu fiquei com medo de te contar antes. Vai que você era um maluco também, né?" Ela deu uma risadinha, e eu senti um alívio estranho em meio à confusão. De alguma forma, a sinceridade dela era palpável. "Mas... eu confio em você", completou, o olhar fixo no meu.
Ela era pura inquietação. Os dedos finos enrolavam uma mecha do cabelo loiro enquanto falava, gesticulando com as mãos e sorrindo sem parar. Uma energia contagiante emanava dela. Delicada, mas ao mesmo tempo espontânea, Leila parecia completamente à vontade no meu apartamento.
"Nossa, quem foi o arquiteto desse lugar?", perguntou, examinando a sala com olhos curiosos.
"Quer o contato?", ofereci, ainda tentando entender o turbilhão de acontecimentos.
Ela soltou uma gargalhada gostosa. "Não, ele é péssimo!", exclamou, com uma expressão divertida.
Eu a observava, perplexo, admirado com a desenvoltura dela. Descalça, tocando os objetos, como se estivesse em casa. De repente, os olhos dela brilharam ao avistarem meu distintivo na estante. Ela correu até lá, com uma animação infantil.
"Você é policial?", perguntou, os olhos arregalados. "Deixa eu ver sua arma? POR FAVOOOR!"
Uma risada escapou dos meus lábios. Leila era uma criança travessa em corpo de mulher. A tensão dos últimos minutos se dissipou completamente. Aquele encontro tomou um rumo totalmente inesperado. Isabella, ou melhor, Leila, era um enigma fascinante, e eu estava começando a ficar intrigado. Aquele dia definitivamente não terminaria como eu havia imaginado. O ex-namorado gritando no corredor parecia um detalhe insignificante diante daquela mulher que, em pouquíssimo tempo, havia virado meu mundo de cabeça para baixo.
A súbita mudança de foco de uma possível briga para um pedido infantil para ver minha arma era quase cômica. "Desculpa, Leila, mas não é assim que funciona", respondi, tentando conter o sorriso. "Não posso simplesmente mostrar minha arma para qualquer um."
Ela fez um beicinho adorável, cruzando os braços. "Ah, qual é? Só uma olhadinha! Eu prometo que não vou apontar para ninguém."
"Promessas não são o suficiente nesse caso", expliquei, com um tom firme, mas gentil. "É uma arma de fogo, Leila. Precisa ser tratada com responsabilidade."
Ela pareceu entender, o entusiasmo dando lugar a uma curiosidade mais calma. "Entendo", murmurou, olhando para o distintivo novamente. "Então... como é ser policial?"
Sentei-me ao lado dela no sofá, sentindo um cansaço repentino. A adrenalina da noite, a confusão com a identidade dela, tudo isso estava começando a me alcançar. "É... complicado", respondi, passando a mão pelo cabelo. "Tem dias bons e dias ruins. Dias em que você sente que está fazendo a diferença e dias em que você se pergunta se tudo isso vale a pena."
Leila me observava com atenção, os olhos azuis fixos em mim. "E por que você continua?", perguntou, com uma sinceridade que me surpreendeu.
Parei por um momento, pensando na resposta. "Porque alguém precisa fazer isso", respondi finalmente. "Porque existem pessoas que precisam de ajuda. E porque, mesmo nos piores dias, existe a esperança de que amanhã será melhor."
Um silêncio se instalou entre nós. Leila parecia ponderar minhas palavras. De repente, ela se levantou e começou a andar pela sala, examinando os quadros nas paredes. "Você tem bom gosto", comentou, parando em frente a uma gravura antiga da cidade.
"Obrigado", respondi, observando-a. A forma como ela se movia, com uma leveza quase etérea, me hipnotizava. Era como se ela não pertencesse àquele lugar, como se fosse uma visitante de outro mundo.
"Então...", ela disse, virando-se para mim com um sorriso travesso. "Já que você não vai me mostrar sua arma, que tal me contar mais sobre você? Tipo... qual é a sua cor favorita?"
Revirei os olhos, rindo. "Azul", respondi, sem hesitar.
"Sério?", ela exclamou, com os olhos brilhando. "A minha também! Que coincidência!"
A conversa fluiu naturalmente depois disso. Falamos sobre filmes, livros, música. Ela era inteligente, espirituosa e incrivelmente cativante. A cada minuto que passava com ela, a confusão inicial dava lugar a uma admiração crescente.
O ex-namorado gritando no corredor parecia uma memória distante. O mundo lá fora, com seus problemas e perigos, parecia ter desaparecido. Naquele momento, só existíamos nós dois, em meu apartamento, compartilhando histórias e risadas. E, por um breve instante, tudo pareceu perfeito. Até que a campainha tocou, quebrando o encanto.
