Ponto de Vista de Ethan Wood
Eu estava irritado.
Não.
Irritado era pouco.
Eu estava furioso.
Aquele tipo de fúria silenciosa que não explode… mas consome por dentro, queimando devagar, constante, perigosa.
Passei a mão pelo rosto enquanto caminhava pelo meu apartamento.
Luxuoso.
Impecável.
Frio.
Como sempre foi.
Mas, naquela manhã…
Nada parecia no lugar.
Nada parecia suficiente.
Porque minha mente estava em outro lugar.
Nela.
— Como eu deixei isso acontecer… — murmurei, a mandíbula travada.
Eu não cometo erros.
Não desse tipo.
Não deixo oportunidades escaparem.
E, ainda assim…
Ela fugiu.
De novo.
Fechei os olhos por um instante.
E, como um filme antigo…
A memória voltou.
Nítida.
Viva.
Dois anos atrás.
A boate.
Luzes pulsando.
Música alta.
O cheiro de álcool no ar.
E ela.
Eu não lembrava do rosto.
Nunca consegui lembrar.
Mas lembrava de tudo o resto.
O corpo.
A forma como se movia.
A intensidade.
E, principalmente…
Os olhos.
Azuis.
Profundos.
Hipnotizantes.
Os mesmos olhos…
Da Cinderela.
Abri os olhos devagar.
Um sorriso lento, perigoso, surgiu nos meus lábios.
— Sempre foi você…
Sempre foi.
Desde o começo.
E eu não percebi na hora .
Ou talvez…
Não quisesse perceber.
Peguei o casaco.
As chaves.
Saí do apartamento sem olhar para trás.
O elevador desceu rápido demais para a minha ansiedade.
Meu corpo estava tenso.
Minha mente acelerada.
Mas, diferente da noite anterior…
Agora havia clareza.
Direção.
Estratégia.
Ela podia ter fugido…
Mas não tinha desaparecido.
Não completamente.
Ninguém desaparece assim.
Não na minha cidade.
Entrei no carro.
Joguei a chave para o manobrista sem nem olhar.
— Traga depois.
— Sim, senhor.
Caminhei direto para dentro do prédio da empresa.
Os funcionários já estavam chegando.
Alguns me cumprimentaram.
Outros apenas abaixaram a cabeça.
Mas todos perceberam.
Algo estava diferente.
E estavam certos.
Minhas mãos deslizaram até o bolso da calça.
E ali estava.
A única coisa concreta que ela me deixou.
A renda branca.
Pequena.
Delicada.
Mas carregada de significado.
Passei os dedos sobre o tecido dentro do bolso.
Como se aquilo fosse um lembrete.
Ou talvez…
Uma promessa.
— Eu vou te encontrar… — murmurei.
Entrei no elevador privativo.
Subi direto para a cobertura.
Assim que as portas se abriram, Marcos já estava lá.
Encostado na mesa.
Com um tablet na mão.
— Bom dia — ele disse, observando meu rosto. — Ou não.
Ignorei o comentário.
— E aí?
Ele levantou o tablet.
— Já temos alguma coisa.
Caminhei até ele.
Olhei a tela.
Imagens das câmeras.
Ela.
Correndo.
Vestido azul.
Máscara.
Linda.
Mesmo na pressa.
Mesmo fugindo.
— Não dá pra ver o rosto — ele disse.
— Não preciso.
Minha voz saiu firme.
Porque eu já sabia.
— Mas ajuda — ele retrucou.
— Vai ajudar.
Olhei mais uma vez.
Gravei cada detalhe.
Cada movimento.
Cada ângulo.
Porque qualquer coisa podia ser útil.
— Já puxei a lista de convidados — Marcos continuou.
— E?
— Grande.
— Filtra.
— Já estou filtrando.
— Funcionários que trouxeram acompanhantes.
— Isso reduz bastante.
Assenti.
Era um começo.
Mas não suficiente.
Nunca é.
Afastei-me da mesa.
Comecei a andar pelo escritório.
Pensando.
Ligando pontos.
Criando caminhos.
— Alguém viu ela — falei.
— Provavelmente.
— Alguém conversou com ela.
— Também.
Parei.
Virei para ele.
— E alguém vai falar.
Marcos cruzou os braços.
— E como você pretende fazer isso?
Um sorriso leve surgiu.
— Pressão.
Peguei meu celular.
Abri a imagem dela.
A melhor que tínhamos.
Mesmo sem o rosto.
Dava para ver o suficiente.
O vestido.
A postura.
A presença.
— Manda imprimir.
Marcos arqueou a sobrancelha.
— Sério?
— Muitos.
— Quantos?
— O suficiente.
Ele riu.
— Você vai transformar isso numa caça pública?
— Já é uma caça.
Minha voz saiu fria.
Controlada.
— Só estou acelerando o processo.
Algumas horas depois…
Os cartazes estavam prontos.
Espalhados.
Por todos os andares.
Corredores.
Elevadores.
Áreas comuns.
Funcionários paravam.
Olhavam.
Cochichavam.
Comentavam.
E eu observava.
Do alto.
Pela câmera.
Pela movimentação.
Pelas reações.
No topo do cartaz, em letras claras:
PROCURA-SE
E abaixo…
A imagem dela.
Vestido azul.
Máscara.
E uma única palavra:
Cinderela.
Irônico?
Talvez.
Mas eficiente.
Era tudo o que eu tinha.
E seria o suficiente.
— Você tá se divertindo com isso, né? — Marcos perguntou, encostando ao meu lado.
Observei mais uma vez as imagens.
As pessoas comentando.
Tentando adivinhar.
Tentando lembrar.
— Não.
Minha resposta foi simples.
— Isso não é diversão.
Inclinei levemente a cabeça.
— É necessidade.
Ele me olhou de lado.
— Você tá obcecado.
Não neguei.
Porque seria inútil.
— Talvez.
Voltei o olhar para a cidade através do vidro.
Respirei fundo.
Sentindo algo diferente crescendo dentro de mim.
Não era só desejo.
Nunca foi só isso.
Era mais profundo.
Mais escuro.
Mais perigoso.
— Ela entrou no meu mundo… — murmurei.
Minha voz baixa.
Controlada.
— E agora quer sair como se nada tivesse acontecido.
Um sorriso surgiu.
Lento.
Frio.
— Não funciona assim.
Minha mão voltou ao bolso.
Toquei novamente o tecido.
A única prova.
O único rastro.
Por enquanto.
— Você deixou pistas demais dessa vez… — sussurrei.
Meus olhos escureceram.
— E eu vou seguir cada uma delas.
Me virei.
Caminhei de volta para dentro do escritório.
Já planejando o próximo passo.
Porque aquilo…
Aquilo estava longe de acabar.
Na verdade…
Estava apenas começando.
E, dessa vez…
Não era só um encontro.
Não era só uma noite.
Era uma história inacabada.
E eu não deixo histórias pela metade.
— Onde quer que você esteja, Cinderela…
Minha voz saiu baixa.
Mas carregada de promessa.
— Eu estou chegando.
E quando eu chegar…
Você não vai ter para onde correr. 🖤