Eu olhei pelo olho mágico e vi um homem desconhecido, nesse momento olhei para trás e vi Leila correr para se esconder atrás do sofá. Ao abrir a porta, o homem me pergunta se conheço o proprietário do apartamento ao lado, que ele possui interesse em comprar a propriedade, mais do que rápido, eu respondo que o apartamento é meu, ele se espanta e pergunta o valor, eu digo: Mas ele não está à venda...
Ele parece espantado, mas agradece e se retira.
Leila sai de trás do sofá, como uma criança travessa e rindo sem parar, me diz: Você é muito mentiroso, Henry.
Me arrancando um leve sorriso, passada a adrenalina, eu decido servir o jantar para Leila.
Enquanto Leila atacava a comida com um apetite admirável, uma pergunta me veio à mente.
— Leila — comecei, franzindo levemente a testa — Como você sabe meu nome?
A pergunta pareceu acender um interruptor em seu cérebro. De repente, ela começou a rir de novo, daquele jeito contagiante que me fazia sorrir mesmo sem querer. Seus olhos brilhavam com uma travessura infantil.
— Buuu! — exclamou, esticando os braços e fazendo um som de fantasma, como se estivesse tentando me assustar. — Eu sou uma stalker!
Fiquei parado na frente dela, os braços cruzados e uma expressão séria no rosto. Mantive a pose por alguns segundos, antes de responder com uma voz grave e teatral:
— E eu sou o Batman.
A resposta a fez gargalhar ainda mais alto. Ela se jogou para trás na cadeira, as mãos na barriga, quase sem ar de tanto rir.
— Ai, meu Deus, Henry! — conseguiu dizer entre as gargalhadas. — Você é inacreditável!
Quando finalmente conseguiu se recompor, ela explicou, ainda com um sorriso nos lábios:
— Eu vi sua carteira enquanto você falava com aquele… — ela fez uma careta, como se estivesse com nojo — com aquele sujeito na porta. Estava caída no chão, perto do sofá. Dei uma olhadinha rápida.
Assim que terminou de falar, ela se levantou da mesa e saiu correndo pela cozinha, em direção à sala, como se estivesse fugindo de mim. Instintivamente, e com um sorriso no rosto, comecei a correr atrás dela também. A cena era quase cômica: eu, um delegado de polícia, correndo atrás de uma mulher pela minha própria casa, como dois adolescentes brincando de pega-pega. A adrenalina da situação tensa de minutos atrás havia se transformado em uma leveza divertida e inesperada. O som de nossas risadas ecoava pelo apartamento, preenchendo o silêncio que antes era carregado de apreensão. Por um breve momento, esquecemos o perigo lá fora e nos permitimos desfrutar daquele instante de descontração.
A correria e as risadas cessaram, dando lugar a um silêncio mais calmo, embora ainda carregado de uma certa tensão residual. Leila se sentou ao meu lado no sofá, a respiração ainda um pouco ofegante. De repente, ela pegou minha mão, entrelaçando seus dedos nos meus. Seu olhar encontrou o meu, fixando-se profundamente em meus olhos. A seriedade em sua expressão contrastava com a leveza de instantes atrás.
— Agora é sério — disse ela, a voz baixa e sincera. — Muito obrigada por me deixar ficar aqui, Henry. Você me salvou.
Sem que eu pudesse sequer processar suas palavras, ela se inclinou e depositou um beijo suave em meu rosto. Senti um calor percorrer meu corpo, e por um momento, fiquei completamente sem reação, sem palavras. Agradecimentos e um beijo… Era demais para processar de uma vez.
Leila desviou o olhar para baixo, como se estivesse com medo da minha reação. Uma expressão de vulnerabilidade tomou conta de seu rosto. Ela mordeu o lábio inferior, hesitante, antes de continuar:
— Sabe… eu sei que é pedir demais, mas… será que eu poderia dormir aqui esta noite?
A pergunta pairou no ar, carregada de uma expectativa silenciosa. Olhei para Leila, e vi o medo e a esperança estampados em seus olhos. A situação era delicada, eu sabia. Aquele homem era perigoso, e tê-la ali, sob meu teto, me colocava em uma posição de responsabilidade ainda maior. Mas, ao mesmo tempo, eu não conseguia imaginar mandá-la de volta para casa, sozinha, para o perigo que a espreitava. A imagem dela apavorada, buscando refúgio em meu apartamento, ainda estava muito viva em minha mente.
Respirei fundo, tentando organizar meus pensamentos. A decisão não era fácil, mas no fundo, eu já sabia a resposta.